AODISSEIA
Séries

As Mortes de The Walking Dead


24 de outubro de 2016 - 10:00 - Flávio Pizzol

Quem são as vítimas de Negan?


Sim, The Walking Dead está de volta com as devidas respostas para o seu maior e mais contestado cliffhanger até hoje. Eu ainda não concordo com o final da sexta temporada (entenda o porque aqui), mas preciso admitir que o episódio de retorno trouxe de volta as melhores qualidades da série: direção precisa, maquiagem bem feita, fidelidade à HQ e muita tensão. “The Day Will Come When You Won’t Be” me deixou sem fôlego em diversos momentos e desconstruiu em 15 minutos tudo o que o Rick demorou sete anos para conseguir. Mais do que isso, Negan pensa que é um tipo de Deus (observem a referência à passagem de Abraão) e o episódio passou toda a sensação de impotência que o grupo e todos nós deveríamos ter sentido por seis meses, caso a tal morte tivesse sido revelada lá atrás.

[Esse texto tem muitos spoilers. Se não acredita, leia o titulo mais uma vez…]

Gostei demais do que foi apresentado, mas não vou me alongar em um texto sobre o episódio. O objetivo desse texto é tecer algumas pequenas considerações sobre um dos momentos mais esperados e intensos do episódio: as mortes de Abraham e Gleen. Mas antes podemos glorificar de pé, por que os roteiristas decidiram revelar tudo nos primeiros quinze minutos.

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Todos já sabemos de cor que na HQ (edição 100, para ser mais específico) a única vítima da apresentação do vilão é o nosso querido Gleen, mas também já sabemos que essa mudança de personagens em mortes icônicas já se tornou um marco da série. É a fórmula perfeita para agradar quem acompanha o material original, surpreender os espectadores do seriado e vai ser usada até o final da série. O próprio Abraham já passou por isso quando a médica assumiu sua morte com uma flechada no olho. Ou seja, já era esperado que a série fizesse algo do tipo e metade da internet estava apostando que os dois seriam vítimas depois do lançamento de uma cena na recapitulação da semana passada.

É a mesma cena que abriu o episódio e, teoricamente, ela não mostra nada demais até ser analisada por fãs alucinados por teorias da conspiração. O fato é que o sangue no lado direito da bochecha de Rick indicava que a vítima estava desse lado e isso já resumia as possíveis vítimas a Daryl, Maggie, Gleen, Rosita e Abraham. Isso ainda não foi apresentado na série de TV, mas Negan não mata mulheres, crianças e feridos por conta do seu código moral completamente distorcido. Como o personagem preferido da galera tinha tomado um tiro no último season finale, só sobravam Gleen e Abraham.

Em cena, o primeiro a cair foi Abraham para aparentar que os acontecimentos da história original seriam ignorados. A morte do personagem acontece um pouquinho antes nas HQs (como já foi citado) e sua pose superior perante o vilão no final da sexta temporada tornaram o momento crível, enquanto os seus momentos finais chocavam pela quantidade de sangue. Foi uma escolha interessante, mas o melhor ainda estava por vir depois do ataque de pelanca de Daryl. Como estamos falando de The Walking Dead, ele vai se sentir culpado por esse soco durante toda a temporada, mas vamos voltar ao assunto principal…

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O resultado de mais esse ato proibido é justamente a morte de Gleen, o oriental quase imortal. Nas HQs, a morte dele é o pontapé inicial para que a Maggie cresça como personagem e isso parece ter começado nos dolorosos instantes finais do episódio. Em outras palavras, ele realmente precisava morrer para não atrapalhar o desenvolvimento dela e é nesse ponto que os roteiristas começam a fazer cagada. Vou repetir isso pela milésima vez: pra que ficar brincando com a suposta morte dele durante metade da sexta temporada para realmente matá-lo três episódios depois de sua reunião com o grupo?

Essa é a prova de que The Walking Dead não é tão planejada quanto deveria ser e isso me incomoda por ser uma sabotagem com o próprio crescimento do programa. Nesse caso poderiam ter realmente matado o personagem lá atrás e usado só o Abraham agora com uma perda mínima de referência às HQs ou ignorado aquilo e usado todo aquele tempo de tela desperdiçado de uma forma mais construtiva para o restante da trama. É um erro de roteiro grave que trata o espectador como idiota, mas, ainda assim, eu vou admitir mais uma vez que gostei da morte dele ser idêntica ao desenho original. Com direito a olho esbugalhado e Negan mandando um glorioso “Lucille is a vampire bat”. Foi duro, intenso e bastante chocante.

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Apesar disso tudo, esses problemas são reflexos de escolhas erradas feitas no passado. O único aspecto que me incomodou exclusivamente nesse episódio foi a inclusão de um flashback desnecessário na hora da revelação. Eu sei que é um recurso estilístico comum em The Walking Dead, mas não adicionou tensão ou qualquer outra coisa ao desenrolar do episódio. Foi simplesmente uma quebra que poderia ser reposicionada para o início do episódio. Começaríamos com toda aquela ótima sequência sob o ponto de vista do Rick e a revelação das duas mortes daria lugar para a abertura, o púbico teria 30 segundos pra se recuperar do choque e já voltaríamos, de forma mais linear, para o diálogo entre Negan e o protagonista.

Os cortes das cenas são exatamente os mesmos, mas o reposicionamento causaria a mesma quantidade tensão e comoção sem confundir o espectador. Eu preciso dizer que fiquei com um pequeno medo deles não mostrarem nada e, definitivamente, isso não é uma ideia tão inteligente depois de muita gente expressar sua raiva em relação a conclusão passada. Podem deixar que aquela bela tomada do cérebro esmagado com o anel do lado teria o mesmo impacto por ser a porra do cérebro esmagado de um personagem querido.

Fora isso, repito mais uma vez que o episódio foi ótimo. A proximidade com a HQ impressionou, a tensão atingiu níveis alarmantes, as mortes vão gerar consequências interessantes e o futuro promete um pouquinho mais com a apresentação do Reino, com direito a Ezequiel e Shiva. Só espero que a típica separação do grupo (Rick, Maggie, Daryl, Carol e Tara) não enrole e estrague um dos melhores arcos já escritos por Robert Kirkman.


OBS 1: QUE CENA FOI AQUELA COM O BRAÇO DO CARL?