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Baco Exu do Blues: Não Tem Bacanal na Quarentena

baco exu do blues
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Baco Exu do Blues não se leva a sério e vai da chacota ao bom som em seu novo EP, feito exclusivamente para nos distrair


Título: Não Tem Bacanal na Quarentena
Artista: Baco Exu do Blues
País: Brasil
Lançamento: 30 de março de 2020
Gravadora: 999/Altafonte
Número de faixas: 9
Duração: 24min25seg


Mesmo sendo um homem negro cantando rap, Baco Exu do Blues é uma persona non grata na internet. Ele virou chacota por conta do conteúdo de suas músicas que sempre o exaltam, falam de sexo, putaria e uma realidade que para muitos parece ilusória. Apareceu com o single “Sulicídio”, foi alçado a fama com o primeiro disco “Esú”, que veio com o hit chiclete “Te Amo Disgraça” e chegou ao mainstream e ao auge com “Bluesman”.

Mesmo assim, Baco levanta muitos questionamentos, não apenas na vida pessoal, mas pelo seu talento. O homem negro é sempre cobrado duas vezes, o homem negro nordestino mais ainda, e o homem negro nordestino e fora dos padrões, não preciso nem dizer, pois sou prova viva disso.

baco exu do blues

Por vezes surge um questionamento: e se Baco fosse gringo? Será que estaríamos questionando suas letras de qualidade duvidosa e seus beats inspirados em artistas da cena como Djonga, Froid, Menestral, BK, etc? Te respondo: Não. Ele não seria tão exigido assim. De certo modo indo na contramão de sua fama, Baco Exu do Blues tem seus fãs e pra eles fez um EP, que segundo o próprio foi produzido em 3 dias num estúdio caseiro.

“Não Tem Bacanal na Quarentena” tem músicas rápidas, dinâmicas e envolventes, algumas compostas em 5 minutos, com exceção da segunda faixa “Tudo Vai Dar Certo”. O nome não apenas faz referência ao tempo atual em que vivemos com a questão do isolamento, mas também adia o lançamento de seu terceiro álbum de estúdio “Bacanal”, que será lançado após esse período conturbado.

Falando nisso, Baco evidencia os horrores e males dos tempos atuais em cada uma das faixas, desde o difícil momento político, até heróis improváveis como Cardi B e Babu Santana. Talvez essa busca por uma seriedade tenha feito o rapper abrir os trabalhos com “Jovem Preto Rico”, uma das letras mais fortes do EP. Nela, Baco reverencia umas das falas mais marcantes de Cidade de Deus e com os trechos “olhe no meu olho” e “não dê esse gosto a eles” denotam o preconceito e a violência policial.

A segunda e já citada (“Tudo Vai Dar Certo”) é a que tem a letra mais elaborada e esperançosa. Começando com o sample de “All That This You” (My And My Friends), a faixa conta com a linda voz de 1LUM3 (que esteve com ele no sucesso “Me Desculpa Jay Z”) e panelaços contra Jair Bolsonaro. O EP segue com a primeira love song “Ela É Gostosa Pra Caralho” que traz o forte tom erótico de Baco e tem a bela e sensual voz de Maya.

“Preso em Casa Cheio de Tesão” lê a mente de 99% dos jovens nessa quarentena. Provavelmente a mais fraca do EP, a música tem o sample de “U Deserve It” do Trippie Red e a voz de Lellê preenchendo tudo de forma melódica. As canções seguintes são a parte alta do trabalho. “Humanos Não Matam Deuses” tem uma batida gostosa e um discurso poderoso sobre raízes como diz o trecho: “gostar da cultura não te faz preto/cê ter dinheiro não te torna branco”.

A harmônica “O Sol Mais Quente” tem a forte voz de Aisha e reforça o orgulho da pele preta. Parecida com a música “Fran’s Cafe” de Froid, Baco compara o surto do corona vírus a escravidão com o trecho: “corona vírus me lembra a escravidão/brancos de fora vindo e fodendo com tudo”.

baco exu do blues

Surpreendentemente a melhor faixa do EP não tem Baco nos vocais e tem o pior nome. “Dedo No Cu e Gritaria” pode afastar os desavisados, mas com sua batida estilo Z’Africa Brasil, uma pegada nordestina com referências a “O Homem Que Desafiou o Diabo” e “O Auto da Compadecida”, a canção tem as vozes de  Celo Dut, Vírus e Young Piva, MCs do selo 999. Os três trazem suas vozes carregadas de regionalismo, com Vírus praticamente recitando seus versos e Piva os proclamando de forma mais incisiva.

A seguinte e sagaz música exalta Babu Santana, sua carreira de ator e cantor, e sua saga como morador de favela e participante do BBB 20. Contando com a voz do também produtor e engenheiro de som Dactes, “Tropa do Babu” tem um sample oriental ao fundo e compara Babu a um Rock Lee Petro, como se ele tivesse que trabalhar duas vezes mais para conseguir o que quer. Além disso, a faixa termina com um dos discursos mais emblemáticos do paizão.

Baco Exu do Blues encerra o EP com a música mais divertida, “Amo Cardi B e Odeio Bozo”. Fazendo referência ao vídeo famoso onde Cardi B pede que as pessoas lavam as mãos por conta do “corona váirus” e diz “shit is real”, a faixa é todo construída em cima das falas da rapper americana com uma batida de funk carioca e depoimentos de pessoas de diferentes comunidades e periferias, que estão sofrendo com a quarentena.

baco exu do blues

Com 9 faixas que duram um pouco menos de 25 minutos é evidente que o rapper baiano Baco Exu do Blues quis se divertir e nos distrair com “Não Tem Bacanal na Quarentena”. Atual, espontâneo e com títulos que não demonstram o real valor de suas músicas, a arte na capa do novo álbum de Baco Exu do Blues, assinada por Guil, faz referência à do álbum Ready to di’e, do rapper Notorious Big. Nesta versão, o bebezinho de black power virou um Ursão com máscara e álcool em gel.

Tiago Cinéfilo
Há 4 anos nessa viagem. Estudante de Rádio, TV e Internet. Ex-Clock Tower, ex-Cinema Com Rapadura e ex-fã de The Walking Dead.

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