A artificialidade, o realismo e a arte de criar experiências

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Mas a coisa que ele mais gostava sobre (Alan) Ladd? A voz. Ele dizia as falas de uma maneira direta, sem firulas. Quando Ladd contracenava com William Bendix […], todos pareciam amadores comparados a ele. Quando Ladd ficava irritado em um filme, ele não saía se comportando como um louco. Ele simplesmente ficava puto, como uma pessoa real.

– Era Uma Vez em Hollywood, livro escrito por Quentin Tarantino – 

Depois de que comecei estudar teoria do cinema com mais regularidade, um dos tópicos que mais chamaram minha atenção foi o realismo. E o motivo é bem simples e até mesmo banal: por muito tempo, eu acreditei que o bom cinema deveria fugir da artificialidade dos fundos verdes em nome de uma aproximação dessa estética realista.

Essa concepção errônea costuma se basear na ideia de que o cinema, tal qual uma fotografia, deveria ter como objetivo reproduzir cenas da nossa realidade. No entanto, o teórico e crítico francês André Bazin afirma que a união entre aspectos temporais e espaciais transformam o filme numa espécie de reapresentação da realidade. Ou a apresentação de um outro mundo que pode reproduzir as qualidades deste, mas nunca todos os detalhes.

Mostrar buracos de minhoca com fidelidade ou criar uma cena de enforcamento que tenha o tempo exato da vida real podem funcionar como um “algo a mais” e apenas isso. Indiretamente, o próprio Bazin deixa isso claro quando se afasta do mundo físico e relaciona o realismo cinematográfico com a possibilidade de vivenciarmos o filme como se estivéssemos vivenciando eventos reais.

Artificialidade
Foto: O Grande Hotel Budapeste / Divulgação

O seu argumento está mais interessado em preservar a imersão, priorizando o uso de planos-sequência e outras técnicas que evitem a fragmentação do real na montagem, do que em questionar o uso de efeitos especiais que flertam com a fantasia ou cenários que beiram a artificialidade. É claro que não sabemos o que Bazin escreveria sobre os filmes de Wes Anderson, por exemplo, mas é possível garantir que o foco do seu texto não estaria no afastamento entre cinema e mundo material.

Eu demorei um pouco para entender que estava preso em uma discussão primária e limitada sobre cinema. Ou melhor: sobre a arte de contar histórias.

A artificialidade fantasiosa de Tim Burton

Ao meu ver, não existe filme que aborde essa prisão de forma mais interessante do que Peixe Grande. Até mesmo porque Tim Burton, seu diretor, é um artista que sempre se preocupou mais com a construção de um universo marcante do que com alicerces realistas. E isso pode ser visto inclusive em seus filmes classificados como questionáveis.

Ele contaria errado. Todos os fatos, nenhum sabor”

Mas Peixe Grande é diferente, porque abre espaço para uma comparação muito próxima do meu cotidiano: Will é aquela pessoa que vai ao cinema e diminui a nota do filme por ele ser “mentiroso”; já seu pai é alguém que só quer impactar a audiência e usa todos os recursos que tem à disposição – incluindo a mentira e a artificialidade – para cumprir essa missão.

Artificialidade
Foto: Peixe Grande / Divulgação

Ele é alguém que ficaria feliz em saber que Tim Burton bebe da mesma fonte e canaliza as melhores características do seu cinema para construir essa trama afetuosa onde realidade e fantasia se encontram de forma absurdamente natural. Como se fossem, sei lá, pai e filho prestes a fazer as pazes.

Muita gente classifica a filmografia de Burton como artificial, mas isso é pura bobagem. O que temos aqui é um longa permeado por elementos fantasiosos que flertam com a artificialidade, porém se alimentam de possibilidades ambíguas e emoções que são mais do que realistas. São verdadeiras.

Algumas pessoas podem achar irônico uma obra tão singela funcionar como resumo da carreira de um diretor reconhecido pela bizarrice, mas a verdade é só uma: boas histórias estão aí para serem contadas do jeito mais interessante possível, transformando os defensores do realismo em apaixonados por peixes que colocam a forma acima do conteúdo.

Artificialidade em alta velocidade

Todo cinéfilo já foi o Will em algum momento. Eu também já fui e justamente por isso decidi completar esse texto com uma reflexão sobre outro filme que vai além de Burtons ou Andersons. Um filme das Irmãs Wachowski que marcou minha jornada cinematográfica em dois momentos distintos.

Esse filme é Speed Racer.

É bonito, é inspirador, é a mais pura arte, embora haja momentos em que prefiro fechar os olhos”

Eu lembro de ter assistido Speed Racer no cinema e odiado a experiência. Nunca pensei que fosse revê-lo até descobrir que vários amigos críticos amam o filme.

Artificialidade
Foto: Speed Racer / Divulgação

Decidi fazer uma revisita sem amarras pré-concebidas para entender essa diferença tão brusca de opiniões e, logo de cara, nos primeiros dez minutos, já entendi tudo. Tanto os motivos que me levaram a odiá-lo na infância, quanto os motivos que transformam essa adaptação em uma obra muito interessante.

Em relação ao primeiro elemento, é muito fácil explicar. Como já disse no começo desse texto, eu ficava preso a uma porção de convenções realistas que engrandecem filmes que fazem sentido. E isso não conversa com uma produção que não só abraça a artificialidade, como celebra cada momento em que a ausência de realidade faz o espectador vibrar.

Speed Racer parece ser falso e, junto com a duração acima das duas horas, isso me incomodou bastante na época da estreia. No entanto, o objetivo é justamente esse. E eu digo mais: a predominância da computação gráfica e os cenários artificiais não só fazem parte da proposta, como casam brilhantemente com o clima fantasioso do material original.

Em outras palavras: as irmãs Wachowski não querem fazer um filme realista e correm a toda velocidade na direção oposta, brincando com todas as ferramentas audiovisuais possíveis durante o trajeto.

Artificialidade
Foto: Speed Racer / Warner Bros. Pictures e Village Roadshow Pictures / Divulgação

O destaque óbvio fica para o design de produção com seus carros e pistas de tirar o fôlego, os efeitos visuais que traduzem a linguagem cartunesca com primor e a montagem cheia de transições absurdamente divertidas. Essa última, inclusive, funciona de uma forma muito particular, se movimentando no espaço e no tempo com a mesma agilidade e estilo do Mach 5.

E o resultado dessa mistura é uma parada muito louca que, apesar da história padronizada sobre família e autoconhecimento, não liga para fórmulas ou escolhas visuais genéricas. Uma combinação exagerada, colorida e inovadora que, por pura injustiça e estupidez, ninguém ousou repetir.

No lugar disso, milhares de realizadores abominam a artificialidade e fazem o possível para enfiar o realismo onde ele não deveria existir. Ainda bem que existem mais filmes de Velozes e Furiosos do que adaptações de Need for Speed que esquecem do fator mais importante: a experiência.


Peixe Grande está disponível no Paramount+. Já Speed Racer pode ser conferido na HBO Max.

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