A Taça Partida | Uma disputa fragmentada entre a relutância e a aceitação

A Taça Partida
Foto: Divulgação

Produção chilena que será exibida na Mostra de São Paulo, A Taça Partida é um conto – ora incômodo, ora apático – sobre ego, teimosia e transformação. 


Só quem viveu sabe todas as complicações que cercam um processo de divórcio. Independente dos motivos que levaram à separação, todos os envolvidos – dos pais até as crianças, caso elas existam – precisam lidar com doses generosas de sofrimento e readaptação.

A Taça Partida dialoga com esses sentimentos, apresentando um personagem que amaldiçoa o fim de seu relacionamento e, graças a masculinidade frágil, luta pela reconstrução desses fragmentos de uma forma que só pode ser classificada como questionável.

Qual é a história de A Taça Partida?

Rodrigo já teve uma esposa, um filho e uma casa própria, mas viu outro homem ocupar esse lugar após a separação. Um fato que ele não pode aceitar, apesar dos dois anos que o afastam do divórcio.

É por essas e outras que, numa manhã aparentemente comum, Rodrigo surge em sua antiga dominado pela necessidade machista de retomar suas “posses”. E está disposto a fazer qualquer coisa para cumprir essa missão, incluindo ferir aqueles que ama.

O que achamos de A Taça Partida?

A Taça Partida é um filme sobre ego e posse protagonizado por pessoas que desejam ocupar um espaço que lhes foi tirado, independentemente do motivo que levou a essa perda. Tanto que o diretor Esteban Cabezas descreve tais detalhes de maneira rápida e pontual.

Sua atenção está voltada, desde os primeiros minutos, para o sofrimento de Rodrigo, sua falta de aceitação em relação à presença de outro homem no ambiente em que ele ocupou o posto de dominante e, principalmente, suas tentativas de recuperar essa posição de segurança. Apesar das escolhas distorcidas, tudo que ele quer é se sentir em casa.

Nesse aspecto, A Taça Partida acerta em cheio na construção de sua mise en scene. De maneira sufocante e incômoda, os planos fechados de Cabezas contemplam tanto o vazio que comprime (literalmente) os protagonistas, quanto esse domínio de espaços que vai se tornando mais presente a cada cômodo revisitado.

Ao mesmo tempo, A Taça Partida nos apresenta um personagem conflituoso que se encaixa bem nesse cenário permeado por taças quebradas e torneiras gotejantes. Quando está sozinho na casa, Rodrigo se sente seguro, mas não o suficiente. Tudo que ele está fazendo não passa de uma solução parcial, já que os espaços relacionamentos estão caindo aos pedaços.

A Taça Partida
Foto: Divulgação

A inúmeras tentativas – desconfortáveis e frustradas – de se masturbar ou atrapalhar a vida de Maxi, deixam claro que aquela paz não garante que ele vai vencer todas as inseguranças que se refletem na masculinidade frágil e na disfunção erétil.

Inclusive, essa dificuldade sexual representa a perda de mais um elemento que compõe a personalidade básica de um homem. Na cabeça de Rodrigo e mais uma porção de gente, corresponder na cama é um fator tão importante quanto sustentar financeiramente uma família.

Cabezas percorre essa metáfora nada sutil de uma forma que nos ajuda a entender o personagem sem necessariamente concordar com suas ações. Afinal de contas, estamos diante de um homem falho (em todos os sentidos) que transita n uma linha tênue entre o bem e o mal.

Entre ser um babaca que se machuca pela presença de outro macho alfa em seu espaço e usa o filho para alcançar seus objetivos; e um ser humano arrependido que tem intenções reais de consertar seus erros. Admiro como arte do trabalho de Cabezas se dedica a borrar os limites entre os opostos e afastar Rodrigo de um maniqueísmo que o transformaria em um vilão raso.

No entanto, existe uma parte considerável dessas boas ideias que ficam presas no papel. E com isso, a partir de certo ponto, o filme se estagna na mesma linha tênue que Rodrigo, perambulando entre uma proposta de tensão que nunca chega em algum lugar e uma construção dramática que nunca encontra seu ápice.

Não estou dizendo que um filme é obrigado a ter ápices, porque isso é uma falácia. Na live sobre o Clint Eastwood que fizemos no mês passado, um dos tópicos girou em torno do fato de Cry Macho ser um filme anticlimático. A questão é que esse anticlímax que dialoga muito bem com o filme.

Em A Taça Partida, eu fiquei com a impressão que tanto Rodrigo quanto o diretor se cansam e trocam esse primeiro lugar de conforto por outro, recorrendo a uma conclusão introspectiva que desliga de forma brusca um caldeirão que estava prestes a explodir.

É verdade que uma parte desse discurso casa com a aceitação que o personagem buscava e possui certo impacto, mas ele fica preso no papel ao invés de transcender pra execução. Gosto do jantar encenado no jardim e de como o protagonista entende que está tentando consertar a taça partida com a cola errada, mas sinto que a conclusão abre mão do impacto que o próprio longa ensaia construir.

E, apesar dos bons momentos que valem a sessão, essa apatia tende a ser mais broxante do que acompanhar a jornada patética de um protagonista que não evolui.


A Taça Partida foi conferido nas cabines de imprensa da Mostra de São Paulo 2021


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