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As Veias do Mundo | Sonhos nômades

As Veias do Mundo

Produção da Mongólia sobre uma família nômade, As Veias do Mundo é alimentado por sonhos e militâncias que passam de pai para filho


Amra é um garoto nômade que tem a vida mais normal possível: vai pra escola, cuida das cabras da família e sonha em participar de um popular show de talentos. No entanto, seus sonhos e sua infância são brutalmente interrompidos quando seu pai morre e ele decide assumir a luta da família contra as empresas mineradoras que exploram a região.

Era uma vez / quando a ganância não prevalecia / no início dos tempos / nosso planeta era tecido de ouro / é por isso que o chamados de Terra Dourada”

As Veias do Mundo não tem nada de traição entre irmãos ou referências a Rei Lear, mas, por algum motivo, eu me peguei pensando em Rei Leão durante várias passagens do longa. Uma evocação criada, imagino eu, tanto pela construção do clima, quanto por alguns paralelos narrativos.

Temos as histórias sobre antepassados, as belas paisagens preenchidas por montanhas e animais, e até mesmo a dolorosa morte do pai. A única diferença é que aqui o Simba (ou, nesse caso, o Amra) não fugiu quando precisou ocupar o lugar de seu pai. Tudo bem que sua vida não foi ameaçada por nenhum Scar, mas ele não titubeou na hora de abandonar suas liberdades e carregar o legado de Erdene, seja como militante ou como “homem da casa”.

Duvido muito que a animação da Disney faça parte das referências reunidas por Byambasuren Davaa (Camelos Também Choram) para esse trabalho, mas eu gosto do paralelo principalmente pela maneira como os longas mostram formas diferentes de passar o bastão. Porque é isso que As Veias do Mundo é: um filme sobre gerações que são criadas para lutar por uma causa, seguindo em frente no lugar de seus antepassados.

Ouro é felicidade inatingível / ouro é sofrimento infinito / essa verdade é contada por gerações / de avós para pais e para nós”

Simba fazia parte da nobreza, logo ele não precisava lutar pelo que é seu da mesma maneira como os nômades da Mongólia precisavam (e precisam até hoje) fazer. Ele não precisava entender que nenhum sonho pessoal é mais importante do que defender o que é seu, da sua família, de forças governamentais que não se importam com você.

E eu acho muito bonito e genuíno como Davaa deixa claro que essa passagem de bastão é praticamente inconsciente. Afinal, ninguém da família ou do grupo de nômades cobra um posicionamento ou pede para que ele assuma. Ele só faz, como se o sangue fervesse ou o espírito do pai tomasse conta dele.

É verdade que tudo isso está incluído dentro dessa história totalmente clichê do “garoto que sonha em ser famoso, mas vê tudo ir por água a baixo quando uma tragédia familiar atravessa seu destino e o obriga a viver a vida”. É uma premissa tão comum que eu não consigo nem dizer quantas vezes já assisti coisas parecidas, mas, por incrível que pareça, tal repetição não me incomodou.

O motivo é que As Veias do Mundo é genérico, porém consegue ser genérico da maneira mais honesta possível. Você sente a verdade e o carinho que a diretora tem por aquela história, por aquele lugar, transbordarem da tela, e isso ajuda a criar um longa apaixonante.

Os personagens são carismáticos, conquistam a empatia do público de forma quase instantânea e conduzem o longa por uma estrada tocante. Entretanto, é impossível falar sobre essa conexão entre personagens e audiência sem se render ao trabalho do jovem Bat-Ireedui Batmunkh. Em sua primeira atuação na história, ele simplesmente carrega o filme. O pai é importante no início e a mãe cresce muito no final, porém ninguém consegue expulsar o garoto do cargo de “dono do filme”.

Quando a última veia dourada estiver exposta / os demônios acordados / a vida será pra sempre extinta / e a terra se transformará em pó”

É verdade que, em certos momentos, As Veias do Mundo cai em soluções mais artificiais, mas, no geral, funciona em todos os âmbitos propostos. É um filme-denúncia sólido e sem muito maniqueísmo, um ótimo “filme de cotidiano” sobre a realidade dos nômades e um drama familiar emocionante. Uma opção sensível e certeira para quem quer passear pelo pouco conhecido cinema da Mongólia.


As Veias do Mundo foi conferido nas cabines de imprensa da Mostra de São Paulo 2020


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