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Uma boa surpresa do catálogo da Netflix, Bala Perdida mostra que é possível fazer um filme de ação eficiente com muito pouco.


Muita gente liga o cinema francês a “filmes de arte”. Obras sem final que são (supostamente) difíceis de entender ou apreciar. Tudo graças a uma incrível tradição marcada por movimentos como a Nouvelle Vague e diretores que, seguindo a linha de Jean-Luc Godard, se importam mais com a ideia do que com a recepção do público.

No entanto, no meio desse preconceito, muita gente esquece que a França também possui uma ligação muito íntima com filmes de ação que apostam em premissas pouco realistas para injetar adrenalina na plateia. Os exemplos são tantos que eu poderia ficar a tarde inteira falando sobre Táxi (uma franquia que fazia parte da minha infância antes do remake com Gisele Bündchen), B13 e tantos outros filmes com o dedo de Luc Besson (Carga Explosiva, Busca Implacável e etc…). 

Mesmo sendo um filme independente que destoa em termos orçamentários de quase todas as produções citadas, Bala Perdida se encaixa perfeitamente nessa vertente. É deslocado da realidade, tem cenas de ação bem elaboradas e cumpre sua promessa de divertir sem grandes preocupações.

Bala Perdida

Nesse caso, a proposta surtada começa com um detetive que decide enfrentar o tráfico de drogas com carros tunados, “investigadores-pilotos” e mecânicos condenados pela justiça. Depois se transforma numa perseguição mortal entre policiais corruptos e um mecânico disposto a provar sua inocência.

O longa não se prende em grandes explicações, nem se preocupa em fugir de temas comuns. É um filme simples que vai direto ao ponto enquanto fala (de maneira superficial, porém suficiente) sobre corrupção policial, sobrevivência, amizade e presidiários que não merecem ser classificados como vilões por causa de uma condenação. 

É claro que o resultado acaba sendo essencialmente óbvio, mas Bala Perdida sabe usar isso a seu favor. Assim como acontece em A Terra e o Sangue (outro bom filme francês que estreou esse ano no serviço de streaming), o praticamente novato Guillaume Pierret abraça a simplicidade e explora suas possíveis limitações de maneira certeira.

Bala Perdida

Ele entende que possui, entre outras coisas, um orçamento bastante restrito, então decide que a melhor opção é ser sincero com sua própria produção e com o público. Isso significa, em outras palavras, construir uma história com pontos de apoio eficientes e cenas de ação bem coreografadas pra entregar algo próximo daquilo que o espectador estava esperando quando clicou em assistir. Desde que essa expectativa não esteja em torno de algo parecido com Velozes e Furiosos

Talvez até seja possível traçar alguns paralelos entre Bala Perdida e o primeiro longa da franquia estrelada por Vin Diesel. Aquele que estava mais pro gênero policial do que pra fantasia, porém seria injusto com a narrativa conduzida por Pierret. Ele tenta encontrar um meio-termo razoavelmente equilibrado entre realidade e piração, enquanto constrói uma jornada de sobrevivência recheada por pancadaria e soluções mecânicas que priorizam a durabilidade no lugar do estilo.

Ás vezes, Pierret apela para um maniqueísmo bastante simplório, mas isso é quase um mal necessário se levarmos em consideração os objetivos do longa. Afinal, sem a possibilidade de ter grandes reviravoltas ou carros voando pelos céus de Paris, ele precisa prender a atenção do espectador através de uma disputa franca entre o bem e o mal. E convenhamos que ninguém resiste a possibilidade de torcer por um herói que foi preso por motivos nobres numa luta contra vilões caricatos, principalmente quando existe a chance desse último sofrer punições a altura do mal que está causando.

Bala Perdida

É uma dinâmica muito básica (fato!) que, em diversos momentos, gera situações que podem ser chamadas de clichês, mas o longa como um todo não se perde. Inclusive, o que mais me impressionou foi ver Bala Perdida equilibrando escolhas fáceis com pequenas subversões. A revelação e a conclusão do antagonista, por exemplo, não caem num lugar tão óbvio, e mostra justamente como o diretor escolhe flertar com algo mais complexo e profundo de forma pontual.

No restante da produção, ele só quer brincar com o gênero e injetar adrenalina no público através de um desenrolar ágil, funcional e divertido. Jamais tenta reinventar a roda ou ser um grande filme, mas cumpre sua proposta de maneira bem convincente. É possível, como sempre, que a proposta não te agrade, porém eu garanto que Bala Perdida é uma surpresa mais do que agradável em comparação com as obras questionáveis que ocuparam o TOP 10 da Netflix nas últimas semanas.


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Bala Perdida (2020)

7.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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