AODISSEIA
Séries

Atlanta: Robbin’ Season – 2ª Temporada

Donald Glover matando um crocodilo por dia.

29 de Maio de 2018 - 16:33 - Tiago Soares

Quando séries geniais como Atlanta voltam de seu longo hiato, por mais que se confie em sua produção e quem está por trás dela, surge um certo receio de um segundo ano abaixo do anterior. Ainda mais por Atlanta ser uma série premiada, aclamada pela crítica e por Donald Glover estar em alta – após o clipe de sua nova música sobre a alcunha de Childish Gambino – “This is America“.

Master of None com uma segunda temporada genial, e a recente temporada ainda no ar de The Handmaid’s Tale, de certa forma tiram a desconfiança de uma continuação abaixo da média. Se depender do criador, diretor, produtor e estrela da série Donald Glover, Atlanta nunca cairá no quesito qualidade, e foi exatamente o que aconteceu.

Apesar de achar a primeira temporada mais regular – mantendo a genialidade em uma linha reta – a segunda temporada vem com episódios mornos, alternados por picos de genialidade absurdos. Glover não é bobo, e assim como fez em 2016 na primeira temporada, quando utiliza tudo ao seu favor e reverencia inúmeras outras obras, aqui não faz diferente.

Corra! de Jordan Peele é uma delas, e se Earn parecia azarado na primeira temporada – nessa tudo parece estar contra ele – é uma bola de neve feita de caos, sombreada por picos muito pequenos de rara felicidade. Earn é a figura do fracasso, seja através de suas atitudes, ou de um sistema que discrimina o negro da periferia. Em sua saga de trazer sucesso ao primo Alfred “Papper Boi” Miles (Brian Tyree Henry), Earn passa pelas mais variadas situações absurdas.

Em entrevista, Glover disse que gostaria de fazer um “Twins Peaks de rappers”. Lynch estaria orgulhoso de visse Atlanta, já que todos os absurdos de uma das melhores séries de todos os tempos, estão presentes na obra do pequeno gênio.  Ao brincar com o absurdo, Atlanta sobre o subtítulo de Robbin’ Season, faz uma dura crítica a sociedade americana atual e seus white people problems eternos, ao mesmo tempo em que apresenta a real condição e lugar do negro na sociedade.

Seja uma nota de 100 dólares, sua erva, seu pequeno negócio e até o seu tempo, tudo é roubado por algo ou alguém nessa temporada. A linha tênue entre o fracasso e o sucesso nunca esteve tão nítida e ao mesmo tempo distante. É como se os devaneios do ótimo Darius (Lakeith Stanfield) – que ganha um merecido destaque nesse ano – se tornassem palpáveis.

Earn caminha de forma passiva, enquanto vê os abusos contra sua vida tomarem conta da sua paz, seja no relacionamento com Van ( Zazie Beetz) – que em vez de um episódio, tem dois focados nela – e sua relação com Paper Boi que está por um fio. A essência dos personagens continua a mesma, com a fama servindo como uma mero pano de fundo, as vezes benéfica, mas na maioria das ocasiões, incômoda.

A fotografia e a trilha sonora já se tornaram marcos de Atlanta. A primeira sempre escura e com o ar tenebroso, a segunda se atualiza com sons de Dualipa e Kendrick Lamar. A excelência passeia entre a trinca de melhores episódios dessa temporada na minha opinião, o quarto (Helen), o quinto (Barbeshop) e o sexto (Teddy Perkins), esse último cercado de referências a filmes de terror e analogias a vida de grandes artistas. Pode-se dizer que Teddy Perkins é o B.A.N. desta temporada, tudo isso graças a direção e atuação assustadora de Donald Glover.

Hiro Murai, parceiro de Glover na primeira temporada, dirige mais episódios neste segundo ano, e também dirigiu o clipe citado acima. O japonês divide a função com Glover e Amy Seimetz, agregando com seus planos longos, deixando a câmera contar a história escrita por Glover. A trinca final: episódios 9 (North of the Border) , 10 (FUBU) e 11 (Crabs in a Barrel), fecham a segunda temporada de maneira nada convencional e ainda evolui os personagens, fazendo-nos entender o porquê de serem como são.

A principal qualidade de Atlanta está em se permitir abordar diferentes temas e tons a cada episódio. Episódios de uma mesma temporada, que falam sobre a mesma coisa, mas que são completamente diferentes entre si. Muitos poderiam julgar isso como falta de foco, eu prefiro ver como genialidade.