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“A Vida e História de Madam CJ Walker” fala de empoderamento negro feminino de uma forma nada usual, ao mesmo tempo em que não se arrisca


Obras sobre o empoderamento feminino costumam seguir uma cartilha pronta, principalmente se a produção delas é comandada pelo sexo oposto ou por pessoas que não passaram pelas mesmas dificuldades do objeto em questão. “A Vida e História de Madam CJ Walker” segue o caminho oposto, pois traz mulheres negras para comandar a tarefa e contar a história de Sarah Breedlove, filha de dois escravos, que ousa sonhar e se torna a primeira mulher negra milionária com uma linha de produtos capilares e de beleza para cabelos afro.

É claro que nada disso foi simples de ser alcançado, e durante os 4 episódios de Madam CJ Walker temos altos e baixos. O visual e a direção de arte dos anos 1800 está impecável, e nem ouso reclamar dos temas tratados como o combate a misoginia, o machismo, o racismo e a busca pela autoestima, tirada através de um mundo feito para exaltar a beleza branca e europeia (até hoje inclusive).

madam c.j. walker

O problema da minissérie baseada no livro “On Her Own Ground”, de A’Lelia Bundles, tataraneta de Madam CJ Walker (e que também assina o texto da série), está na linguagem atual, mesmo se passando num passado bem distante. As músicas, os diálogos de alguns personagens (os trejeitos de Leila, filha de Sarah vivida por Tiffany Haddish) e o visual (que no primeiro episódio “Battle of Century” simula um ringue???) não fazem jus a produção de época. Existem tantas músicas do início do século (e até antes disso), lindíssimas, que poderiam compor a trilha.

Tirando o choque inicial da estética, Madam CJ Walker se ancora em sua protagonista vivida pela sempre competente Octavia Spencer. Uma mulher dedicada, ferrenha, por vezes frágil, mas extremamente e necessariamente autoritária. Ela combate o machismo disseminado no mundo dos negócios, o abuso de poder e um mundo comandado pelos homens.

Como se não bastasse as dificuldades no mundo profissional, a protagonista também enfrenta traições, e a necessidade de recuar e se rebaixar para vencer – já que nada é fácil para uma mulher – principalmente uma mulher negra. Até a rivalidade feminina na figura de sua concorrente Addie Munroe vivida por Carmen Ejogo, traz discussões atuais sobre a beleza negra e como tratamos o colorismo dentro da própria comunidade.

O tempo passa e Madam CJ Walker continua com sua essência, mesmo com todas as mudanças decorrentes de uma vida difícil. Ela é uma sonhadora, e a produção deixa isso claro, por vezes misturando a fantasia com a realidade.

Obras que endeusam a auto-estima do povo preto estão em alta, assim como a própria produção da Netflix “Felicidade Por Um Fio” e o recente  curta vencedor do Oscar 2020 “Hair Love”. Em tempos onde tudo parece nos remeter a um passado difícil, essas obras são mais que importantes para ressaltar que nós, negros, somos lindos.

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A Vida e a História de Madam C.J. Walker

7.5

Tiago Cinéfilo
Há 4 anos nessa viagem. Estudante de Rádio, TV e Internet. Ex-Clock Tower, ex-Cinema Com Rapadura e ex-fã de The Walking Dead.

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