AODISSEIA
Especial

Fórmula Marvel. A mágica dos Super-Heróis

7 de novembro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Divagações sobre um assunto complexo…


Doutor Estranho chegou aos cinemas (leia a critica aqui) e a magia mostrou sua importância heroica com imponência mas o foco dos textos nacionais e internacionais estão nos problemas ocasionados pela fórmula Marvel. Aparentemente, a presença da clássica jornada do herói na base do roteiro, as piadas “interrompendo” diversos momentos dramáticos, os diálogos explicativos e a necessidade de conectar essa história com o restante do universo são os grandes vilões de todos os filmes do estúdio. São os grandes culpados por uma suposta repetição ou exaustão no gênero de super-heróis.

Pessoalmente, eu não concordo com essa teoria. Já vi outras pessoas defendendo a presença desses elementos em Doutor Estranho e em boa parte das produções da Casa das Ideias. Como já disse na crítica citada ali em cima, eu acredito que esse seja um mal necessário para apresentar os personagens em outras mídias e conquistar públicos que vão além dos leitores de quadrinhos. Pessoas que não sabem quem é Wong ou qual o valor do Olho de Agamotto. Pessoas que dão gargalhadas nas sessões lotadas e garantem que todos os filmes sejam sucesso absoluto de bilheteria. Isso é um fato que não podemos negar.

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Claro que certos filmes – como Thor ou Era de Ultron – sofrem com o excesso de alguns desses elementos da fórmula Marvel, mas é importante lembrar que todos esses também passaram por questões mais problemáticas nos bastidores. São discussões sobre tom, orçamento e conexões que incomodam muitos diretores voltados para o trabalho autoral, como aconteceu com Edgar Wright (Scott Pilgrim Contra o Mundo) em Homem-Formiga. Ele desenvolveu toda a composição narrativa e visual do filme, mas não aguentou trabalhar sob o comando dos executivos. Seu lugar foi assumido por Peyton Reed (Sim, Senhor) e o chefão da porra toda deixou claro que preferia comandar suas produções com mão de ferro.

Mesmo assim, isso não pode ser considerado o fim do mundo ou o grande problema do MCU. A Marvel tem um plano bem claro para o seu futuro, Kevin Feige acompanha todas as produções de perto e muitos diretores batem o cartão apenas cumprir o que foi pedido, ignorando as semelhanças com as obras anteriores. No entanto, outros já ocuparam a mesma posição e mostraram que existem opções para balancear as concessões feitas aos executivos com suas ideias autorais, sendo que James Gunn, Irmãos Russo e o recém adicionado Scott Derrickson são os melhores exemplos aqui.

Mexendo com um grande evento dos quadrinhos, o surgimento de novas dimensões e a apresentação das Jóias do Infinito, todos os três dirigiram filmes de grande importância para o universo e, por conta disso, precisaram sim trabalhar com outros roteiristas e executivos para manter tudo conectado. Guardiões da Galáxia, Soldado Invernal, Guerra Civil e Doutor Estranho possuem a necessidade constante de amarrar as pontas e justificar as conexões, mas também encontram espaço para serem inovadores na utilização do humor, nas coreografias de luta, na reunião dos heróis, nos dilemas pessoais ou no próprio visual psicodélico.

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Todos tem um pouquinho da identidade de cada um deles e, pensem comigo, funcionam muito mais do que o infame Homem de Ferro 3, que teve mais liberdade, não precisava fazer grandes conexões e – mesmo assim – escorregou feio no humor, no visual e na utilização errônea de um vilão. E esse último certamente não foi uma obrigação colocada pelo estúdio. A fórmula Marvel não pode ser vista como uma solução infalível, mas a culpa nesse caso fica com ela, com Shane Black ou com os dois? Vale, pelo menos, uma reflexão maior.

A grande questão é que, como eu já disse, a tática tem funcionado, enquanto o outro lado dessa briga infinita ainda sofre com problemas de bastidores e resultados que não agradaram seus próprios investidores. Os filmes produzidos e lançados pela Warner/DC Comics receberam duras críticas pela pressa na produção, pela seriedade, pelos problemas de edição, insistindo em vários momentos em ser o oposto da Marvel. A falta de retorno financeiro (afinal o cinema é uma indústria) colocou discursos de mudança na boca de Geoff Johns, gerou a contratação mais ampla de Ben Affleck como produtor e incorporou a comédia nos trailers de Mulher-Maravilha e Liga da Justiça.

