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Aves de Rapina é menos surtado do que parecia, mas acerta em cheio no tom equilibrado, na violência e nas suas protagonistas fodonas!


Após algumas apostas de qualidade questionável como Elektra e Mulher-Gato, os filmes de super-herói estrelados por mulheres foram tratados como uma espécie de tabu por muitos anos. A questão é que a maioria dos exemplares usados como base para essa análise esbarravam em dois fatores: eram comandados apenas por homens; e não funcionavam como filme. Demorou muito tempo para esse estigma ser quebrado e filmes como Mulher-Maravilha e Capitã Marvel ganharem as telas, mostrando que mulheres no comando de boas histórias geram grandes sucessos entre a crítica e o público.

E é seguindo essa onda que só pode ser classificada como “fantabulosa” que Aves de Rapina – e seu incrivelmente longo subtítulo sobre a emancipação da Arlequina – chega aos cinemas com a responsabilidade de reunir pela primeira vez um grupos composto apenas por quase heroínas. Um grupo de personagens desconhecidas do grande público que precisa, no meio de suas buscas pessoais por independência, se reunir de um jeito quase involuntário para enfrentar um chefe do crime afetado e perigoso.

Parece algo completamente “fora da casinha” e realmente é assim até certo ponto. Não posso negar que a premissa abraça essa loucura que deveria ser obrigatória quando se fala da Arlequina, mas também preciso avisar (com alguma tristeza) que como um todo Aves de Rapina escolhe ser mais formulaico do que precisava. A loucura é apenas um elemento que surge de maneira pontual nas personalidades ou no visual, mantendo a narrativa dentro de uma bolha que não foge do clássico e padronizado “filme de origem”. Até rola uma tentativa de brincar com as linhas temporais, porém a quantidade de produções que usou tal recurso nos últimos anos não permite que o resultado seja tão inventivo assim.

aves de rapina

E isso pode decepcionar quem, assim como eu, esperava algo mais inovador ou exagerado, mas não anula um roteiro que se mostra bastante equilibrado e eficiente dentro dessas escolhas básicas. O texto de Christina Hodson (Bumblebee) passeia bem por diversos gêneros e estilos, usa as idas e vindas no tempo de forma bacana, acerta no equilíbrio entre humor e ação, amarra suas resoluções com pistas lançadas anteriormente e desenvolve todas as protagonistas com precisão. Isso sem contar com o fato louvável de que o longa consegue manter o tom escolhido até seus momentos derradeiros, deixando claro que os executivos intrometidos são um fantasma que a Warner espantou de uma vez por todas.

Tudo dentro de um roteiro que não só entende a importância do protagonismo feminino, como coloca diversos elementos temáticos no centro da trama sem medo de incomodar as alas mais machistas do público nerd. E não poderia ser diferente, afinal estamos falando de um filme cuja a história gira em torno de mulheres que se reúnem em nome da mais pura sororidade, enquanto confrontam seus próprios problemas dentro de jornadas que dividem a tela de maneira bastante parecida. Inclusive, Arlequina só ganha o posto de protagonista por ser a narradora, porque, no final das contas, ela está mais pra um “investidor-anjo” que usa sua fama pré-estabelecida para impulsionar uma startup chamada Aves de Rapina.

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Mas calma que essa decisão de marketing interfere muito pouco na narrativa em si, já que tanto o roteiro quanto a direção de Cathy Yan (Dead Pigs) equilibram com precisão os papéis de cada uma das aves de rapina, as lições de empoderamento, o timing cômico e as sequências de ação que precisam existir num filme de super-herói. Essas, por sinal, se destacam pela inventividade, pela fluidez da câmera, pelos cortes enxutos, pelas coreografias que extraem o máximo de cenários e personagens e pela violência que chama atenção sem precisar apelar pro gore sem propósito. Destaque para a cena da prisão com suas porções generosas de água, purpurina e tinta colorida.

No entanto, ao lado desse pacote básico que ela controla com maestria, Cathy Yan ainda deixa claro que sua bagagem cinematográfica possui alguns diferencias ligados estreitamente ao fato dela ser uma mulher vinda do cinema independente. Algo que reflete, por exemplo, numa direção de atores que presta atenção na química entre o grupo, porque sabe que o relacionamento entre as Aves de Rapina precisa passar verdade pra conquistar o espectador. E o resultado é justamente uma dinâmica honesta e cheia de carisma que faz qualquer pessoa torcer para Margot Robbie (O Escândalo), Mary Elizabeth Winstead (Rua Cloverfield, 10), Rosie Perez (O Conselheiro do Crime), Jurnee Smollett-Bell (Mãos de Pedra) e Ella Jay Basco (Vice) no duelo contra o afetadíssimo psicopata interpretado por Ewan McGregor (Fargo).

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Isso tudo sem citar alguns detalhes decisivos que só poderiam marcar presença no trabalho de alguém que não está interessada apenas na construção de cenas de ação genéricas. Ela está interessada nas personagens, em suas personalidades e nas pequenas características que fazem elas serem aqueles mulheres “fantabulosas”. Mesmo estando em segundo plano, a cena em que Arlequina oferece um elástico de cabelo para a Canário Negro no meio de uma luta reflete exatamente isso. E, no final das contas, são essas pequenas particularidades que fortalecem as protagonistas, deixam Aves de Rapina com a cara delas e enriquecem uma das experiências mais divertidas e hipnotizantes do ano.

Tanto que, apesar de estar no grupo de quem esperava mais loucura, eu não vejo a hora de ver Canário Negro, Renee Montoya, Cassandra Cain e Caçadora lutando novamente contra os criminosos de Gotham.


OBS 1: A trilha sonora é foda demais!

OBS 2: Não, esse não é o filme da “muié do Coringa”.

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8

Apesar de alguns problemas de roteiro, Aves de Rapina é tão divertido, violento e surtado quanto merecia.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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