A Casa Sombria – Crítica | As fases do luto às avessas

a casa sombria

Em “A Casa Sombria”, David Bruckner mistura o suspense ao terror de casa mal assombrada, sem se perder no meio do caminho


Os filmes de terror de casas mal assombradas, talvez sejam aqueles que mais se utilizam dos clichês do gênero. O uso da luz e escuridão, o jumpscare, a ocultação daquilo que ainda não pode ser visto, o porão, sótão, enfim. Qualquer realizador que se proponha a fazer um filme assim, tem em mãos um terreno cheio para explorar, desde Shirley Jackson, até ‘A Casa da Colina (1999)’, e porque não o “recente” ‘Invocação do Mal’.

Mas o cineasta David Bruckner (de O Ritual, 2017), é tudo menos óbvio. É claro que ele utiliza de todos esses clichês, mas o foco em ‘A Casa Sombria’ não está em espíritos, ou até mesmo na casa (que é um personagem e leva o título do longa), mas sim em sua protagonista Beth, interpretada por Rebecca Hall. Existe algo além da morte? E se existe, é bom procurar por isso?

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Foto: Divulgação Searchlight Productions

Antes, qual a trama de A Casa Sombria?

Balançada com a morte inesperada de seu parceiro Owen (Evan Jonigkeit), Beth vive sozinha em uma casa à beira do lago, que o marido construiu para ela. A protagonista tenta o melhor que pode para se manter bem, mas então chegam os pesadelos: visões perturbadoras de uma presença na casa a chamam, acenando com um gesto fantasmagórico.

Contra o conselho de seus amigos, ela começa a vasculhar os pertences de seu marido, ansiando por respostas. O que ela descobre são segredos terríveis e um mistério que está determinada a resolver.

O que achamos do filme?

O roteiro de Ben Collins e Like Piotrowski (‘Super Dark Times’), faz com que Rebecca Hall conduza essa história. A Casa Sombria se divide entre um suspense investigativo e um filme de terror de casa mal assombrada, com David Bruckner comandando o espetáculo.

Apesar de seguir produções recentes como Hereditário e The Babadook, sobre a dualidade de sua trama (a personagem está passando pelo luto ou tem algo realmente acontecendo?), Bruckner constrói seu próprio mistério e utiliza os corredores e cômodos a seu favor.

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Foto: Divulgação Searchlight Productions

A tensão aumenta a medida que nos aproximamos da grande revelação, que não tem pressa em aparecer. Antes disso, Beth passa pelas fases do luto, mas não de forma clássica. Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, se misturam num mar de sarcasmo e ironia, e a força de ‘A Casa Sombria’ está na atuação perfeita de Hall.

Existe uma inocência maldosa em seus olhos, e muito disso se deve ao fato da protagonista não entender muito bem o que aconteceu. Enquanto investiga o porquê das ações e segredos do marido, a mente de Beth se mistura entre a realidade e o sobrenatural, ancorada apenas no desejo de compreender quem era o homem que tanto amava.

Para chegar ao clímax, Bruckner brinca com a bagagem que tem no horror, desde bons sustos, até a percepção de que alguém está te observando. Para isso, o trabalho de som de Ric Schnupp (“Midsommar”) é primoroso, a cada passo, batida de porta, e no mínimo zumbido de um mosquito.

No fim, A Casa Sombria escolhe um caminho que com certeza dividirá opiniões. É claro que existem comentários a relações problemáticas, autodestruição, e até experiências de quase morte, mas talvez o diretor não quis sair do lugar comum de sua filmografia, optando pelo caminho mais fácil.

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Foto: Divulgação Searchlight Productions

Devo dizer que o desfecho não me desagrada, mas entendo que a expectativa gerada pode frustrar aqueles que esperavam algo mirabolante, ainda mais com a presença dos coadjuvantes, que não ajudam mas também não comprometem.

Desse modo, A Casa Sombria é um terror de libertação. Um desbloqueio daquilo que se entende por fidelidade, rendendo uma resolução empolgante – que apesar de abrupta – é ambígua e retorna a ação, quando sua protagonista parece querer sair dela.

A obra será mais uma das produções recentes falsamente julgada como não sendo um filme de terror, e nesse momentos a cabeça de quem afirma isso é igual o vazio: não há nada.


A Casa Sombria estreia dia 23/09 (quinta-feira), nos cinemas brasileiros. Caso vá ao cinema, siga todos os protocolos de segurança.

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