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Filmes

As Panteras – Divertidas, despretensiosas e empoderadas

Um dos filmes-pipoca mais divertidos e satisfatórios do ano.


17 de novembro de 2019 - 12:42 - Flávio Pizzol

Reunindo um elenco divertido, humor certeiro e representatividade, a nova versão de As Panteras chega aos cinemas como um dos filmes mais satisfatórios da temporada.


Sempre que algum remake (ou continuação aleatória) ocupa as salas de cinema, alguém se dá ao trabalho de fazer a mesma pergunta: “era mesmo necessário?”.

É bem provável que a resposta seja não em quase todas as oportunidades, incluindo, no mesmo bolo, filmes de super-heróis, versões live action e mais uma porção de coisas que tem feito sucesso ultimamente.

Afinal de contas, nem todo filme precisa transformar a história do cinema ou mudar a vida de quem assiste para “fazer valer” sua produção. Alguns filmes só querem funcionar como um bom e velho entretenimento dentro de um nicho onde a nova versão de As Panteras se encaixa com perfeição.

A história, como todo mundo esperava, acompanha três agentes (duas oficiais e um improvisada, nesse caso) em missões secretas com o objetivo de impedir que uma nova tecnologia caia nas mãos erradas e seja transformada em uma arma extremamente perigosa.

Tudo muito bem batido e mastigado para evitar confusões que compliquem a experiência do espectador que só quer sentar e se divertir durante quase duas horas de espionagem e cenas de ação.

 

 

Uma escolha questionável que deixa de ser um problema a partir do momento em que o filme assume que o seu objetivo é exatamente esse.

As Panteras faz isso através de uma uma fórmula simples, direta e funcional que só toma algumas precauções em relação ao didatismo das reviravoltas, garantindo que as mudanças de lado sigam o caminho esperado de um longa com espiões e confundam o espectador por alguns instantes muito bem calculados.

O resultado é um feijão com arroz que segue a receita ao pé da letra sem reinventar a roda, correr riscos ou cometer erros supostamente desnecessários.

No entanto, tal missão só é cumprida de maneira tão correta por conta das boas personagens (e suas personalidades bem divididas), dos arcos bem construídos, do humor afiado, dos assassinos silenciosos, dos coadjuvantes caricatos e do texto que amarra tudo isso com uma eficiência considerável.

Mesmo trabalhando naquela já citada zona de segurança dos filmes-pipoca, Elizabeth Banks (Jogos Vorazes) entrega tudo que o público pode esperar de um longa como As Panteras, faz boas escolhas narrativas em sua estreia como roteirista e faz bom uso dessa representatividade que, querendo ou não, faz parte da franquia desde seu nascimento.

Algo que ela inclui na trama com as medidas exatas, invocando em diversas sequências de ação com potencial de empoderar e arrepiar outras mulheres.

 

 

Acaba sendo até curioso notar que Banks acerta mais no texto do que na direção, apesar de ter mais experiência no segundo cargo.

Seria bem fácil colocar a culpa nas cenas de ação que surgem como novidade dentro de uma carreira ligada quase sempre a comédias em seu estado puro, mas a verdade é que a balança pesa para o lado da escrita por conta de pequenos detalhes.

Ela tem sim algumas dificuldades com a “pancadaria” e deixa visível o uso de dublês em diversos momentos, mas não comete nenhum erro que prejudique a experiência.

Inclusive, considerando que esse seja seu ponto fraco, podemos dizer que ela consegue mascarar essas dificuldades com uma bom equilíbrio entre aquela ação mais brutal (tipo John Wick ou Atômica) e algumas sequências que exploram o conceito stealth da espionagem com bastante competência.

Tudo preenchido por dois elementos que ela domina sem nenhum questionamento: o timing cômico e a direção do elenco. Conquistas garantidas pelos fatos inegáveis de que As Panteras arranca boas risadas sem dificuldade e realmente se destaca quando o assunto é seu casting certeiro. As três protagonistas, por exemplo, funcionam de um jeito surpreendentemente bom.

Naomi Scott (Aladdin) funciona como a catalisadora deslocada e ingenua da trama; Kristen Stewart (Para Sempre Alice) conquista o público com doses de carisma que surgem na tela através de trejeitos contentes que raramente acompanham a atriz; e Ella Balinska (The Athena) rouba os holofotes com o arco mais desenvolvido, escondendo muito bem sua inexperiência como atriz.

 

as panteras noah

 

Isso sem contar com os inúmeros coadjuvantes de peso que incluem Sam Claflin (Vidas à Deriva) como um milionário caricato e funcional, Jonathan Tucker (Westworld) fazendo uma versão mais calada e ameaçadora do capanga clássico, Noah Centineo (Para Todos os Garotos que Já Amei) abandonando sua vaidade para dar vida a um nerd charmoso que poderia aparecer mais sem nenhum problema e um trio de chefes brilhantemente formado por Patrick Stewart (Logan), Djimon Hounsou (Shazam!) e a própria Elizabeth Banks (Power Rangers).

Inclusive, esses três se destacam por serem peças fundamentais dentro de uma expansão de universo que engloba – com requintes de surpresa – tanto a série clássica, quanto os longas dos anos 2000.

Um detalhe inesperadamente fora da curva que chama atenção dentro de uma produção que escolhe ser simples para cumprir sua missão com louvor.

Um longa despretensioso que apresenta três espiãs carismáticas, abrindo espaço para a criação de uma nova franquia onde mais nuances possam ser exploradas.

Um filme cuja maior preocupação é, acertadamente, honrar o legado das Panteras e divertir o público com uma nova versão atualizada, divertida e empoderada.