AODISSEIA
Especial

A versão real de Narcos

Uma aventura cheia de descobertas pelas terras de Escobar

27 de fevereiro de 2018 - 13:32 - Flávio Pizzol

 

Se você já assistiu Narcos, sabe que a cidade de Medellín é o palco central das duas primeiras temporadas. Os colombianos, principalmente aqueles que vivem na cidade em questão, não são os maiores fãs da visão americana proposta pela série, mas também admitem que a exibição mundial do programa ajudou a impulsionar o turismo em algumas regiões específicas. Afinal de contas, não existe ficção que consiga superar a intensidade de visitar os lugares onde a história realmente aconteceu.

Aproveitando minha visita à Colômbia, eu fiz uma parada na gélida e receptiva Medellín com o objetivo de conhecer um pouco sobre a história de um dos maiores traficantes que o mundo já teve o desprazer de conhecer. Consequentemente, as sensações e experiências que acompanharam essa aventura me motivaram a compartilhar algumas palavras sobre a cidade, sua relação com o narcotráfico e algumas descobertas inesperadas sobre Pablo Escobar.


Primeira estação: Comuna 13

O passeio que inaugurou nossas aventuras por Medellín foi o disputado tour por esta favela que, depois de tantos anos sofrendo com o tráfico e a violência, foi completamente revitalizada pela tecnologia e pela arte do grafite. A Comuna 13 foi dominado por Don Berna (nosso protagonista nesse momento da viagem e um personagem muito importante em Narcos) e precisou aprender a conviver com os ataques constantes de uma polícia paramilitar que acreditava que todos os moradores daquele local seriam bandidos. Entretanto, após o fim da violenta disputa pela cocaína, alguém descobriu o potencial turístico da região e decidiu fazer algo muito parecido com o que tem acontecido no Rio de Janeiro nos últimos anos.

 

 

Tivemos que caminhar bastante para chegar às escadas rolantes que percorrem o morro desde a revitalização, mas éramos constantemente agraciados tanto com as belas pinturas, creditadas a artistas de diversos países, que cobriam as paredes, quanto com a visão incrível da cidade que só a altitude daquele local poderia proporcionar. Ao contrário do que eu imaginava, a violência não era o tópico principal de um passeio voltado para a beleza da arte, mas ser acompanhado por um morador do local permite que várias perguntas sobre os confrontos com a polícia, Pablo e o próprio Don Berna sejam respondidas sem muita enrolação.

O foco do tour, no final das contas, não é ficar relembrando a dor e tristeza das últimas décadas, mas é parada obrigatória para quem quer conhecer a verdade sobre os impactos que o cartel deixou em Medellín e entender porque que, segundo o guia, nenhum colombiano em sã consciência pode vangloriar Escobar e seus parceiros como as séries costumam indicar. Ele realmente injetou dinheiro na cidade para reafirmar seu lado populista, porém deixou pra trás histórias muito mais negativas que positivas.

A Comuna 13 foi reerguida e se tornou um marco da cidade, mas isso não significa que todas as outras comunas conseguiram alcançar o mesmo patamar. Infelizmente…


Segunda estação: Casa Museo Pablo Escobar

A Comuna 13 sempre foi o meu esquenta, porque, desde o início das programações, o alvo principal estava apontado para locais realmente ligados à história de Pablo Escobar. Pensei em pagar um tour que passaria por alguns de seus terrenos, o edifício onde ficou escondido algum tempo, a casa da morte e a locação do assassinato pela Netflix, porém o valor – relativamente caro – não incluía a possibilidade de entrar em nenhum desses lugares. Como o único diferencial desse passeio estaria na casa usada pelo serviço de streaming em Narcos, decidi ignorá-lo para fazer meu próprio tour.

Minha primeira escolha foi ir a uma tal Casa Museo Pablo Escobar que aparecia em todas as pesquisas na internet. Os taxistas não pareciam conhecer o lugar, o preço da viagem acabou sendo salgado e o próprio tour pelo museu custa bem mais do que a maioria das instituições similares da cidade. Pagamos noventa mil pesos – sem contar os souvenirs comprados – em troca de uma conversa rápida com o irmão mais velho de Pablito (imagem da capa), um guia que trabalhou com o narcotráfico e uma dose gigantesca de pura história. Segundo eles, a família não precisa de dinheiro para sobreviver – sim, é isso mesmo que você leu – e, por isso, envia todo esse valor para um asilo que o reverte em comida e tratamento médico para os idosos acolhidos.

 

 

A casa em si não está entre as construções mais icônicas da vida de Escobar, sendo usado basicamente como ponto de controle para a chegada dos aviões com drogas ou dinheiro, porém o local está lotado de veículos, móveis, fotos, armas e outros objetos que fizeram parte da vida deste que deve ser o maior narcotraficante de todos os tempos. Isso sem contar que seu irmão – que também liderou o cartel e só está solto porque se entregou dois anos antes da morte de Pablo – mora no local e conversa tranquilamente com qualquer visitante que chega, recebendo os com abraços, fotos e pequenos “causos” sobre a época em questão.

Enquanto o nosso guia cubano contava o máximo de curiosidades possíveis e insistia em avisar que a série da Netflix passou bem longe da realidade, nós podíamos observar, tocar e fotografar coisas como um móvel usado para transporte de dinheiro, uma passagem secreta onde ficava a cocaína, os carros blindados usados em diversas fugas ou a mesa em que comemorou seu último aniversário um dia antes de morrer. Até mesmo um par de jet-skis originais usados por Roger Moore nas filmagens do longa 007 ‑ O Espião que me Amava e importados por Pablo direto da Inglaterra fazem parte dessa coleção invejável.

