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Filmes

A Música da Minha Vida – Uma canção bela, mas desafinada

Mesmo escorregando no tom, drama musical tem coisas muito interessantes para dizer...


20 de setembro de 2019 - 08:06 - Flávio Pizzol

A Música da Minha Vida vacila no tom e na consistência de sua história, mas é uma produção cativante sobre família, preconceito e Bruce Springsteen.


Quem vê o trailer de A Música da Minha Vida (Blinded By the Light em inglês) sem prestar muita atenção pode confundi-lo facilmente com Yesterday, afinal ambos se tratam de produções britânicas que usam as canções de um artista específico como plano de fundo para contar a história de um jovem asiático sonhador. No entanto, mesmo com todas essas proximidades, a história de Javed Khan possui diferenças – além da nacionalidade de seus protagonistas  – que anulam a comparação, mergulhando inclusive em uma trama mais dramática que mistura momentos descompassados com uma série de boas discussões atuais.

O longa, baseada em fatos bizarramente reais, acompanha justamente esse garoto paquistanês que convive diariamente com sua família ultraconservadora, problemas monetários e doses absurdas de preconceito. Quando tudo parece estar desmoronando de vez, ele descobre o trabalho de um artista pouco conhecido chamado Bruce Springsteen (ironia, tá?) e começa a usar tais músicas como fonte de consolo e/ou energia para quebrar as amarras estabelecidas pela cultura, conquistar um grande amor e correr atrás dos seus inúmeros sonhos.

Uma lista de possíveis realizações que, por sinal, usa o amor de Javed pelas palavras, pelo walkman e pela composição como um lembrete constante de sua ligação íntima com a música ocidental, transformando o próprio esqueleto narrativo de A Música da Minha Vida  em uma legitima carta de amor à música e sua influência positiva. No entanto, o caldo só engrossa de verdade quando as raízes operárias de Springsteen entram em cena para conectar um dos maiores letristas da história dos EUA (e suas canções sobre as tragédias que acompanham os homens comuns) com uma família de imigrantes paquistaneses. É aqui que o filme se divide tematicamente, assumindo também a missão de homenagear o compositor de “Born to Run” e “Streets of Philadelphia” através das vidas que ele mudou.

É verdade que esse caráter celebrativo e a admiração pela música como entidade cultural realmente aproximam os dois filmes citados na introdução, mas, como também foi dito, as semelhanças param por aí. Com exceção de algumas piadas muito pontuais, A Música da Minha Vida é um filme dramático que, além de se levar a sério na maior parte do tempo, parece estar mais interessado em mergulhar nos obstáculos familiares ou culturais que cercam seus protagonistas do que na ideia de ser uma celebração alegre e sonhadora da vitória. Tal escolha faz com que a produção fale sobre crescimento pessoal, paternidade e até mesmo política de uma maneira assertiva e emocional, surpreendendo o espectador mais desavisado que estava esperando um coming-age qualquer.

Mas, infelizmente, a verdade é que nenhuma mensagem bonita ou discussão atual consegue sustentar uma obra formulaica e desengonçada que acaba usando as letras de Springsteen mais como uma espécie de muleta narrativa do que como verdadeira inspiração. O roteiro – escrito pela própria diretora Gurinder Chadha (Driblando o Destino) ao lado de Paul Mayeda Berges (O Último Vice-Rei) e Sarfraz Manzoor (The Dark Side of Porn) – se perde completamente no desenvolvimento do segundo ato, abandona personagens importantes por tempo demais e deixa a desejar nos diálogos que deveriam conferir um pouco de veracidade ao relacionamento da família de Javed. Só que, ao invés de dar mais atenção a esses detalhes, o texto tenta conectar os bons momentos através de músicas que, na maioria das vezes, perdem o impacto por estarem deslocadas ou sofrendo com transições bruscas.

Admito que conhecer muito pouco sobre as músicas de Bruce Springsteen pode influenciar na quantidade de canções que funcionam, porém é impossível perdoar uma direção que, apesar das belas tomadas e dos grafismos inseridos com criatividade, também parece ser uma novata no universo em questão. Gurinder Chadha repete ou sobrepõe músicas sem nenhuma função aparente, insiste em uma edição que tira boa parte do impacto das sequências musicais, escorrega quando tenta mudar os rumos da narrativa no meio do filme e, acima de tudo, não consegue tirar os personagens do lugar-comum. É tudo tão óbvio e batido que inclusive aquele recheio temático relativamente interessante perde a graça até os minutos finais.

Isso tudo sem contar com as atuações inconsistentes que preenchem a produção com, no máximo, alguns bons momentos sem sustentação. É claro que nomes como Viveik Kalra, Meera Ganatra e Aaron Phagura merecem algum desconto por conta da inexperiência em produções desse porte, no entanto ver atores mais experientes, como Kulvinder Ghir (Beecham House), Hayley Atwell (Agent Carter) e Dean-Charles Chapman (Game of Thrones) completamente perdidos me obriga a continuar colocando parte da culpa na conta da direção. Principalmente porque essa instabilidade do elenco prejudica muito a imersão do público naquele – já citado – segundo ato que se estende mais do que o necessário pelo melodrama.

O resultado é uma bagunça que o longa só consegue ordenar quando o terceiro ato chega com aquele bom e velho discurso de formatura que, apesar da obviedade, amarra de um jeito que acaba emocionando todas as muitas pessoas que lutam por seus sonhos, sentem saudade da família ou entendem a importância que a música pode ter na sociedade. Só não se engane em relação a todos os problemas que foram citados aqui: eles não só continuam presentes, como batem na porta no momento em que a conclusão exige mais força da relação entre os personagens. Ainda assim, A Música da Minha Vida consegue fazer sua mensagem prevalecer por alguns belíssimos minutos, tornando-se aquele candidato do The Voice que, mesmo saindo do tom ou errando a letra, ganha o técnico pela emoção contida em sua voz.


OBS 1: Em outras palavras, talvez essa emoção não seja o suficiente para fazer alguém aguentar duas horas de show, mas pode garantir a boa recepção de algumas músicas.