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André Prando transcende a cena local capixaba e encaixa sua música em tantas esferas que mostra a versatilidade do músico com suas canções


Escutar música tem sido uma das minhas principais “tarefas” nos últimos dias, mas confesso que boa parte do que eu gosto de escutar deu uma leve enjoadinha temporária. Por conta disso, ando passeando bastante por artistas e músicas que não tenho o costume de escutar ou nunca escutei. Na minha peregrinação musical, eu nem cheguei a ir tão longe na vibe “apoie um artista local”, lembrei que aqui no Espírito Santo temos grandes artistas e que por muitas vezes ficam apenas em fones capixabas, e por isso precisamos falar, ou melhor, escutar André Prando.

Tudo começou quando em 2011 André Prando fincou os pés no cenário capixaba, vencendo o V Festival Prato da Casa (ES), evento promovido pelo programa Bandejão (Rádio Universitária), com a sua música solo “Inverso Ano-luz”. A partir daí foi que o artista começou com os trabalhos de divulgação através no Soundcloud e Youtube

Em 2014 lançou o seu primeiro EP “Vão”, com produção de Alexandre Barcelos e Santiago Emanuel, e pela descrição de Prando o EP “é uma transição, uma ponte entre um algo e outro. Uma ordem fundamentalmente natural assim como o renascimento”. Instigante, né?

Quando apertar o play, as faixas “O Verme Ama” e “Bem ou Mal” merecem atenção especial na hora de escutar. Com suas peculiaridades, é fácil perceber suas (várias) influências que passeiam por Raul Seixas, Alceu Valença, Sérgio Sampaio e tantos outros ali presentes. O estilo único de Prando, faz com que a gente se aprofunde mais em suas músicas e busque tudo o que temos disponível. 


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Em 2015, com produção de Rodolfo Simor, André Prando lançou o seu primeiro disco, o Estranho Sutil. São 10 faixas que fizeram com que o artista entrasse definitivamente na rota nacional da música caindo nas graças da crítica especializada. Em Estranho Sutil, vale destacar as canções “Amiga Vagabunda”, “Linha Torta”, “Vestido Cor Maçã” e “Última Esperança” que é uma composição inédita de Sérgio Sampaio, que Prando interpretou e registrou de forma espetacular.

Foi em 2018 que André Prando lançou “Voador”, seu segundo disco de estúdio fruto de um financiamento coletivo e têm participações de Duda Brack, Gabriel Ventura, Lucas Estrela, Mário Wamser, Luiz Gabriel Lopes e Puppi. A produção é de Henrique Paoli e Jr. Tostoi (Lenine), e foi lançado pela Sony Music. Em suas 12 faixas, “Voador” traz tantas referências que nos fazem viajar em uma vibe psicodélica, que vai passeando pelo tantra, em seguida a sensação paz e amor hippie nos acompanha no rock experimental e letras reflexivas que nos causam discussões existenciais. As faixas “Ode à Nudez”, “Em Chamas no Chão”, “Eu Vi Num Transe” e “Fantasma Talvez” são as minhas favoritas do álbum.

André Prando tem um trabalho tão próprio e instigante, que em 2019 isso ficou ainda mais em evidência quando recebeu um convite surpreendente: se apresentar no palco Supernova do Rock In Rio. Foi no dia 6 de outubro, que Prando pisou no palco e colocou o público para cantar e dançar na mais pura essência de seu repertório. A tour de divulgação do disco “Voador” estava a todo vapor, quando os primeiros casos de COVID-19 começaram a aparecer no Brasil, motivo que levou André Prando a suspender as apresentações futuras seguindo as orientações de isolamento social.

andré prando calmas canções do apocalipse

André Prando e as Calmas Canções do Apocalipse

Mas quem disse que ele parou de produzir? Em meio ao caos dessa pandemia que nos obriga a viver em quarentena, Prando esteve trabalhando em seu mais novo EP “Calmas Canções do Apocalipse” lançado na última sexta-feira (15), com produção própria e que está disponível nas principais plataformas de streaming.

Traduzindo reflexões sobre coletividade, reeducação, no cuidado de si e do próximo, “Calmas Canções do Apocalipse” é um exercício de criatividade que Prando vem praticando em meio às incertezas que o confinamento trouxe para os dias de hoje. Como sair de casa não é uma opção, o processo de produção foi totalmente caseiro nos presenteando com três músicas “Gatinho na internet“, “Dharma” e a regravação de “Clamor no Deserto” do saudoso Belchior. 

Com um refrão que nasceu em 2019 em meio aos desastres ambientais mais o cenário político caótico, “Gatinho na internet” ganhou forma através de conversas via whatsapp, onde Prando dividiu a composição com Vicente Coelho da banda Biltre. A faixa tem a percussão de Carlos Sales, o baixo de Jackson Pinheiro e a lenda Rick Ferreira (Belchior, Erasmo Carlos, Raul Seixas, Zé Ramalho) na guitarra e no pedal steel guitar.

Com participação mais do que especial de sua esposa Laura Zucolloto e seus gatinhos Larika e Chapado a canção narra com ironia e humor situações cotidianas em que, nem sempre xingar no twitter vai resolver teus problemas e que talvez o melhor refúgio durante os dias turbulentos de quarentena (ou em qualquer outra situação de caos), é assistir vídeo de gatinhos na internet. 

Dharma” é uma reflexão constante sobre mudanças e como nossas ações influenciam no decorrer dos dias. Uma espécie de tudo o que você joga no universo, volta pra você. Quando Prando canta “E o que eu emano, é o que o mundo dá de volta. Tudo que eu canto, é o que o mundo dá de volta. Quando eu sorrio, o mundo me sorri de volta.” é um prelúdio de que devemos nos tornar mais leves, regar nossos pensamentos com idéias positivas, mesmo que isso seja bem difícil atualmente.

Pensar positivo parece utopia, mesmo em meio à uma pandemia que nos tira o sono, mas é de lições como essa que enxergamos que tudo é um aprendizado constante. A faixa tem a participação de Felipe Duriez e sua fantástica guitarra slide deixando a sonoridade ainda mais gostosa de escutar.

A terceira faixa é “Clamor no Deserto” de Belchior (1977), uma releitura original cheia de detalhes e originalidade do qual o trabalho de André Prando sempre teve. Sobre a canção André conta:

‘Amo Belchior e o disco “Coração Selvagem” é um dos favoritos aqui em casa, mas nunca tinha me atentado TANTO para essa música. É incrível como ela conversa com o momento no qual vivemos.’.

Carlos Sales na percussão e Federico Puppi que gravou os cellos, são as participações especiais que deixaram a versão de “Clamor no Deserto” do jeito que André Prando havia imaginado, emocionante e cheia de esperança por dia melhores.


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