É claro que muitas coisas foram apreendidas, destruídas e roubadas pela polícia, mas isso só aumenta o valor de todas as coisas que a família de Pablo conseguiu recuperar para o museu. Ainda assim, sua riqueza maior está na maneira como o conhecimento dos funcionários e a presença da própria família de Escobar (vimos seu irmão e dois sobrinhos, incluindo uma que foi sequestrada e mantida em cativeiro por dois dias) é revertido em informação. Por exemplo, tanto o nosso guia quanto o sobrinho que nos recebeu insistiram em contar, contradizendo qualquer filme ou história divulgada, que Pablo se matou com um tiro na cabeça antes de ser alvejado novamente pela polícia e declarado morto. Segundo ele, os policiais forjaram a cena do crime e os documentos relativos para recolherem a recompensa oferecida pelo governo americano.

Se isso é realmente verdade ou não, só o próprio Pablo poderia confirmar…


Terceira estação: Cemitério Jardines Montesacro

O lugar escolhido para ser a segunda parada desse passeio foi o cemitério onde Pablo e toda sua família estão enterrados. E, por mais que os colombianos tentem ignorar a maior parte das coisas envolvam o tráfico, o túmulo em questão tem toda a pinta de ponto turístico: está separado do restante do cemitério, está sempre cheio de turistas e possui inclusive um senhor responsável por manter o local limpo e contar algumas histórias.

 

 

A entrada é gratuita e o cemitério não oferece nenhuma atividade especial para qualquer visitante, mas estar ali na frente dos corpos de Escobar, sua mãe, seu primo Gustavo, o motorista que o acompanhou nas últimas semanas de vida (Limón) tem algum impacto. Não é emocionante ou recompensador de nenhuma forma e muito menos redime Pablo de ser um grande filho da puta que cometeu diversos crimes, mas continua sendo uma parte importante da história da Colômbia. Além disso, querendo ou não, essa época jamais deve ser esquecida, ignorada ou deixada de lado, porque conhecer os erros do passado é o que nos ajuda a não cometê-los mais uma vez.


Quarta estação: Ausências

Dentro dos passeios pagos mais conhecidos, eu ainda poderia – ou até deveria – visitar o Edifício Mônaco e a Hacienda Nápoles que são, respectivamente, um dos esconderijos mais conhecidos de Escobar e sua maior propriedade adquirida em vida. Entretanto, infelizmente, nenhuma dessa visitas pode acontecer…

O edifício foi deixado de lado depois que ouvi na rádio uma notícia informando sobre sua implosão com o objetivo de construir um parque no lugar. Isso nos obrigaria, assim como no tour vendido anteriormente, a pagar um táxi para olhar apenas uma fachada pouco preservada e que seguiria os colombianos na ideia de apagar Escobar de suas mentes.

 

 

Já o segundo local precisou ser esquecido graças a distância que a fazenda fica de Medellín (aproximadamente 3 horas e meia só de ida) e o preço altíssimo que as empresas cobram pelo passeio. Tudo fica mais em conta quando se tem um grupo grande de estrangeiros, entretanto uma visita guiada para poucas pessoas em um dia de semana seria mais salgado do que meu bolso permitia. Tudo bem que o local foi todo restaurado, convertido em um museu sobre vivo sobre seu antigo dono, preenchido por cascatas belíssimas e transformado no safári que Pablo sempre sonhou em construir, mas meu dinheiro ainda não é ilimitado…


 

Apesar de tudo isso, a verdade é que Medellín tem se esforçado para desconstruir a imagem negativa deixada por Pablo Escobar e é muito fácil entender seus motivos. Os turistas são os grandes responsáveis por manter isso como um mercado, mas taxistas costumam recusar viagens relacionadas ao cartel, as propagandas produzidas pelo governo investem em outros aspectos e tudo mais. Me apropriando do que um amigo que vive aqui falou, a impressão que fica é que Medellín está tentando fazer o que os brasileiros nunca tentaram fazer. O que no caso deles significa desviar a atenção de Escobar, no nosso seria mostrar que o Brasil é mais do que samba, mulher e futebol.

É claro que ter a imagem turística de sua cidade conectada de forma tão profunda à figura de Pablo é muito mais incômodo do música ou futebol e, diante disso, a atitude de tentar ignorar sua própria história pode ser compreensível. Ainda assim, esquecer tudo pode gerar um problema muito grande e, por enquanto, prejudicar a cidade em certos aspectos. Ninguém pode negar que as produções internacionais sobre o traficante e assassino em questão incluíram Medellín nos planos de viagem de muita gente, visto que (como eu pude perceber) estar nos locais reais e ouvir a história verdadeira da boca de quem estava aqui é muito mais impressionante do que acompanhar os melhores dez episódios que a Netflix pode produzir.

A cidade pode sim aproveitar isso, desde que, como eu disse em algum ponto anterior do texto, se recorde de não vangloriar Escobar e seus companheiros. Mais do que isso, escutar a versão colombiana dos fatos pode abrir os olhos dos turistas e funcionar mais do que deixar todos curiosos com uma versão quase toda fictícia. Ao menos, isso foi o que aconteceu com minha pessoa…