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Filmes

Critica: Steve Jobs

29 de janeiro de 2016 - 12:41 - Flávio Pizzol

Uma cinebiografia com o toque de Steve Jobs

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A arte de produzir cinebiografias e suas fórmulas sempre parecidas já fazem parte do cinema desde o seus primórdios e não devem deixar de fazer tão cedo. No entanto, alguns biografados não se contentam com um simples sobre a sua vida e, com certeza, Steve Jobs seria um desses se ainda estivesse vivo.

É justamente por ter noção dessa genialidade do seu personagem-título que o roteirista Aaron Sorkin (responsável por The Newsroom e A Rede Social) decidiu fugir completamente dos formatos comuns e resumir a vida de Steve Jobs em três momentos chaves da sua carreira, levando todos os seus conflitos pessoais para os bastidores dos lançamentos do Macintosh, da Next e do glorioso iMac.

Separar o roteiro em três atos é uma ideia muito interessante, que permite que o filme tenha um desenvolvimento diferenciado e consiga se focar em aspectos específicos de uma vida cheia de altos, baixos e reviravoltas grandiosas. Entretanto, ao mesmo tempo, isso também faz com que o longa seja obrigado a deixar de lado muitas coisas que podem ser consideradas importantes, como sua participação na construção da Pixar, seus projetos inovadores após o iMac e até a sua morte em 2011.

Essa separação em três partes que são completamente distintas entre si também prejudica o desenvolvimento emocional do personagem perante os olhos do público, já que passamos muito tempo sem acompanhar os fatores que foram moldando a personalidade extremamente complexa de Steve. Isso faz com que o terceiro ato (que é o mais afastado dos outros) soe um pouco mais forçado e artificial do que os primeiros, principalmente na tentativa de escancarar o lado mais bonzinho do protagonista.

Mesmo assim, esses problemas não atrapalham tanto o filme, porque Sorkin faz com que o andamento tenha um ritmo tão ágil que o público não consegue parar para pensar nem por um segundo. São duas horas marcadas apenas pela constante claustrofobia dos corredores e por muitos diálogos magistralmente escritos, apresentando confrontos poderosos entre alguns personagens e garantindo que o público consiga entender bastante coisa da mente caótica de Jobs.

Isso faz com que o roteiro se torne a grande estrela do filme, mas outros aspectos não ficam para trás. A direção de Danny Boyle sabe como captar a essência e a tensão presente naqueles poucos minutos anteriores à apresentação com planos muito longos e enquadramentos – na maioria das vezes – próximos dos atores, a edição de Elliot Graham acompanha o ritmo dos diálogos com uma habilidade sobrenatural e a fotografia de Alwin H. Küchler separa os três atos de Sorkin através de lentes, cores e luzes completamente diferentes.

O diretor, que possui uma longa formação nos palcos londrinos, também aproveita esse conjunto de fatores para criar uma sensação de teatralidade que perfeitamente acompanhada pelo elenco, principalmente Michael Fassbender e Kate Winslet em indicações super merecidas ao Oscar. Ele está completamente magnético e faz o público deixar de lado sua aparência desde o primeiro diálogo, enquanto ela brilha como o coração de Steve e a conexão emocional entre um protagonista aparentemente psicopata e o público.

Entretanto, seria extremamente injusto não colocar o ótimo elenco de coadjuvantes no mesmo patamar desses dois, afinal eles dão muito material para que os diálogos ganharem força e também funcionam como uma espécie de tradutor da mente de Steve. Quando o público não consegue ter a mínima ideia do que está passando pela cabeça do protagonista, Seth Rogen, Jeff Daniels, Michael Stuhlbarg e Katherine Waterston aparecem para confrontá-lo e mostrar como cada pessoa tinha uma visão totalmente diferente dele.

E essas visões podem não ser totalmente completas ou não mostrarem cada mínimo detalhe da vida de Steve, mas elas funcionam com perfeição dentro de um roteiro brilhante que, sem dúvida nenhuma, merecia uma indicação ao Oscar. Contando com uma direção inteligente e um elenco mais do que fabuloso, Aaron Sorkin conseguiu criar um filme que, mesmo com falhas, prende o espectador e entrega a melhor tradução de Steve Jobs realizada até o momento.

OBS 1: Aqueles que leram a biografia oficial de Jobs podem se incomodar muito mais com o formato escolhido, mas ele vai continuar sendo perfeitamente executado.