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Vamos revisitar a HQ clássica de Frank Miller, Batman o Cavaleiro das Trevas?

  • Título: Batman O Cavaleiro das Trevas – Edição Definitiva
  • Autor: Frank Miller
  • Imagens: Klaus Jason e Lynn Varley
  • Ano: 1986 e 2001
  • Páginas: 512
  • Editora: DC Comics / Panini Books

Apesar de não ser uma ávida consumidora de histórias em quadrinhos, cresci vendo alguns desenhos e filmes baseados neles,  Batman O Cavaleiro das Trevas, dirigido por Christopher Nolan e estrelado por Christian Bale e Heath Ledger é um dos meu favoritos. Por isso, sempre tive interesse em ler a HQ de Frank Miller, que inspirou a história.

Mas só inspirou mesmo, pois o filme tem pouco a ver com a história em quadrinhos, porém mantendo a mesma essência: super heróis ou vigilantes, estão mesmo acima da lei?

As edição definitiva de Batman o Cavaleiro das Trevas possui duas histórias. Uma originalmente publicada em 1986 e a segunda, dando um salto temporal de 3 anos após o final da primeira parte, e que foi publicada em 2001.

A primeira parte começa com um Bruce Wayne de meia idade, já aposentado de suas atividades noturnas há mais de 10 anos. Em breve, o Comissário Gordon irá se aposentar também e emm meio aos trâmites dessa aposentadoria, uma nova gangue surge, causando o caos em Gotham City e matar o comissário está em um dos seus principais objetivos.

Em relação à política externa da época, é apresentado o cenário onde a  Guerra Fria está esquentando. Todas as atividades de vigilantes e super heróis foi considerada ilegal, e os outros membros da Liga da Justiça voltaram para suas casas, seus planos, estão desaparecidos ou apenas escondidos.

“Agora teias crescem e o pó se acumula, tanto em aqui como em minha alma. Ele gargalha de mim, me amaldiçoa. Xinga-me de tolo. Ele invade meu sonho e zomba de mim, arrastando me até aqui quando a noite é longa e minha vontade é fraca. Ele se debate de maneira incansável e raivosa tentando se libertar…”

Em vista desse caos, do tédio da “aposentadoria” e certamente numa crise de meia idade, Wayne resolve voltar a se vestir novamente como o Cavaleiro das Trevas e sair as ruas para prender criminosos. Inspirada por essa volta, uma pré adolescente de 13 anos, Carrie Kelley, decide comprar uma fantasia de Robin e sair de noite combatendo o crime. Mas Carrie não é a única a ter essa ideia. Muitos cidadãos, inspirados pelo vigilante, resolvem sair fazendo justiça com as próprias mãos, inclusive ultrapassando a linha que Batman impôs a si mesmo, de não matar.

“Atos de violência contra criminosos continuam ocorrendo em Gotham. Ainda ninguém sabe ao certo quais deles são obras do Batman e quais ele apenas inspirou.”

Batman o Cavaleiro das Trevas, tanto na primeira quanto na segunda parte, tem uma narrativa que intercala os heróis, os vilões e o noticiário. A imprensa está em cima das decisões políticas em relação a escolha de quem vai substituir Jim Gordon, assim como trás personalidades e profissionais que debatem se Batman é ou não um criminoso que deveria ser preso.

Foi nesse ponto que eu comecei a ficar bastante incomodada. Pois eu sempre gostei de super heróis e sempre li sobre esses conflitos de “quem vigia os vigilantes”como em Watchmen, por exemplo, também da DC Comics. Mas acho que a idade leva a outras percepções, e assim como Bruce Wayne, eu também estou ficando velha.

Nessas reportagens são mostrados argumentos de diversos pontos. Por um lado, a polícia é ineficiente e corrupta, e vigilantes como Batman acabam sendo idolatrados por conseguir fazer o que uma misto de falta de recursos, burocracia e corrupção não conseguem.

Por outro, graças a sua brutalidade com os criminosos, é apresentado por aqueles que se opõe as ações como, em citação indireta à HQ, um fascista que se coloca acima da lei e dos direitos humanos, de modo muito familiar às críticas que lemos sobre certos políticos.

Veja a capa original de Batman Cavaleiro das Trevas:

batman cavaleiro das trevas capa

“— A única coisa que o Batman representa é uma força psicótica coercitiva moralmente falida, politicamente danosa, reacionária, paranóide, um verdadeiro perigo para os cidadãos de Gotham.

— Talvez Morrie. Talvez o Batman seja perigoso, mas não tanto quanto seus inimigos, não é verdade?”

A história gira em torno desta questão, mostrando ao mesmo tempo como o Cavaleiro das Trevas é brutal e também mais eficaz que a polícia em resolver os crimes.

Ao mesmo tempo que é atacado pela imprensa, vilões famosos aparecem. Mesmo tendo estado presos esses anos todos, veem a oportunidade do ressurgimento de Batman como uma oportunidade para destruí-lo de uma vez por todas. A história apresentada em Cavaleiro das Trevas se desenvolve de forma tão rápida e brutal quanto os socos do Homem-Morcego, mas em momento nenhum achei que estava rápido demais ou faltando alguma coisa.

