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Estrelado por Mads Mikkelsen, Another Round é uma dramédia alcóolica sobre escolhas e consequências


Segundo o psiquiatra norueguês Finn Skårderud, os seres humanos nascem com um déficit de 0,05% de álcool no sangue. Logo, se esse valor fosse ajustado, nós seriámos mais felizes, completo e produtivos.

Não sei até que ponto essa hipótese é real (infelizmente, não é tão fácil achar citações norueguesas em uma pesquisa rápida no Google), mas ela é o ponto de partida para Another Round. No filme, dirigido pelo sempre incrível Thomas Vinterberg (A Caça), quatro professores de ensino médio desestimulados e conformados decidem testar a teoria na vida real, inserindo algumas doses de álcool em suas respectivas rotinas.

O problema é que o álcool não afeta todo mundo do mesmo jeito, então, a partir daí, Another Round (Outra Rodada, em tradução livre) se torna um retrato do alcoolismo em suas diversas formas, espécies e estilos. Tudo inserido dentro da realidade de um país em que a bebida é um fator cultural indispensável. Não é à toa que uma das personagens do próprio longa classifica a Dinamarca como um lugar onde as pessoas “só sabem beber”.

Another Round

Foto: Divulgação

Quando fiquei sabendo que o filme era sobre essa relação viciante entre o homem e o álcool, a primeira imagem que veio na minha cabeça foi um filme chamado Farrapo Humano (um dramalhão dirigido por Billy Wilder em 1945). Lógico que um filme da década de 40 não vai ser referência pra todo mundo, mas dei esse exemplo pra dizer que a maior parte do público tende a apertar o play esperando um drama pesado sobre escolhas e consequências.

E, pra ser justo, Another Round até faz um pouco disso, porém não pode ser classificado apenas como um drama e pronto. Vinterberg conduz o longa como uma espécie de crônica social que passa por diversos gêneros, acompanhando a vida dos quatro protagonistas de uma maneira tão viciante quanto o próprio álcool.

Ele começa investigando a melancolia que domina a vida de Tommy, Martin, Nikolaj e Peter. Depois evolui praticamente pra uma comédia a fim de acompanhar os momentos revigorantes em que eles se sentem livres, leves e soltos. E, pontualmente, descamba para o drama quando sente a necessidade de explorar as tais consequências.

Another Round

Foto: Divulgação

Transições que atravessam a projeção com fluidez, porque a câmera de Vinterberg está sempre focada em explorar a química entre os atores principais e filmar as sequências de bebedeira com um realismo assustador. Todos os conhecidos que assistiram o longa comentaram, de forma unânime, esses dois fatos: os quatro parecem tanto ter uma amizade verdadeira, quanto estarem realmente bêbados.

E isso é o que torna Another Round tão viciante. O filme prende o espectador nesse relacionamento de uma maneira que fica impossível não se conectar com eles. Não querer saber o máximo possível sobre aqueles personagens. Isso não significa necessariamente torcer por eles, mas construir um senso de empatia que ajude a entender as motivações por trás de tal experiência científica.

Algo que, por motivos óbvios, passa pela atuação de Thomas Bo Larsen, Magnus Millang, Lars Ranthe e Mads Mikkelsen (também conhecido como deus da atuação). Eles não colecionam muito momentos expansivos, mas se destacam no carisma, na conexão entre si e no gestual. Inclusive, eu adoro como o olhar cansado e indiferente de Mads deixa claro que a possibilidade de testar a hipótese de Skårderud é uma proposta quase irrecusável. O mesmo pode ser dito sobre a expressão sedenta que acompanha a vontade incessante de beber.

Mas eu não escolhi classificar o longa como “retrato” por acaso. Another Round não é um conto com a pretensão de encerrar tramas ou uma fábula cujo objetivo é oferecer lições de moral. Sei que isso deve incomodar muita gente que espera por punições em obras desse tipo, mas Vinterberg foge dessas soluções sem minimizar o problema.

Another Round

Foto: Divulgação

Ele trabalha as escolhas e suas consequências com peso, mas não julga os personagens ou se obriga a fazer um discurso conservador sobre a bebida ser ruim. Cumpre seus propósitos de analisar a relação dos homens com o álcool antes de escolher um final com ares poéticos que, graças ao trabalho de Mads, entra para o hall de melhores conclusões da Mostra.

Você precisa aceitar que é falho para amar o próximo e a vida”

Concordo que o filme pode decepcionar por não fugir de certos padrões atrelados aos seus gêneros. Quando tenta ser comédia, é uma comédia comum; quando se envereda pelo drama, é um drama comum. Logo, comparado com A Caça e outros trabalhos anteriores do diretor, temos um filme mais fraco, mas nem por isso ruim. Another Round é uma obra divertida e reflexiva que faz o espectador ficar com vontade de chamar o lanterninha e pedir outra dose de Mads Mikkelsen.


Another Round foi conferido na Mostra de São Paulo 2020


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Another Round (2020)

8.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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