AODISSEIA
Filmes

Bacurau – Uma ode à resistência brasileira

O Brasil, literalmente, acima de tudo e de todos!


27 de agosto de 2019 - 03:14 - Flávio Pizzol

Se fere a nossa existência, seremos resistência… Ou melhor, seremos Bacurau.


A filmografia do pernambucano Kleber Mendonça Filho, embora curta quando pensamos em longas-metragens, já nos presenteou com obras recheadas de histórias que discutem temas universais sem deixar de lado a nossa identidade, personagens fortes e críticas bem ácidas. Bacurau tem tudo isso inserido no seu DNA, mas, surpreendentemente, escolhe desbravar trilhas que passam bem longe do estilo de O Som ao Redor ou Aquarius. E acreditem: esse é o atalho que conduz o espectador a uma experiência visceral, atordoante, necessária e completamente inesperada.

Em primeiro lugar, isso nos leva ao fato de que, antes de abrir a boca, devo ressaltar o quanto essa opção (muito bem-vinda e acertada) por escolhas tão imprevisíveis pode dificultar o trabalho deste pobre crítico que vos escreve, principalmente quando se leva em conta que o trailer não revela praticamente nada sobre a trama principal. É provável que você entre na sala achando que vai assistir uma história típica sobre as mazelas de uma cidade nordestina que desapareceu do mapa e é exatamente isso que tem que acontecer, porque Bacurau depende desse desconhecimento prévio para construir todas as quebras de expectativas que o impulsionam durante a projeção.

Não é a toa que o filme “gasta” muito tempo com um primeiro focado na cidade, seus habitantes e suas particularidades, usando a personagem Teresa como uma porta de entrada que apresenta Bacurau para o público. Através do ponto de vista de quem retorna para casa após muito tempo e precisa de informações, ela tem a função de posicionar as peças dessa sociedade cercada por problemas atuais num futuro distópico sem cair no didatismo exagerado. Missão cumprida com perfeição por um roteiro que coloca tudo em cena com a devida agilidade, prendendo o espectador numa teia de informações composta tanto por sugestões (bizarras à primeira vista) que amarram o roteiro, quanto por elementos que constroem a verossimilhança desse mundo que, apesar dos paralelos imediatos, continua sendo narrativamente novo. Um novo bastante estranho, mas crível.

O que eu posso dizer, sem revelar muito, é que o cerne do filme está na ideia de reunir e subverter referências e clichês tradicionais da sétima arte. É verdade que, antes da principal reviravolta, muitos desses aspectos estereotipados chegam bem perto de incomodar por conta do nível de caricatura imposto pelo texto, mas a segunda metade da produção logo vem com os dois pés no porta para revelar que tudo fazia parte dessa proposta de inversão que acaba sendo a grande sacada política do longa. Isso porque seu discurso aparentemente simplista que não afeta o brasileiro, satirizando assim o estrangeiro e nos colocando no topo da cadeia alimentar da força de vontade, da garra e da resistência que residem no nosso sangue. Uma solução narrativa que, no final das contas, resulta numa espécie de defesa nacionalista que entra em choque com o enunciado vigente do país por realmente valorizar o brasileiro.

Tudo embrulhado numa mistura chocante de ação, faroeste, suspense e ficção científica que, no meio do caminho, ainda encontra tempo para cutucar várias feridas abertas na nossa sociedade. Temos sulistas declarando sua superioridade em relação nordeste, políticos que abrem mão do seu “país” em troca de qualquer merreca, execuções públicas acontecendo no Vale do Anhangabaú, e até uma lanterna sendo assustadoramente confundida com arma. Uma sequência de tapas na cara onde esse último tópico se destaca como parte essencial de uma grande crítica a política armamentista que ganha força a partir do uso errôneo daqueles que seriam o exemplo.

A direção – dividida entre Kleber e o igualmente incrível Juliano Dornellas (O Ateliê da Rua do Brum) – surge no meio disso tudo como uma força devastadora que organiza essa quantidade riquíssima de elementos, clichês e camadas que vão se revelando no decorrer do filme. Um trabalho que merece ser sentido em meio aos planos abertos que aproveitam a beleza natural do sertão, a uma trilha sonora que brinca com referências hollywoodianas sem abrir mão das coisas que só podem ser encontradas aqui, à câmera que percorre os cenários com sua tensão crescente e constante, e a uma narrativa que transita por diversos gêneros usando a violência (muito mais gráfica e exagerada do que qualquer um esperava) como ferramenta simbólica de resistência.

Uma construção temática que ainda encontra seu último impulso em um elenco multitalentoso que emana diversidade através da presença igualitária de estrelas internacionais, jovens talentos e inúmeras personalidades locais. Entre os personagens cheios de nuances que se antagonizam no meio dessa cidade isolada, os destaques ficam com Udo Kier (Pequena Grande Vida), Sônia Braga (Extraordinário), Silvero Pereira (A Força do Querer), Barbara Colen (Aquarius), Wilson Rabelo (A Próxima Vítima), Thomas Aquino (3%), Karine Teles (Benzinho), Alli Willow (O Escolhido) e mais alguns nomes americanos pouco conhecidos por aqui.

No fim das contas, eles assumem uma parte importante da missão que é dar vida a essa alegoria política cheia de metáforas que deveria ser apreciada por todos os cidadãos brasileiros. Junto com os diretores, eles lutam para elevar Bacurau ao posto assumido de simbolo reacionário (que certamente seria censurado, se fosse dar seus primeiros passos hoje) cujo objetivo é retratar o brasileiro com a voz que ele merece ter. Um modelo de subversão impactante que merece ser visto na tela grande não só por suas qualidades cinematográficas, mas também por funcionar como uma última tentativa de “desenhar” certos aspectos da nossa sociedade para aqueles que deixaram seus cérebros para trás na última campanha eleitoral. Uma obra-prima que, acima de qualquer lista de melhores do ano, merece aplausos por mostrar o valor cada vez maior do nosso grito de resistência mais verdadeiro.


OBS 1: Mais do que nunca, o Brasil precisa de um filme tão politizado e necessário como Bacurau representando o país no Oscar!