É uma leitura fácil, dá pra ler um uma tarde apesar do tamanho. Todo o clima é bem dark, com cores mais escuras, salvo algumas partes que demandam um pouco mais de cores vibrantes. O clima de tensão é crescente conforme vamos vislumbrando a convergência de personagens, que prepara para o confronto final.

E o questionamento em relação a legalidade das ações não é feita só ao Batman. Após o salto temporal de 3 anos, a segunda parte de O Cavaleiro das Trevas trás de volta a busca do Homem-Morcego pelos outros membros da Liga da Justiça. O conflito então é ampliado, pois temos vários membros de meia idade da Liga, mas que ainda mantém a forma, muito melhor do que o Batman (que não tem super poderes, só super dinheiro) voltando a ativa junto do nosso protagonista para descobrir o que ou quem está por trás do afastamento dos super heróis.

“A dor que já dura três dias arranha minhas costas. Eu espano o pó das articulações e subo. Isto já foi mais fácil.”

A segunda parte foi um pouco menos sombria do que a primeira, inclusive o desenho e as cores são mais vibrantes, e explora muito mais um foco em outro personagem da Liga que no próprio Cavaleiro das Trevas. Achei ela um complemento interessante ao conflito da primeira parte, mas o final não me ganhou tanto quanto o final do primeiro.

Tem alguns pontos que valem a pena destacar. Nas suas duas edições, a HQ traz personagens femininas fortes (literalmente) e traz algumas críticas. Na primeira parte de Cavaleiro das Trevas, além da Robin, temos outra mulher em posição de poder. Achei estranho que os traços da HQ mais antiga fizeram um desenho das personagens femininas um pouco menos sexualizada do que o dos anos 2000. Mesmo assim, vemos críticas machistas a mulheres em que são dadas posições de poder.

Mas um ponto importante que me fez refletir muito foi o lado político da HQ. A época em que Batman O Cavaleiro das Trevas foi escrito estava no final da Guerra Fria, e Frank Miller incluiu um cenário político de caos, onde se desenvolve um conflito territorial e o medo iminente de tornar-se um conflito atômico mundial.

Vemos então que, mesmo que os EUA estejam de um lado do conflito, existe muita oposição as ações e decisões políticas, além de cobranças. A segunda parte não estava mais retratando um foco na Guerra Fria, apesar de se passar numa época em que a URSS ainda existia, mas no seu fim.

Mas o que me chamou a atenção em relação a isso, foi a polaridade das opiniões, a cobrança do público por ações dos governantes e até mesmo a forma como os governantes tentam se esquivar de decisões importantes, focando mais na manipulação do povo em prol de conseguir os votos nas eleições do que fazer o que é certo só me fez chegar à triste conclusão de que em 40 anos nada mudou.

O que mudou foi a forma e intensidade em que as notícias são divulgadas e as opiniões compartilhadas, pois mesmo existindo internet em 2001, não era um acesso facilitado como temos hoje em dia, com smartphones e redes sociais. De forma que antes, se lia os jornais de manhã e assistia ao noticiário de noite, mas hoje somos bombardeados de notícias em tempo real.

“Que luta ainda nos resta pra ser travada? Está tudo acabado. Está acabado há anos. Nós travamos nossa guerra pela liberdade humana…e perdemos. Fomos derrotados, esmagados. Somos uma piada. Somos piores que uma piada. Nós corremos de um lado a outro, impedindo este e aquele desastre…em silêncio, em segredo…mas ainda não fazemos nada em relação ao mal que governa o mundo!”

Talvez, seria mesmo o caso de ter que contar com forças externas, de vigilantes que não respondem politicamente para ninguém, para que possamos ter segurança? Ou apenas nos sentir seguros? Nós temos, no mundo real, a necessidade de super heróis? E quem vigia os vigilantes?

Por fim, Batman o Cavaleiro das Trevas não era exatamente a HQ que eu esperava. Não pensei que sairia com a mente tão explodida e com tantas perguntas e questionamentos. Acho que nunca mais vou ver super heróis com os mesmos olhos, seja pra bem ou pra mal.

“Nós vivemos a sombra do crime, Ted, com a silenciosa certeza de que somos as vítimas…Do medo, da violência e da impotência social. Um homem se ergueu pra nos mostrar que o poder está e sempre estará em nossas mãos. Nós nos encontramos cercados e sob ataque. E ele está mostrando que podemos resistir.”

 

Aqui é a Liv do Resenhas Caóticas, e se você quer acompanhar mais as minhas leituras, me siga no Instagram @ResenhasCaoticas. Obrigada e até a próxima.

 


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Livia Salzani

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2 Comments

  1. Eu vi a animação e estava muito animada para ler a hq na época. Eu não tinha conhecimento que ela abordava essa assuntos e nos transmitia essas sensações. Pelo que falou, eu também iria sentir as mesmas coisas.

    Beijos

    Imersão Literária

    1. Nossa, eu nem vi a animação, queria viu. Obrigada!

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