AODISSEIA
Séries

Barry (2ª Temporada) – A jornada do artista

Uma comédia dramática dividida entre guerras pessoais, ataques de violência e aulas de teatro...


22 de maio de 2019 - 03:02 - Flávio Pizzol

Por mais que a sua timeline do Twitter indique o contrário, a HBO não vive só de Game of Thrones. Para nossa sorte, o canal também possui outras séries que engrossam seu catálogo com roteiros bem escritos, desenvolvimento de personagens e cenas recheadas de tensão que culminam em finais que, mesmo extremamente inusitados, não decepcionam quem decidiu mergulhar naquela história por algumas semanas. Séries – infelizmente, sem nenhum hype – que se preocupam com a coerência de suas escolhas, realmente emocionam e deixam o espectador ansioso pelo próximo capítulo. Séries que mereciam uma audiência uma maior, apesar de viverem muito bem sem tamanha pressão. Séries que hoje serão representadas por um líder divertido, complexo e genial chamado Barry.

Dono de uma das narrativas mais inusitadas que surgiram nos últimos anos, o programa criado por Alec Berg (Silicon Valley) e Bill Hader (Festa da Salsicha) finalmente chega à segunda temporada com a responsabilidade de continuar a jornada inesperada do seu personagem-título: um assassino de aluguel que decide largar tudo para virar ator de teatro em Los Angeles. A grande diferença é que, agora, a trama precisa lidar com as viradas dramáticas e as decisões ousadas que fecharam seu ano de estreia, mantendo as características que deram vida ao show enquanto se aprofunda em relacionamentos, medos, dúvidas e traumas sem medo de flertar com o melodrama.

Um caminho difícil de ser percorrido, principalmente porque depende cada vez mais do equilíbrio perfeito entre a comédia e o drama. E ainda que isso não possa ser considerado uma surpresa para uma série que transformou tal dinâmica na sua essência, é inegável que a segunda temporada de Barray precisa percorrer linhas mais tênues desde o princípio. Tudo comprovado pelo tempo de tela voltado ao luto de Gene, aos traumas de guerra que atormentam o protagonista, aos questionamentos sobre relacionamento abusivo de Sally e a jornada de um “artista” que precisa lutar contra seus instintos em nome daqueles que ama.

Discussões pesadas que tinham tudo para tomar conta da série, caso esse novo ano não fizesse questão de escancarar uma coisa: o maior trunfo de Barry está justamente nessa harmonia de tons. É isso que permite o texto afiado de Hader e Berg desenvolva, com a mesma intensidade, tanto a trama de suspense policial que persegue seu protagonista quanto a jornada meio La La Land que acompanha o grupo de teatro, misturando – muitas vezes num mesmo episódio – piadas brilhantes sobre a letra de um policial, uma guerra entre máfias, sequências de suspense que não abrem mão da violência e alguma reviravolta muito inesperada.

Sim, eu sei que essa combinação de elementos soa duvidosa ou deslocada, mas também adianto que uma das melhores partes da experiência é ver cada uma dessas peças funcionando com precisão individualmente e dentro do conjunto. Inclusive, o quinto episodio dessa temporada se torna o melhor exemplo dessa bizarrice promovida por Barry quando mistura lutadores de Taekwondo, crianças “mutantes” e um policial apaixonado em busca de vingança numa sequência de ações que se dividem entre momentos hilários, altas doses de tensão conduzidos pela urgência e uma violência exagerada que chega muito perto de alcançar proporções “tarantinescas”.

Esse episódio (que, até o momento, foi eleito o melhor da série no IMDB) reúne todas principais características de Barry com personalidade e equilíbrio, mas a verdade é que a “bagunça organizada” apresentada aqui é apenas a porta de entrada para um roteiro intricado e profundo que merece todos os aplausos e prêmios possíveis. Hader e Berg sabem que tem uma comédia de erros com a cara dos Irmãos Coen nas mãos e acertam em cheio ao usar esse contexto cheio de ironia e deboche como pano de fundo para diálogos brilhantes, personagens que realmente evoluem a partir de suas decisões e discussões importantes que, como já foi dito, expandem o show através de questionamentos ácidos sobre a guerra, o show business, o ser humano e muito mais.

A mistura de elementos em questão já teria, na minha humilde opinião, força suficiente para manter as curtas temporadas da série acima da média por algum tempo, porém estamos falando de uma obra que reúne tudo que a linguagem cinematográfica tem de melhor. Tudo culpa de um incansável Bill Hader que, além de ótimo roteirista, continua dando um show à parte como diretor e protagonista de Barry. No primeiro caso, ele divide com Hiro Murai (Atlanta), Minkie Spiro (Kidding), Liza Johnson (Desventuras em Série) e o próprio Alec Berg (New Girl) a responsabilidade decisiva de organizar tantos elementos divergentes em cena, dar ritmo para episódios que vão da calmaria do teatro para a tensão desenfreada em minutos, e concluir o já citado balanceamento dos tons com o timing da câmera.

Todos esbanjam talento e realizam trabalhos incríveis, no entanto acaba sendo fantástico notar como Hader (o único da lista sem trabalhos de direção fora da série) se destaca nos melhores episódios pelo simples motivo de conhecer sua criação como poucos. É óbvio que sua noção de linguagem audiovisual também possui grande importância na equação, porém, no meio de tantos planos-sequência impecáveis que ele espalha pelo quinto episódio, a sua conexão com a história continua sendo um trunfo inquestionável. Ele entende a jornada do personagem e todas as nuances que precisam ser extravasadas por sua própria atuação, indo com muita precisão da apatia quase psicopata da faceta assassina de Barry até o sofrimento de alguém que deseja ter força suficiente para se manter no caminho correto.

São por esses e outros motivos que eu defendo desde o primeiro episódio da série que Bill Hader merece ser premiado em todos os três cargos, levando consigo um elenco coadjuvante que completa a narrativa de Barry com perfeição. Stephen Root (A Balada de Buster Scruggs) e Henry Winkler (Click) brilham mais com a adição de novas camadas aos seus personagens. Sarah Goldberg (Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge) assume o papel de co-protagonista com os questionamentos de Sally sobre mentira, relacionamento abusivo e empoderamento em Hollywood na subtrama mais atual e relevante socialmente da temporada. E Anthony Carrigan (Gotham) continua roubando os holofotes a cada aparição com seu timing cômico absurdo.

A combinação disso tudo resulta numa verdadeira pérola que não deveria ficar escondida sob o oceano de decepções medievais que foi promovido pela HBO nas últimas semanas. Essa segunda temporada mistura risadas, tensão e melodrama de uma maneira que coloca Barry na lista de melhores obras que o canal e a televisão exibiram nos últimos anos, tendo potencial para ir além graças as decisões corajosas de um roteiro que não tem medo de colocar seus personagens em perigo, arriscar na construção de um tiroteio alucinante nos últimos minutos e, acima de tudo, avançar com a trama. Eu não sei quais serão os próximos passos da série (que já foi renovada para sua terceira temporada), mas tenho certeza que vou gostar da jornada.