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Cercada por um elenco espetacular, Greta Gerwig reafirma seu talento com uma versão honesta, sarcástica e metalinguística de Adoráveis Mulheres.


Classificada por muitos especialistas como uma das obras mais importantes da literatura americana, Adoráveis Mulheres foi escrito por Louisa May Alcott há mais de 150 anos. De lá pra cá, o livro se tornou fonte para diversas adaptações no cinema, na televisão e no teatro. Só as telonas já receberam alguma versão de “Mulherzinhas” em seis ocasiões diferentes, sendo que o longa dirigido por Gillian Armstrong (Em Busca do Passado) em 1994 detinha o título de melhor produção. Algo que pode mudar agora, já que Greta Gerwig (Lady Bird) conseguiu modernizar – sem sair do passado – uma história que inspirou tantas gerações.

No entanto, vale deixar claro desde o início que tal processo não exigiu que a história original fosse modificada. Logo essa nova revitalização, assim como o livro e as outras adaptações, acompanha a vida da família March durante a Guerra de Secessão, dando mais atenção para as quatro irmãs sonhadoras que lutam para viver suas vidas de acordo com suas próprias regras e vontades. Isso em uma realidade patriarcal onde uma mulher precisa se contentar com uma única missão: se casar com alguém rico para mudar de vida.

O resultado é uma trama bastante singela que, na maior parte do tempo, funciona como uma crônica sobre o dia-a-dia das irmãs, as dificuldades enfrentadas pela mãe e as regras sociais da época. Uma proposta simples que, à primeira vista, não parece apresentar grandes novidades em relação ao gênero ou ao cinema como um todo. Mas então porque alguém deveria assistir essa adaptação de Adoráveis Mulheres ? Uma ouvinte da rádio fez uma pergunta parecida para saber se valia gastar dinheiro com uma história que já conhecia de outros carnavais e as possíveis respostas ficaram sobrevoando minha cabeça até hoje.

adoráveis mulheres

E, por mais que a vontade/necessidade de revisitar qualquer história seja algo muito pessoal, eu achei interessante passear por esse terreno. Afinal de contas, essa versão das adoráveis mulheres criadas por Alcott possui sim alguns trunfos que podem ser vistos como diferenciais. O primeiro (e mais importante) deles é a verdade contida no texto escrito por alguém que realmente se importa com a história e suas personagens. Por uma pessoa que já foi afetada pelo empoderamento do livro e entende o valor daquilo ali.

Claro que o texto ser bem escrito também é essencial, já essa tal verdade não se destacaria sem o uso certeiro da não-linearidade, as protagonistas bem construídas ou as personalidades bem diferenciadas por suas respectivas escolhas. No entanto, é impossível separar esses acertos da paixão que Greta Gerwig tem pela história. Esse amor, quando inserido de forma palpável no roteiro, ajuda o espectador a sentir quem são as personagens, as decisões que as moldaram e de onde vem a força que as move através das dificuldades promovidas por aquela sociedade patriarcal. Algo que imerge o público no longa, criando uma relação muito próxima e emocionante com o que está na tela.

Só que, além do texto redondinho e assertivo, esses mesmos acertos dependem muito de um elenco que parece ter sido escolhido a dedo para se tornar um diferencial dessa versão. Saoirse Ronan (Brooklyn) domina magistralmente tanto o espírito rebelde de Jo, quanto sua esperança de que a vida pode extrapolar os muros criados por seu gênero. Florence Pugh (Midsommar) se divide com precisão entre os sonhos e a “vilania” de Amy. Emma Watson (A Bela e a Fera) comprova de maneira perfeita que abandonar seus sonhos por uma escolha mais comum não é algo necessariamente ruim. E Eliza Scanlen (Sharp Objects) lota o filme com algumas doses de emoção através do jeito doce e frágil de Beth.

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Forças individuais que funcionam ainda mais quando estão reunidas, destacando a credibilidade das relações, a honestidade do texto e uma química que também se espalha por todos os coadjuvantes. Laura Dern (História de um Casamento) exala sua força maternal em todas as aparições, Timothée Chalamet (O Rei) encontra uma forma saudável de equilibrar a babaquice e o charme de Laurie, Chris Cooper (A Lei da Noite) rouba alguns holofotes mesmo tendo pouco tempo de tela, Meryl Streep (Big Little Lies) comprova que pode bancar a idosa sarcástica quando quiser e Louis Garrel (Um Homem Fiel) cai como uma luva no papel de Friedrich.

Um grupo cheio de vida e profundidade que Greta Gerwig coordena com muita perfeição. Uma excelência tão grande que faz sua não-indicação ao Oscar beirar o inadmissível, principalmente quando Todd Phillips está sendo “parabenizado” por fazer uma boa imitação de Martin Scorcese. Eu entendo que um trabalho como Adoráveis Mulheres não chama tanta atenção quanto Coringa, mas já passou da hora das pessoas – incluindo votantes da Academia – aceitarem que uma boa direção não se resume a imagens bonitas ou cenas impactantes.

Greta deixa claro que entende isso quando se entrega para a história que escolheu contar sem tentar chamar atenção para si mesma. Muito pelo contrário: ao invés de se exibir de forma pretensiosa, ela trabalha em prol da trama e some por trás de uma obra que exige paralelos visuais certeiros, um ritmo bem controlado e uma organização narrativa acima da média. É verdade que a montagem se atrapalha nas transições entre as linhas temporais durante os primeiros minutos, mas o problema é corrigido com uma precisão que transforma a não-linearidade em um dos grandes trunfos da produção.

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Só isso já tornaria o trabalho de Gerwig bastante interessante, mas, para a sorte do público, ela não para por aí. Ela faz questão de mostrar que não está imitando o livro ou qualquer uma das adaptações, e enche a refilmagem com sua própria voz. O resultado é um longa que abraça a modernidade (sem precisar trazer a história pro presente) graças a inclusão de momentos cheios de sarcasmo e metalinguagem cujo propósito é surpreender e alterar a dinâmica da narrativa, fazendo com que uma história de época reflita sobre questionamentos bem mais atuais.

Algo necessário em uma produção estrelada por mulheres empoderadas que estavam à frente do seu tempo e continuariam ocupando tal posto hoje em dia, considerando o processo de involução que está atingindo nossa sociedade. Só o fato dos March mostrarem que é possível defender certos aspectos da família tradicional sem ser obrigatoriamente escroto já mostra o quão importante é revisitar histórias como essa. Principalmente se tal visita for composta por escolhas modernas, um elenco brilhante, uma roteirista/diretora que merecia mais atenção e um final feliz que celebra o título de melhor adaptação que Adoráveis Mulheres já recebeu.

Pode ter certeza que Louisa May Alcott teria muito orgulho do que foi feito aqui…

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9

Com toda a identidade de Greta Gerwig, Adoráveis Mulheres é uma adaptação atual, divertida e praticamente perfeita.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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