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Filmes

American Son: O impacto de um texto foda

Adaptação de peça da Broadway funciona graças as atuações e ao texto poderoso.


6 de novembro de 2019 - 01:17 - Flávio Pizzol

American Son não muda quase nada da peça original e pode ser questionável como filme, mas funciona graças as atuações e ao texto realmente impactante.


Um evento televisivo da Netflix. Curiosamente, essa é a classificação que American Son recebeu no serviço de streaming em questão. Não sei se o motivo tem qualquer ligação com o fato da produção ser a “recriação” de peça teatral da Broadway, mas é fácil concordar que o resultado não realmente bate com os formatos mais reconhecidos pelo grande público. Afinal de contas, em outras palavras, estamos diante de uma peça filmada com o propósito de ampliar sua exibição, mantendo os cenários fixos e mais algumas características típicas dos palcos.

Dessa forma, é necessário começar a viagem sabendo que a produção pode soar um tanto quanto estranha ou deslocada, por conta as diversas limitações em termos de direção. Apesar do talento comprovado e da longa carreira televisiva, o trabalho de Kenny Leon (Hairspray Live!) aqui acaba sendo resumido a administrar o ritmo do espetáculo, conduzir o olhar do espectador para algo mais do que um palco inteiro e buscar alguns ângulos que consigam reforçar as emoções transmitidas pela peça. Não tem inventividade, movimentos de câmera inesperados ou grandes cenas que fujam do cenário principal, mas o próprio Leon (que dirigiu a versão original e já fez coisas parecidas em outras peças filmadas para a televisão) não parece estar desconfortável com sua função “reduzida”.

Isso porque ele compreende que a força de American Son não está nas suas escolhas estilísticas, mas sim concentrado no texto de Christopher Demos-Brown e nas escolhas narrativas que se desenvolvem a partir do dolorosa reunião de um casal recém-separado numa delegacia durante a busca por seu filho desaparecido. Uma premissa forte que, nesse contexto, acaba sendo favorecida por essa classificação diferente, já que uma produção poderia perder um pouco do seu fôlego se fosse encarada como um filme. Ao contrário do que Denzel Washington fez com alguns escorregões em Um Limite entre Nós, a ideia aqui é abraçar as limitações narrativas e deixar a experiência mais próxima do teatro do que da sétima arte.

O resultado, como eu disse, pode sim incomodar aquela parcela do público desacostumada com os palcos, mas a sensação é passageira graças justamente a vivacidade do roteiro. É muito difícil não se sensibilizar com a mãe durante o primeiro ato e, depois, fica literalmente impossível não manter-se instigado (ou incomodado) com o desenrolar dessa mistura de protesto com lavagem de roupa suja que mistura casamento, paternidade, privilégios, racismo enraizado e violência policial de uma maneira tão crescente e poderosa.

E, como se isso não fosse incrível o suficiente, American Son também entrega um show de organização narrativa que se destaca nas palavras bem posicionadas, discussões éticas inquietantes e argumentos bem fundamentados. Tudo tão bem amarrado como se fosse um passeio por vivências opostas que é permitido mudar de opinião quantas vezes achar necessário no decorrer da visita. É possível dizer até mesmo que o texto precisa dessa participação ativa do espectador para ganhar fôlego nas transições entre os atos.

As únicas coisas que, seguindo o formato teatral, se posicionam entre essa espécie de diálogo entre texto e público são as atuações firmes e assertivas do pequeno elenco principal. Mais do que isso, o elenco funciona como um ingrediente secreto que completa a receita com as doses de vigor e emoção que os assuntos abordados precisam carregar. E não é nem um pouco injusto dizer que todos estão primorosos em suas funções: Steven Pasquale (American Crime Story) cumpre seu papel de manter a discussão acessa graças a atitudes idiotas; Jeremy Jordan (Supergirl) deixa espaço para o espectador descobrir se ele é ingênuo ou babaca; e Eugene Lee (JFK, a História Não Contada) entrega muito mais do que a presença de cena necessária para funcionar como elemento surpresa.

Ainda assim, por mais que tenham seus momentos de apoteose, nenhum deles consegue chegar aos pés de Kerry Washington (Django Livre), soando apenas como degraus de uma escada que coloca o trabalho avassalador dela num merecido lugar de destaque. Ela é a alma da produção, a dona do ponto de vista principal, a responsável por conduzir o público através dos argumentos e a representação humana que faz quem está assistindo sentir medo, desolação, ódio e mais uma porção de sentimentos destruidores. Isso sem contar que ela acompanha a crescente de tensão criada pelo texto, roubando mais atenção durante um terceiro ato que ganha camadas enquanto desmonta os discursos formalizados. Um pacote que, além de encerrar American Son em grande estilo, deixa no ar uma necessidade enorme de refletir, gritar e/ou abraçar quem você mais ama.


OBS 1: Só achei o pôster da peça em boa qualidade, mas, nesse caso, a substituição é bastante justa.