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Atual e poderoso, A Voz Suprema do Blues promove o explosivo encontro entre a música negra e um mercado que só pensa em excluí-la da história


Não adianta taparmos o sol com a peneira: independente do números ou dos prêmios, A Voz Suprema do Blues será lembrado para sempre como o último filme de Chadwick Boseman. No entanto, por mais que estejamos falando de um fato (doloroso, mas um fato), pode ser um tanto quanto injusto limitar a adaptação conduzida por George C. Wolfe a esse único detalhe.

Principalmente quando a produção fala sobre um passado marcado por racismo e segregação de uma maneira tão explosiva e atual. Uma mistura entre teatro, blues e cinema que merece ser conferida.


A peça que originou A Voz Suprema do Blues

A peça – chamada originalmente de Ma Rainey’s Black Bottom – foi escrita em 1982 por August Wilson, um dos maiores dramaturgos norte-americanos. Ela é uma parte importante do Ciclo do Século, um conjunto de dez obras que retratam a vida dos afro-americanos durante as dez décadas do século XX.

A história acompanha Ma Rainey, uma famosa cantora de blues, durante a gravação de um disco em plenos anos 20. Enquanto esperam diversos atrasos e problemas técnicos serem resolvidos, os membros da banda compartilham histórias e discussões filosóficas que revelam uma grande tensão entre os músicos veteranos e Levee, um impetuoso trompetista com sede de sucesso.

A Voz Suprema do Blues

Foto: David Lee / Netflix

Após sua estreia nos palcos em 1984, a obra foi montada diversas vezes na Broadway e na Inglaterra, acumulando uma vitória no New York Drama Critics’ Circle e inúmeras indicações ao Tony (basicamente, o Oscar do teatro americano). Entre alguns grandes nomes que participaram dessas versões, os mais conhecidos são Whoopi Goldberg, Anthony Mackie e Stephen McKinley Henderson.


A adaptação da Netflix

A trama de A Voz Suprema do Blues segue o texto de August Wilson com bastante fidelidade. A única mudança fundamental é que a obra original se passava no inverno de Chicago, enquanto a adaptação aproveita o verão. A ideia, segundo o próprio diretor, era deixar o calor quase insuportável aflorar ainda mais as emoções entre os personagens.

Além disso, o longa – que foi produzido por Denzel Washington (outro ator que é figurinha carimbada dos trabalhos de Wilson) – faz somente ajustes pontuais. Pequenos momentos que, como acontece na sequência da porta estrelada por Boseman, só possuiriam força dentro da linguagem cinematográfica.


Mas é teatro ou cinema?

Não dá pra negar que A Voz Suprema do Blues mantém muito da sua essência teatral. Juntando a restrição espacial oferecida pela pouca quantidade de cenários com os grandes monólogos quase copiados do material original, deixa óbvio que o texto foi pensado inicialmente para os palcos.

A Voz Suprema do Blues

Foto: David Lee / Netflix

No entanto, isso não muda um fato: não estamos falando de uma peça filmada, como é o caso de Hamilton, e sim de uma adaptação cinematográfica.

George C. Wolfe, sendo um diretor de teatro experiente e competente, sabe como trabalhar com precisão esse lado teatral. É muito fácil perceber qualidade na composição dos cenários ou direção de atores, por exemplo. Elementos que já fazem parte de sua carreira nos palcos, incluindo montagens anteriores do próprio Ma Rainey’s Black Bottom.

Porém, quando o assunto é linguagem cinematográfica, ele escorrega um pouquinho. Não tem exatamente a familiaridade necessária, logo se torna uma espécie de elo fraco ao invés de entregar uma obra redondinha.

Ainda assim, Wolfe acerta em cheio no mais importante: equilibrar o texto original com essa linguagem que não precisa ficar restrita apenas a um único palco. Seu mérito, na minha opinião, é entender o valor da verborragia quase musical de Wilson (deixando que ela roube os holofotes durante boa parte da produção) ao mesmo tempo em que consegue imprimir um ritmo de cinema a essa nova versão de A Voz Suprema do Blues.


Um resultado explosivo

Mas calma, porque essa é só a ponta do iceberg onde está localizada A Voz Suprema do Blues

Todo mundo que assistiu Um Limite Entre Nós (que é mais limitado em relação a linguagem cinematográfica do que esse longa) ou conhece um pouco da obra de Wilson sabe que todos os seus textos são brilhantes. No entanto, um texto incrível não faz milagre se estiver sozinho. Seja nos palcos ou nas telas.

Apesar das falhas geradas pela inexperiência no formato, o trabalho virtuoso de George C. Wolfe é decisivo nessa transição de A Voz Suprema do Blues. Ele constrói bons momentos de confronto, aproveita a sensação de confinamento e acerta até mesmo na criação certas metáforas que, como eu disse lá em cima, não teriam a mesma força no palco. Em um formato onde a audiência acompanha tudo por um mesmo plano, sem movimentações de câmera ou cortes.

A Voz Suprema do Blues

Foto: David Lee / Netflix

Entretanto, mesmo com a boa direção, esse filme não conseguiria ser tão poderoso sem um elenco que desse vida, voz e emoção aos diálogos de Wilson e às ideias de Wolfe. E, por sorte (e talento do casting, é claro), a produção da Netflix acerta em cheio nesse aspecto.

Viola Davis (As Viúvas) surge em cena como se fosse uma força da natureza. Por mais que isso não seja nenhuma surpresa, é extremamente poderoso vê-la dar vida a uma Ma Rainey cheia de opostos. Uma mulher forte que precisa se impor para não ter sua voz roubada pelos produtores brancos, se dividindo entre a alegria de estar fazendo o que ama e a exaustão de não ter vontade própria.

O único detalhe é que, mesmo interpretando a personagem-título, ela não é a grande protagonista de A Voz Suprema do Blues. Esse posto fica a cargo de um Chadwick Boseman (Pantera Negra)pronto pra entregar a melhor atuação de sua vida. Ele entrega um Levee que, em meio a tantas complexidades, acumula sofrimentos auto infligidos e traumas causados por diversas injustiças sociais.

Um sujeito cheio de extremos que, ao lado de uma banda brilhantemente interpretada por Colman Domingo, Glynn Turman e Michael Potts, vai preparando o terreno e conduzindo o espectador em direção a um final que só poderia ser trágico. Não sabemos exatamente o que vai acontecer, mas fica claro desde o início que o caldeirão precisava explodir.

E precisa fazer isso pra expurgar todos os sentimentos que vão se acumulando durante as discussões acaloradas e os monólogos emocionados de A Voz Suprema do Blues. Histórias cuja temática é, repetidamente, a exclusão dos negros no século XX. Uma realidade que não mudou tanto assim, afinal alguém sempre insiste em deixar claro que atravessar a porta não significa nada.


A Voz Suprema do Blues já está disponível na Netflix


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A Voz Suprema do Blues

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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