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A Parábola do Semeador é um livro cheio de conflitos que nos faz perceber como a sociedade mudou com o tempo.


Então, o que é Deus? Só mais um nome para seja lá o que faça você se sentir especial e protegido?

  • Título: A Parábola do Semeador
  • Autora: Octavia E. Butler
  • Ano: 1993
  • Edição: 2020
  • Editora: Morro Branco
  • Páginas: 432
  • Gênero: Ficção Científica / Distopia

A parábola do Semeador é o livro de Octavia E. Butler

Foto: @ResenhasCaoticas

Sinopse de A Parábola do Semeador

Quando uma crise ambiental e econômica leva ao caos social, nem mesmo os bairros murados estão seguros. Em uma noite de fogo e morte, Lauren Olamina, a jovem filha de um pastor, perde tudo e se aventura por um Estados Unidos dominado pela violência e pelo terror. Mas o que começa como uma fuga pela sobrevivência acaba levando a algo muito maior: uma surpreendente visão do destino humano… e ao nascimento de uma nova fé.

Foto: @ResenhasCaoticas

Resenha de A Parábola do Semeador

Essa sinopse não é capaz de descrever nem a grandiosidade dessa obra, nem o nível da violência e caos que encontrei nesse livro. Eu não estava pronta para ler uma distopia tão real e palpável quanto A Parábola do Semeador.

Escrita em forma de diário, A Parábola do Semeador foi publicado em 1993, e se passa entre os anos de 2024 e 2027. Na época, era 30 anos no futuro. Hoje, são datas que já estão dentro das metas financeiras e de trabalho que eu tracei para médio e longo prazo na minha planner.

As crianças hoje não tem ideia de como as cidades eram brilhantes, e nem faz tanto tempo assim.

Lauren é uma adolescente e acompanhamos ela dos 15 aos 18 anos. No seu diário, vemos como é sua vida nesse futuro distópico. Filha mais velha de um pastor e professor universitário, junto com sua madrasta e seus 4 irmãos, vivem em uma casa dentro de um bairro murado. Esses bairros funcionam como comunidades quase auto suficientes, onde os moradores fazem hortas em seus quintas e colaboram uns com os outros trocando os produtos. Nos bairros ricos também tem seguranças armados e cães. Os pobres não tem mais cães, pois não tem como alimentá-los, e os animais que vivem soltos disputam alimento com as pessoas.


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Quem vive fora dos muros tem que lutar, literalmente, pela sobrevivência. Porém, ninguém tem muita confiança em ninguém, e os personagens de Parábola do Semeador, mesmo vivendo em comunidade e dependendo uns dos outros, são muito reservados e tomam cuidado para que seus vizinhos nunca saibam o que realmente tem em casa.

No mundo de A Parábola do Semeador construído por Octavia E. Butler, a autora imaginou que as coisas ruins que haviam na sociedade da época e que poderiam ser desenvolvidas sem nenhum controle. É um mundo falido, o meio ambiente foi degradado e explorado ao extremo. A água é cara. A gasolina nem se fala, as pessoas só andam a pé ou de bicicleta. Nas cidades, todos os comércios contam com seguranças armados para evitar assaltos. As ruas e estradas estão cheias de ladrões, assassinos, estupradores e viciados em drogas, sendo que uma delas, chamada Piro, que faz com que quem a tome fique louco e comece a provocar incêndios, pois a visão do fogo passa a causar orgasmos.

O cenário todo é aterrador. Mas o que mais incomoda é que muita coisa descrita realmente tem sua versão real.

Para sobreviver, além de sempre se manter dentro dos muros e cuidar das hortas, o pai de Lauren leva ela e outros jovens da comunidade para aprender a atirar, para o caso do bairro ser invadido algum dia. Apesar de ser pastor, a prioridade dele é que a família viva.

Eu ouvi: “Não Matarás” a vida toda, mas quando você tem que matar, você mata. Queria saber o que meu pai diria sobre isso. Mas foi ele quem me ensinou a atirar.

Lauren nasceu com uma doença fictícia chamada de Síndrome da Hiperempatia. Por causa disso, ela sempre sente a dor das pessoas próximas, chegando a sangrar, ficar imobilizada ou inconsciente dependendo do que afligiu o outro. Escondendo isso dos outros, ela forma ideias sobre o que deve fazer para garantir sua sobrevivência e traz muitas reflexões sobre a sociedade dela, que podem ser usada para comprar com a nossa. Apesar da fragilidade da doença, ela é uma protagonista forte. Sendo uma mulher negra em um mundo machista e racista, encontra sua força na sua vontade de viver e na sua fé.


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A Parábola do Semeador tem esse título a partir de um versículo da Bíblia, e religião é otema central do livro. Mesmo sendo filha do pastor da Igreja Batista e ter crescido ouvindo sobre Deus a partir do ponto de vista dele, Lauren tem uma outra ideia e concepção do que é Deus, e passa sempre essa ideia para o seu diário, seja em forma de explicações em prosa ou até mesmo em versos. Sua intenção é guiar a humanidade para sua sobrevivência e subsistência, tendo como destino outros planetas.

Tudo o que você toca

Você Muda

Tudo o que você Muda

Muda você

A única verdade perene

É a Mudança

Deus é Mudança

A cada capítulo, vamos acompanhando esse mundo em caos e essa menina tentando encontrar uma forma de retorná-lo à ordem. Os mais velhos ficam esperando a volta dos velhos tempos, que alguma coisa aconteça para ter a vida que tinham antes, mas ela não acha que vão voltar, e só depende das pessoas para agir. Não havia como não comparar esse trecho de A Parábola do Semeador com o cenário  no “novo normal” que estamos vivendo, mesmo que Butler não tenha vivido para ver isso. A negação das pessoas de que a vida mudou estanca a evolução.

Nossos adultos não foram dizimados por uma praga, por isso ainda estão presos ao passado, esperando pela volta dos bons tempos.

Foto: @ResenhasCaoticas

O que achamos de A Parábola do Semeador

A leitura é muito fluida, e a curiosidade para o que vai vir em seguida só aumenta a cada página. Tendo um início melancólico, ao longo da leitura a autora traz vários momentos de tensão que fazem com que A Parábola do Semeador seja um livro difícil de largar. Há conflitos familiares, de gênero, raciais, políticos, ambientais e religiosos que fazem com que essa seja uma daquelas leituras que mostram como a sociedade mudou muito pouco. Por esses mesmos motivos, o livro é pesado, e pode ser que não seja uma leitura adequada a pessoas mais sensíveis ou com os gatilhos mencionados.

Se o problema viesse, eu esperava que pudéssemos matá-lo e continuar caminhando.

Butler constrói uma história interessantíssima, crua, violenta e atual. Mas também com esperança.

A Parábola do Semeador é o primeiro livro de uma duologia, que termina com A Parábola dos Talentos. Ambos foram lançados pela editora Morro Branco, numa edição com detalhes lindos. Você pode estar adquirindo o ebook ou livro físico aqui.

Aqui é a Liv do Resenhas Caóticas, e se você quer acompanhar mais as minhas leituras, me siga no Instagram @ResenhasCaoticas. Obrigada e até a próxima.
Livia Salzani

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