Ainda não podemos dizer que a DC vai incorporar todos os elementos da fórmula Marvel aos seus filmes, porque o discurso divulgado para a imprensa permanece apoiando a produção de filmes autorais. No entanto, Mulher-Maravilha perdeu uma diretora antes da entrada de Patty Jenkins, The Flash chegou a terceira saída por diferenças criativas com o abandono de Rick Famuyiwa e James Wan está usando todo o valor monetário do seu nome para não passar sufoco com Aquaman. Existe alguma coisa errada quando você contrata um diretor por seus trabalhos anteriores e não aceita as sugestões autorais do mesmo…

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O discurso pode até tentar vender que a Warner quer uma nova franquia com a visão de um autor, mas as atitudes mostram o contrário. Espero que eles não optem por simplesmente copiar outros estúdios, mas sinto muito informar que a DC também quer uma fórmula para aplicar em todos os filmes. A diferença é que eles ainda não encontraram e preferem esconder que estão nessa jornada. Então, independente de erros ou acertos, fica cada vez mais claro que os produtores da DC tem algo específico em mente e querem alguém que participe do todo (Ben Affleck, Zack Snyder e talvez James Wan) ou alguém que aceite apenas acatar ordens. Só não vale falar uma coisa e fazer outra diferente no meio do caminho, porque nós já conhecemos o resultado disso.

E, além disso, aceitemos que ter ideias prontas para um universo não significa ignorar todas as ideias dos seus contratados. Chegando ao ponto de causar a saída dos mesmos e isso é algo que DC, Sony e todos os donos de grandes franquias podem aprender com Marvel, James Gunn, Scott Derrickson. Quem sabe futuramente, até Taika Waititi. Ao contratar um diretor pelo estilo autoral apresentado em filmes anteriores, você tem quase que uma obrigação de tentar casar aquilo que é essencial para a produção do seu filme com aspectos sugeridos por essa mente nova. O sucesso dessa relação harmoniosa pode levar a produções como Guardiões da Galáxia e a falta do mesmo nos entrega produções contidos e castrados que sofrem com decisões pouco artísticas, como A Era de Ultron, X-Men Origens: Wolverine e Esquadrão Suicida.

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Não sei se consegui chegar a algum lugar efetivo. Contudo, meu objetivo é mostrar que as “fórmulas” não são uma solução, um problema e muito menos uma exclusividade da Marvel. Elas são uma tática que, no caso específico da Casa das Ideias, ajudam a conquistar todo mundo, fazer dinheiro e pagar a continuidade do universo. Não pode ser usado sem moderação, mas existem formas de fazer o arroz e feijão com um toque diferente em aspectos tangentes a essas características citadas. Fazer isso de forma transparente, deixar a mente aberta para decidir o tom em conjunto e contratar as partes da equipe técnica sabendo o que eles querem passar no filme são algumas opções válidas.

Essa fórmula Marvel é uma coisa real que já prejudicou algumas produções dentro e fora das adaptações de quadrinhos. Certamente não vai ser abandonada tão cedo, então é tudo uma questão de saber usar as regras a seu favor. Todos querem descobrir uma forma de garantir o sucesso de suas produções e vão continuar essa busca para agradar fãs, espectadores comuns, investidores e uma parte da critica. Na minha opinião, nossa função é entender que isso faz parte do escopo da Marvel e tem um motivo justo para estar ali antes de simplesmente culpar a fórmula. As piadas podem até interromper aquela cena ação super dramática, mas a risada da plateia mostra que elas funcionaram com todos. Os filmes são feitos para muitos públicos diferentes, então essa piada ou aquela explicação minuciosa talvez não tenha sido escrita pra você.


OBS 1: Essa é minha opinião e eu não sou o dono da verdade. Se não concordar comigo, comente com argumentos e moderação que podemos expandir as divagações!

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