A 200 Metros | Separados por um muro cheio de simbolismos

A 200 Metros
Foto: Divulgação

Candidato da Jordânia ao Oscar 2022, A 200 Metros tenta se dividir entre o drama familiar e o suspense para falar sobre barreiras políticas que vão além dos muros físicos.


Muita gente pensa que os conflitos entre Israel e Palestina estão relacionados apenas à criação do estado israelense. É claro que a divisão da Palestina em territórios comandados por árabes e judeus tenha um papel decisivo, mas a guerra que preenche a região possui raízes na Antiguidade.

Uma história marcada por conquistas, dominações políticas e êxodos que ganhou contornos violentos quando milhões de judeus do mundo inteiro adotaram Israel como pátria e iniciaram um grande movimento de imigração. O aumento repentino da população judaica em um território dominado por árabes aumentou a tensão entre fundamentalistas religiosos e partidos nacionalistas de direita.

Os povos árabes realizam a primeira ofensiva contra Israel em 1948, porém esse último venceu a guerra com a ajuda de forças americanas e ampliou seu território, anexando trechos controlados pela Palestina. O problema é que a própria Palestina também luta pela criação de uma estado independente, esbarrando sempre na disputa por Jerusalém (um ponto turístico religioso sagrado para três grandes religiões).

No meio dessa disputa onde os limites entre certo e errado são nublados por atitudes violentas e extremistas, o ex-primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, iniciou a construção de um muro com 720 quilômetros de extensão para separar o Estado de Israel da Cisjordânia (um território controlado pela Palestina). Com isso, a cidade de Jerusalém acabou sendo dividida em uma parte oriental (controlada por árabes) e outra ocidental (controlada por judeus).

A 200 Metros
Foto: Divulgação

O objetivo do muro seria impedir a entrada de terroristas e desenvolver de uma vez por todas a infraestrutura das colônias israelenses. Entretanto, uma parte dessas colônias estaria em áreas que não fazem parte do território israelense. Segundo os palestinos, o muro – que também separa famílias a partir de suas nacionalidades – não passa de uma tentativa de consolidar ocupações ilegais.

Qual é a história de A 200 Metros?

O longa acompanha Mustafa, um pai que mora a 200 metros de distância de sua família por causa do muro que divide Cisjordânia e Israel. Quando recebe uma ligação de que seu filho sofreu um acidente e está internado, ele tenta atravessar a fronteira, mas é impedido. Inconformado com a situação e com a recusa dos oficiais israelenses, ele parte em uma odisseia de 200 quilômetros com um único objetivo: reencontrar sua família.

A produção foi inspirada em momentos da vida do cineasta Ameen Nayfeh. Assim como no longa, ele passou por uma separação, já que sua mãe pertencia a uma aldeia palestina. Nas palavras do próprio:

‘A 200 Metros’ é a minha história e a de milhares de palestinos. Posso dizer que talvez 99% dos palestinos tenham de passar por uma jornada semelhante à do filme para superar os obstáculos diários. A ideia do filme e a distância de 200 metros surgiram como um acúmulo de experiências pessoais e coletivas”

O que achamos de A 200 Metros?

Esse fator pessoal fica muito claro tanto na estética quanto na própria trama do filme. De um lado, Ameen Nayfeh (em seu primeiro longa de ficção) acompanha a jornada de Mustafa com uma câmera de mão que se aproxima e se apropria do ponto de vista do mesmo com uma propriedade quase documental. Inclusive, existe uma personagem cuja função narrativa passa por esse papel metalinguístico, apesar do público ver apenas aquilo que o protagonista enxerga.

Do outro lado, o diretor apresenta uma história que pode ter acontecido com ele e com outros milhares de país que vivem (ou viveram) na divisa entre Israel e Palestina. Fica muito claro que várias situações que compõem a vida de Mustafa – da burocracia que acompanha o visto até o preconceito com seu filho – foram vivenciadas ou, no mínimo escutadas por Nayfeh.

A 200 Metros
Foto: Divulgação

No entanto, preciso dizer que algumas dessas camadas me pareceram ser pessoais demais. Não no sentido de revelar algo peculiar ou proibido sobre a vida dos israelenses e palestinos, mas sim por serem elementos que ficam sobrando dentro da narrativa por conta de uma espécie de apego do autor.

Tende a ser muito mais difícil cortar ou polir uma história que possui tamanha importância na nossa vida, afinal o que gostaríamos de mostrar entra em confronto direto com que contribui de fato com o desenvolvimento dos personagens e da trama. Ainda que seja algo pontual, as escolhas de Ameen Nayfeh influenciam na experiência de assistir A 200 Metros.

Digo isso porque, no papel, o longa tem muito potencial dramático. Eu já comentei sobre inúmeros filmes que partiam dessa mesma proposta de pais que fazem tudo por seus filhos, e a maioria deles faz parte da lista de produções que me derrubaram emocionalmente. E isso é muito mais uma constatação que acompanhou minha sessão do que uma comparação propriamente dita, visto que todos esses filmes seguem caminhos diferentes.

O fato é que, para mim, essa força que faz parte da gênese de A 200 Metros nem sempre transparece na tela. Você sabe que existe alguma coisa muito poderosa nas entrelinhas do texto ou nas reações de Mustafa, mas também existe uma série de obstáculos que impedem o longa de alcançar seu devido potencial.

Ele se sustenta como suspense graças à câmera tremida, aos confrontos que beiram a claustrofobia, à ausência de outros pontos de vista e a uma dilatação temporal que parece afastar Mustafa ainda mais do seu objetivo. O espectador sente uma parcela do desespero de Mustafa, enquanto o diretor distorce e relativiza o espaço e o tempo de acordo com classes sociais, nacionalidades e opiniões políticas.

Ao mesmo tempo, o desenrolar natural da trama e as discussões na van, permitem que A 200 Metros também se sustente como um estudo sociopolítico dos impactos da guerra civil nos habitantes da região. Certos diálogos incomodam por conta do didatismo, porém a abordagem simplória se perde no contraste violento de ideias opostas.

A 200 Metros
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Todavia, por mais que os closes exagerados capturem bons momentos de Ali Suliman (Jack Ryan), o lado dramático não parece ter os mesmo alicerces. O final, por exemplo, é indiscutivelmente bonito, mas não consegue transmitir as emoções com a intensidade que o diretor sugere através da trilha sonora com veia melodramática e outros elementos que compõem a sequência.

E, em vários desses momentos, eu fiquei com a impressão de que ele entendia o peso emocional daquilo por conta da sua vivência, mas não conseguia transmitir tudo para o público. Talvez seja diferente para os espectadores locais que, assim como o protagonista comenta, vivem aquela situação todos os dias, uma vez que (querendo ou não) eu estou mais próximo do Kifah ou da documentarista alemã.

Entretanto, admitir que minha experiência pode ser influenciada por essa falta de referências não me impede de manter a opinião de que, no meio das barreiras físicas impostas por governantes devotados à guerra, surge uma barreira emocional que ninguém – nem mesmo Nayfeh – consegue ultrapassar. Não deixa de ser um longa interessante, mas fica preso nas limitações de um diretor que ainda não consegue controlar o fator pessoal através da linguagem cinematográfica.


OBS: Pensando que A 200 Metros já foi selecionado como representante da Jordânia no Oscar, essa falta de referência (caso faça sentido) tende a afastar muito votantes do longa.


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