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A mulher na Janela tem uma boa premissa, um ótimo elenco… e uma direção mais confusa que a própria Anna Fox.


Quem nunca deixou de falar alto só para ouvir o que estava acontecendo na casa do vizinho, ou mesmo na rua, que atire a primeira pedra! Todos temos um pouquinho de curiosidade. E isso não é nada de ruim. É essa curiosidade que nos move a buscar outros caminhos, tentar coisas diferentes… o problema é quando ela começa a se tornar ponto central na vida de alguém; quando “bisbilhotar” a vida das outras pessoas vira um passatempo. E, como diz o ditado, “a curiosidade matou o gato”.

No caso da nova produção da Netflix, “A Mulher na Janela”, o gato estava sem os bigodes: não morreu nem pela curiosidade, e sim, porque ficou confuso e perdeu o caminho de casa.

Temos aqui, Amy Adams como Anna Fox, uma psicóloga que sofre de agorafobia, ou seja, tem medo de sair de casa. Por passar muito tempo enclausurada (ou, simplesmente, por não ter muito o que fazer), começa a observar as famílias que moram em seu bairro. Os Russell são os mais recentes moradores, e despertam a curiosidade de Anna, principalmente, após conhecer Jane Russell (Juliana Moore), que, numa noite, é brutalmente assassinada. Porém, com o andar da carruagem, nem tudo é como parecia ser, e deixa uma dúvida: aquilo teria sido real ou uma alucinação de Anna?

A Mulher na Janela

Foto: Netflix / Melinda Sue Gordon

A Mulher na Janela” (baseado na obra homônima de A. J Finn) tinha todos os elementos para ser um ótimo filme de suspense. O interessante dessas obras, como “A Garota no Trem” (2016), é a falta de confiabilidade na percepção da protagonista. Não sabemos se, realmente, devemos nos ater ao que está sendo mostrado. E o filme de Joe Wright poderia ter aproveitado mais isso, por conta de Anna possuir justamente um transtorno que afeta sua noção da realidade. Porém, isso não acontece.

Muito pelo contrário: não criamos vínculo com a personagem de Adams. Apesar de todo o seu esforço, não conseguimos realmente nos importar e nos preocupar com sua personagem.

Para falar a verdade, ninguém parece muito confortável aqui. O elenco tem nomes de peso, como Juliana Moore, Gary Oldman e Anthony Mackie, só que todo mundo parece deslocado, meio sem saber o que fazer. E acaba que isso transforma o filme em um remendo apressado e confuso. Os planos bem feitos e os estilosos movimentos de câmera não são suficientes para salvar a montagem, que está mais perdida que uma barata fugindo da sandália.

A explicação, talvez, esteja no fato de que a obra passou por duas refilmagens. O que fica, porém, é uma sensação de algo picotado. Parece aqueles trechos de asfalto que estavam quebrados, e tentaram consertar com outro pedaço. Só que em “A Mulher na Janela”, isso não deu muito certo.

A Mulher na Janela

Foto: Netflix / Melinda Sue Gordon

Pode até ser dito que a confusão é um elemento intrínseco ao enredo, uma vez que a protagonista também está confusa em relação ao acontecimento. A palavra mais adequada, porém, deveria ser complexo. Algo confuso é algo sem sentido, sem pé nem cabeça. Algo complexo é como vemos em “Um Contratempo” (2016), em que os pontos de vista são constantemente questionados e reformulados, porque algo passou despercebido e não se encaixou com o que estava sendo revelado até então.

Mas e o suspense?”, você me pergunta. Não funciona!

A trilha sonora também parece estar meio perdida e não sabe em que momento entrar para atenuar o sentimento de preocupação, e o cenário da casa não nos passa aquela sensação de desconforto e insegurança que seria ideal para o contato com a personagem de Amy Adams. Na verdade, parece mais a casa da mãe Joana: todo mundo entra e sai com tanta facilidade, que nem parece ser a moradia de alguém que tem agorafobia.

E por fim, os plot twists que segurariam a trama, são pouco impressionáveis e ineficientes. Chega um momento que o espectador mal se importa com o que está acontecendo, pois não está entendendo o que é mostrado, apesar do filme só ter 1h40min de duração.

Ou seja, quando a revelação vem (de forma anêmica, devo dizer, de tão genérica e fraquinha), ela nem é tão impactante ao ponto de nos deixar em choque. A obra constrói uma expectativa em cima da revelação e quando todo mundo pensa que, nos minutos finais, algo impensável será revelado… não é nada mesmo. Era só o que já tinha sido mostrado. E é isso aí. Mistério resolvido e todos saem felizes e sãos.

A Mulher na Janela

Foto: Netflix / Melinda Sue Gordon

A Mulher na Janela” é confuso, ineficaz e questionável. Sua constante aparência de “retalhado” não passa credibilidade e seu suspense não é funcional. Acaba por ser mais uma adaptação triste de um livro de sucesso (que, ao que parece, também possui um final decepcionante), e que se perde nas próprias ideias. Ao tentar ser complexo, torna-se sem saída e se enrola em nós que ele mesmo atou. O elenco de estrelas não conseguiu validar tanto a obra, e Amy Adams (mais uma vez) perdeu a tentativa de mostrar todo o seu potencial numa personagem mais aclamável.

Dito isso, fica quase que uma lição: nunca foi tão complicado pensar no que pode resultar uma simples espiadinha na janela para ver o que está acontecendo na casa do vizinho.


A Mulher na Janela está disponível no catálogo da Netflix

 
 
 
 
 
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A Mulher na Janela

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Ronald Aquino
Nascido e criado na Escola Xavier para Jovens Superdotados, com a (estranha) capacidade de ser, falar e escrever usando da subjetividade e da ironia. Isso, pois passou alguns anos como assistente do psiquiatra que tratava o Joker, no Asilo Arkhan. Lá, desenvolveu uma paixão pelo estudo da mente humana, e como os seres humanos são. Por isso, escreve (subjetivamente, óbvio) na intenção de expressar o que vem de dentro, o que emana de seu perturbado interior.

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