AODISSEIA
Filmes

A Ascensão Skywalker: Um final vazio para Star Wars

J.J Abrams foi nocauteado por sua vontade de agradar todo mundo sem agradar ninguém.


19 de dezembro de 2019 - 14:38 - Flávio Pizzol

A Ascensão Skywalker “corrige” o filme anterior, se aproxima da franquia original e encerra a gloriosa saga Skywalker da maneira mais vazia possível.


Nove filmes, diversas séries, inúmeras HQs e tantas outras histórias espalhadas pelas mais diversas mídias separam o presente do momento em que fizemos nossa primeira viagem para aquela galáxia muito distante. Uma galáxia que nos apresentou vilões icônicos, naves destruidoras de planetas, milhares de espécies alienígenas, uma fonte de poder adorada quase religiosamente e uma lenda representada pela nobre família Skywalker. Muito tempo depois dessa visita de reconhecimento, chegou a hora de ver a saga encerrar sua marcante jornada através de nossas gerações. Só é triste ver a beleza de tamanha despedida sendo atrapalhada pela mediocridade sem emoção que tomou conta de A Ascensão Skywalker.

A trama – que deu vida a boa parte dos medos expressos no Dropseia 012 – reúne Rey, Finn e Poe em uma caça ao tesouro cujo ponto de chegada é o planeta secreto usado como esconderijo pelos Sith. O ponto de partida perfeito para uma jornada cheia de aventuras, reencontros e descobertas inesperadas que, sob a sombra do Imperador Palpatine, conduz nossos protagonistas até uma grande batalha pela galáxia.

Eu sei que a sinopse parece exageradamente simplória e meio deslocada, mas essa é exatamente a base de A Ascensão Skywalker. E o motivo, no final das contas, é que tudo isso não passa de um pretexto pra J.J. Abrams e Kathleen Kennedy amaciarem o ego de alguns fãs chorões, dando vida a diversas teorias que ficaram famosas no Reddit. O que, em outras palavras, significa mudar a maioria das ideias desenvolvidas por Rian Johnson no ótimo Os Últimos Jedi. Tanto que uma parte considerável do filme se baseia na necessidade de “consertar” coisas que já haviam resolvidas em 2017, retomando o papo sobre a paternidade da Rey ou até mesmo minando a importância de personagens criticados após aquele longa.

Ao mesmo tempo, fica muito claro que o objetivo é seguir o caminho de O Despertar da Força e deixar o longa o mais parecido possível com a trilogia original. Não é à toa que, na outra parte do filme, tudo que o J.J. faz é repetir os conceitos que fizeram parte de O Retorno do Jedi, encerramento daquela parte da saga. Ou seja, temos um mais um filme sobre redenção e descoberta de paternidade que não sai (em nenhum mísero instante) da cartilha que obriga os protagonistas de Star Wars a dividirem algum parentesco padronizado e repetitivo. Afinal de contas, uma mera sucateira sem sangue nobre não pode ser Jedi sem atrapalhar as reviravoltas dessa novela mexicana em que a franquia se transformou.

No entanto, mesmo com todo o descontentamento gerado por esse “recall”, só Deus sabe como eu queria que os únicos problemas de A Ascensão Skywalker fossem a vontade de reverenciar o Episódio VI ou as tentativas de refazer o trabalho divisivo de Rian Johnson. Mas o roteiro escrito por J.J. Abrams e Chris Terrio (Batman vs Superman: A Origem da Justiça) vai muito além na arte de criar algo ridiculamente fraco. O texto não consegue ser nada mais do que apanhado de referências amarrado como um road movie desconexo que depende do jogador completar sua missões, enquanto apresenta personagens que não vão se destacar e profere diálogos com potencial para superar o George Lucas em pessoa.

