A Voz Humana | O cinema teatral de Almodóvar

A Voz Humana
Foto: Divulgação

Reconhecido por suas encenações exageradas, Pedro Almodóvar dá mais um passo na mistura experimental entre cinema, teatro e novela com a Voz Humana.


Quem já assistiu pelo menos uma parte da filmografia do Almodóvar sabe que o cinema dele reúne diversas referências ao teatro e às telenovelas. Inclusive, no podcast sobre o diretor que gravei com o Léo, nós comentamos algumas vezes em que ele inseriu atrizes, peças e estúdios de gravação na narrativa.

A Voz Humana tem tudo isso, mas parece ir além. É um curta exuberante e espirituoso que dá um passo a mais nessa conexão propositalmente exagerada entre cinema, teatro e novela.

Qual é a história de A Voz Humana?

Protagonizado pela atriz britânica Tilda Swinton, o curta é uma adaptação de
trinta minutos da peça homônima do poeta francês Jean Cocteau (1889-1963). A trama – que, assim como outros filmes de Almodóvar, fala sobre abandono – acompanha uma mulher à espera da ligação do companheiro que acabou de deixá-la. Sob o olhar atento do cachorro do ex, também abandonado, ela finge estar bem, mas logo perde o controle.

O que achamos de A Voz Humana?

A Voz Humana respira teatro por todas os poros. A protagonista aparentemente trabalha como atriz, seus gestos e diálogos são lançados na tela com uma postura próxima dos palcos, a troca de cenários é regida por paredes falsas que trocam de lugar, e a própria casa parece ser parte de um grande galpão de cinema.

A Voz Humana
Foto: Divulgação

Escolhas teatrais que dialogam muito bem com o diretor. Esse é um daqueles filmes que você bate o olho e já sabe que se trata de uma obra assinada por Pedro Almodóvar. Seja pelas cores fortes, pelas temáticas femininas, pelas atuações exageradas ou por essas referências cênicas que tomam forma com o passar do tempo.

No entanto, apesar de tudo isso ser muito comum na filmografia do espanhol, sua primeira produção em inglês experimenta dar alguns passos mais ousados na direção da mistura de estéticas.

E o elemento que me fez pensar nisso com mais afinco foi justamente o cenário. Achei incrível como (nome da personagem) caminha por seu palco particular enquanto transita por cenários que se moldam de acordo com os monólogos cheios de altivez, permitindo que o diretor monte uma peça que ganha força nas passagens puramente cinematográficas.

É de fato um encontro magnífico entre essas duas mídias. Uma reunião de elementos opostos que somente dois gênios do calibre de Pedro Almodóvar e Tilda Swinton poderiam tirar do papel.

A Voz Humana
Foto: Divulgação

Digo isso porque talvez não exista uma atriz no planeta que consiga juntar caricaturas exageradas e emoções genuínas com tamanha versatilidade. No caso de A Voz Humana, ela transborda sentimentos que se relacionam com a vida de todos nós, dominando não só o espaço cênico (que raramente tem outra pessoa além dela), mas também o olhar do espectador.

A atuação dela serve como combustível para uma encenação dramática que chega a ser assumida pelo texto em dado momento. A partir dali, as camadas se multiplicam sem permitir que essa abordagem encenada seja deixada de lado.

E não podia ser diferente em um filme que existe para falar das encenações que compõem nossa vida. Um filme que parece ter nascido para misturar cinema, teatro e novela dentro de um caldeirão cujos ingredientes são abertamente burlescos, dramáticos e cenográficos.


Presente na Mostra de São Paulo 2021, A Voz Humana também estreará nas plataformas digitais no dia 29 de outubro


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