Armadilha Explosiva | Seu primeiro erro será o último

Armadilha Explosiva

Filme francês que estreia nos cinemas, Armadilha Explosiva acerta na tensão até se perder em discussões políticas forçadas.


Filmes que concentram a maior parte de sua narrativa em poucos personagens e um único cenário não são uma novidade no cinema. Muito pelo contrário, eles fazem parte da gênese dessa arte que possui uma relação muito próxima com o teatro e suas histórias naturalmente restritivas.

Alfred Hitchcock já passeou por essa proposta com muito louvor em Disque M para Matar, Festim Diabólico, Janela Indiscreta e até mesmo Psicose. Tarantino também brincou com a mesma ideia em Cães de Aluguel. Temos Kubrick com O Iluminado, Joel Schumacher com Por um Fio, Shyamalan com A Visita e por aí vai… A lista é muito longa para ser reunida aqui.

Em alguns desses casos, o diretor usa essa dinâmica teatral para reunir várias pessoas diferentes em um ambiente claustrofóbico com potencial para ser um caldeirão de ideias. Sidney Lumet surge como um especialista nesse aspecto graças a 12 Homens e Uma Sentença e Um Dia de Cão, dois grandes clássicos das discussões éticas e midiáticas.

Armadilha Explosiva
Foto: Divulgação / Afonso Fucci

Mas também existem diretores – focados principalmente no suspense ou no terror – que eliminam fatores para criar exercícios de tensão mais simples onde uma pessoa ou um grupo de seres humanos precisa lidar com alguma situação-limite. Temos desde exemplos ruins, como Escape Room, até os bons, como A Culpa.

E essa separação de qualidade costuma passar por um elemento muito importante: a conclusão. Digo isso porque muitos filmes de um cenário que existem apenas pela tensão em si sabem como iniciar a história, mas se perdem na hora de construir um final que faça jus à experiência angustiante que prende a atenção do espectador.

Armadilha Explosiva flerta com o primeiro cenário, mas se enquadra mais no segundo. E como tal, só para não perder o costume, sofre com problemas similares aos de seus primos.


Quer outro exemplo? Confira a crítica do novíssimo A Hora do Desespero!

Qual é a história de Armadilha Explosiva?

Em um estacionamento parisiense, Sonia está presa em seu carro, junto com seu filho Thomas e Zoé, filha de seu parceiro Fred, que ficou do lado de fora sem poder fazer nada. Uma mina anti-tanque foi instalada no veículo e vai explodir em 30 minutos.

Armadilha Explosiva
Foto: Divulgação / Afonso Fucci

Ela é especialista em desarmar bombas e trabalha na mesma ONG que Fred ao lado de Igor e Camille, que chegam para ajudá-la, e François, um burocrata que está misteriosamente desacordado no porta-malas do carro.

Sonia, acostumada a se colocar em perigo, mas dessa vez o risco é maior do que ela imagina. Será que eles conseguirão permanecer unidos durante esse jogo de tensão, paciência e desespero?

O que achamos de Armadilha Explosiva?

Não posso negar que Armadilha Explosiva me conquistou muito rápido. Com menos de dez minutos, o diretor Vanya Peirani-Vignes (em seu primeiro longa-metragem) já tinha criado o cenário de tensão, explicado as peças-chave e prendido totalmente minha atenção. Mesmo desconfiando da conclusão, eu estava preso na história dessa família que poderia explodir a qualquer momento.

Uma sensação de tensão que se estende com muita qualidade pelos 30 minutos que acompanham o cronômetro da bomba quase em tempo real. Não tem nada necessariamente inventivo no jogo de câmeras, mas transmite o peso das relações, a claustrofobia do lado de dentro e o medo do lado de fora com muita eficiência.

O problema é que, após esse primeiro ato, o filme perde a confiança na urgência da explosão e insiste na criação de novas camadas que não possuem tanto impacto narrativo e imagético. O corpo no porta-malas, a entrada da polícia, o esquema de corrupção deixam Armadilha Explosiva com cara de Sidney Lumet, porém não funciona da mesma forma por conta da redução no desenvolvimento das relações pré-existentes e da ausência quase completa de discussões éticas.

Armadilha Explosiva
Foto: Divulgação / Afonso Fucci

Sonia e seu filho até ensaiam fazer algo desse tipo, mas a discussão é prejudicada pelos diálogos questionáveis e sentimentos rasos que tomam conta de todas as tramas e reviravoltas. Existe sim uma emoção genuína no confronto e na revelação de segredos entre eles, mas, na maior parte do tempo, soa como uma boa intenção que não sai do papel.

Com isso, Armadilha Explosiva começa a ter dificuldade para manter a atenção do espectador. Você quer entender o que está por trás da bomba, mas o desejo vai diminuindo a cada revelação que parece nos colocar mais e mais na trilha de uma trama de vingança fraca e previsível.

Algo que só piora quando o longa decide se transformar em uma espécie de filme-denúncia. No entanto, a entrega da mensagem levanta mais questionamentos sobre o encaixe forçado da narrativa com o tema do que reflexões sobre as crianças mortas por minas terrestres.

Armadilha Explosiva
Foto: Divulgação / Afonso Fucci

Eu até entendo a importância da denúncia que Vanya Peirani-Vignes quer fazer, principalmente por conta do que a Ucrânia está vivendo atualmente, mas acredito que existem formas melhores de levar essa questão, com uma pegada bem Guerra ao Terror, para as telas de cinema. O diretor acaba dando uma volta que enfraquece tanto a tensão entre a família quanto a denúncia propriamente dita.

É aí que eu lembro do lema da equipe especialista em bombas: “seu primeiro erro será o último”. No caso de Armadilha Explosiva, o primeiro e fatal erro é abandonar a tensão gerada pela bomba e as relações familiares em nome de linhas narrativas que existem apenas por causa das denúncias e da necessidade de contar uma história importante. Os momentos de tensão continuam ali, não vou negar, mas são desarmados aos poucos pela previsibilidade e fragilidade das discussões que roubam o primeiro plano.


Armadilha Explosiva já está disponível em algumas salas de cinema

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