A Ascensão Skywalker Star Wars Odisseia

Um desserviço que ainda é complementado por reviravoltas tão antecipáveis que podem ser consideradas inexistentes, personagens retornando sem nenhuma construção prévia, momentos de possível impacto jogado na cara do espectador sem qualquer antecipação ou catarse e uma escrita preguiçosa que se justifica através de pressentimentos ou segredos ancestrais jamais revelados. Seguindo uma pegada bem próxima da conclusão de certa série medieval, A Ascensão Skywalker sugere que JJ escolheu o final por causa do paralelo narrativo e passou por cima de qualquer coisa para chegar nesse ponto, ignorando tanto as explicações plausíveis quanto o mínimo de preparação do cenário.

E o resultado disso é um filme clichê que ora soa excessivamente repetitivo, ora soa completamente vazio de qualquer emoção. Um fato comprovado sem muita dificuldade pela pré-estréia mais morna em que qualquer fã de Star Wars já esteve. Nenhuma participação nostálgica, morte, sequência de ação ou frase clássica fez a platéia dar risada, suspirar, chorar ou vibrar. O silêncio constrangedor que tomou conta da sala representava uma indiferença conjunta que, infelizmente, só foi quebrada por risadas de vergonha alheia. E, apesar da cafonice, eu nem tenho problema com a decisão de fazer aquela cena em si. Não aceito um texto que se apoia inteiramente na tentativa – inútil – de agradar todo mundo sem agradar ninguém.

Claro que ainda é legal rever os personagens clássicos, acompanhar todos os três protagonistas em uma aventura conjunta e torcer pela vitória da Resistência, mas esse ânimo vai diminuindo a cada minuto de filme graças a uma direção igualmente morna de J.J. Abrams. Parece até que ele entendeu a cagada que tinha feito e decidiu agir com total indiferença, já que estamos falando de um diretor que se destacava justamente pela construção dos momentos de impacto. Inclusive, se deixarmos de lado a insistência em refilmar o Episódio IV, podemos perceber que o próprio Despertar da Força está cheio desses bons momentos. Momentos que fazem o público vibrar e chorar sem nenhum constrangimento.

Aceito que algumas desses sequências sem vida podem ser justificadas, por exemplo, pela ausência de Carrie Fisher durante as filmagens de verdade, mas é impossível perdoar a falta de tato de alguém que afasta a câmera quando o Chewbacca enfrenta seu momento de maior desespero. Não é fácil admitir isso, mas esse seria um daqueles momentos em que o convencional seria perfeito, porque renderia um close que talvez arrancasse pelo menos uma lágrima dos olhos do público. No entanto, a direção segue o caminho oposto, como se escolhesse não oferecer recompensas emocionais pra quem investiu tanto tempo na saga. E essa falta de vontade está entre as coisas mais incomodam durante a sessão de um filme que parece ter nascido morto.

Não vou mentir e ignorar o fato de que A Ascensão Skywalker carrega sim algumas boas referências, um elenco funcional, uma fotografia pronta para entrega wallpapers belíssimos e a possibilidade de emocionar alguns fãs. Mas também não posso ignorar que Star Wars fechou seu ciclo com um final amargo e vazio. Vazio daquela originalidade que juntou multidões em filas numa época sem internet. Vazio da ousadia que revolucionou a maneira como se faz cinema. Vazio daquela emoção que manteve os fãs conectados com a saga durante décadas. Vazio até mesmo da coragem que podia ser notada nos prequels. E vazio, principalmente, daquela que é a verdadeira essência de Star Wars.

J.J. Abrams demonstrou aqui que realmente ama a franquia original e sabe reverencia-la como poucos, porém também deixou claro que nunca entendeu a verdadeira força que move a franquia. Só isso pode justificar a maneira como ele ignorou todas as lições sobre legitimidade, equilíbrio, garra e aceitação presentes nos produtos desse universo. Ele não teve forças para se desprender do que já estava ultrapassado e ignorou, acima de tudo, que a verdadeira essência de Star Wars está na possibilidade de qualquer garoto com um vassoura ser um jedi. Ou melhor, na possibilidade de qualquer um de nós ser um Jedi.