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Um festival para chamar de nosso


A última edição do Festival de Cinema de Vitória – o antigo Vitória Cine Vídeo para os anciões – acabou no sábado (19) e eu posso dizer que mergulhei de cabeça nessa brincadeira pela primeira vez. Sempre acabava assistindo um ou outro curta, mas preciso admitir que nunca encarei as noites completas por puro preconceito com o estilo mais underground dos filmes selecionados. Essa vai continuar sendo a proposta do evento por muito tempo, no entanto hoje eu posso dizer que isso não é motivo para ignorar o festival.

Claro que as sessões noturnas podem ser um problema para quem, assim como eu, volta para casa de ônibus, principalmente quando ocorre algum atraso típico. Mesmo assim, é possível acompanhar as mostras especiais que acontecem no período da tarde ou, pelo menos, alguns dos curtas que são exibidos até às 10 horas da noite. Em outras palavras, eu quero dizer que as opções são muitas entre homenagens (Markus Konká e Dira Paes foram os principais), animações, competições ou abordagens especiais voltadas para mulheres, negros e linguagens. É, no mínimo, interessante acompanhar e pensar sobre produtos que tratam de elementos complexos de formas completamente distintas do cinema padrão e comercial.

Dito isso, vou comentar um pouquinho do que eu assisti, começando pelos dois longas-metragem brasileiros. Um deles se chama Guerra do Paraguay, foi dirigido pelo internacionalmente reconhecido Luiz Rosemberg Filho e deve chegar ao cinemas comercialmente no início de 2017. É o fruto de um roteiro extremamente teatralizado que usa a guerra como alegoria para falar sobre família, amor, política, alienação, religião e, principalmente, a dicotomia entre guerra e arte. Tem alguns problemas no maniqueísmo ou falta de profundidade entregue a um dos lados da disputa, mas é uma obra interessante e reveladora.

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O outro é uma prata da casa chamada Os Incontestáveis, que acompanha dois irmãos na busca pelo antigo carro do pai. Ambientado no norte do estado, o longa mistura técnicas de road movie com uma pegada de comédia de erros e uma pitada de aula de história, embolando-se apenas na transição entre essas partes na metade do filme. São algumas coincidências que incomodam e prejudicam a resolução da história, mas arrancou muitas risadas do público e merece sua atenção por ser produzido e estrelado por capixabas. Com exceção da participação desperdiçada de sempre incrível Tonico Pereira, é claro.

Já os curtas foram apreciados em maior quantidade, mas posso dizer que boa parte dos meus favoritos também vieram daqui do estado. Isso é muito importante para quem produz conteúdo cinematográfico por nossas bandas, principalmente quando o seu próprio festival pode garimpar e apresentar essas pérolas para um público maior. Sem gastar muita saliva sobre cada um dos curtas (o que tornaria esse texto imenso), deixo o meu destaque pessoal para a animação O Projeto do Meu Pai (ES), Balada para os Mortos (RS), A Febre (ES), Melancia (PE), Das Águas que Passam (documentário capixaba exibido no Festival de Berlim desse ano) e O Delírio é a Redenção dos Aflitos (PE).

Esse último, inclusive, foi selecionado como o melhor filme do festival pela Oficina de Crítica da qual eu fiz parte. Sob a mediação do professor pernambucano André Dib, vivemos muitas discussões sobre cinema, filosofia e a função do crítico que resultaram em um júri e, logicamente, em muitos textos que foram publicados nesse blog que já recebeu pessoas de festivais dos quatro cantos do país. Eu escrevi com mais profundidade sobre A Febre e O Projeto do Meu Pai, mas recomendo a leitura de outros textos que também ficaram muito interessantes. Até porque eu, infelizmente, acabei não conseguindo assistir os badalados Kbela, Som Guia, Estado Itinerante e Regeneração (dirigido pelo ator global Humberto Carrão e vencedor do grande prêmio da noite).

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Dentro desse mesmo assunto, eu aproveito para deixar outra dica para os amantes de cinema. Fiquem ligados porque todo ano acontecem oficinas voltadas para roteiro, produção, direção e cinema em si, contando com profissionais de calibre do país. Só custa a doação de Alguns litros de leite e abre a sua mente para a linguagem cinematográfica como um todo. Podem acreditar que a nossa rendeu muito assunto e aprendizado.

No mais, o meu recado – um tanto quanto atrasado, eu sei – chega para avisar que devemos dar mais moral para um festival que podemos chamar de nosso. É uma forma muito rica de acompanhar o panorama cinematográfico do país e do estado fora das salas comerciais, que raramente exibem esses mesmos filmes. Meus próximos passos estão voltados aos sonhos de cobrir os festivais do Rio e de Gramado, mas prometo que não vou abandonar o nosso cantinho capixaba.


Premiados do 23º Festival de CInema de Vitória

20ª MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL DE CURTAS

– Troféu Vitória – Melhor Filme (Prêmio Júri Oficial): Regeneração, de Humberto Carrão

– Troféu Vitória – Melhor Filme (Prêmio Júri Popular): Kbela, de Yasmin Thayná

– Troféu Vitória – Prêmio Especial do Júri: O Ex-Mágico, de Olímpio Costa e Maurício Nunes

– Troféu Vitória – Melhor Direção: Constelações, de Maurílio Martins

– Troféu Vitória – Melhor Roteiro: Fellipe Fernandes pelo filme  O Delírio é a Redenção dos Aflitos,de Fellipe Fernandes

– Troféu Vitória – Melhor Contribuição Artística: Retrato de Carmem D., de Isabel Joffily

– Troféu Vitória – Melhor Interpretação: Renata Guida pelo filme Regeneração, de Humberto Carrão

– MENÇÃO HONROSA: “O Júri da 20ª Mostra Competitiva Nacional de Curtas do 23º Festival de Cinema de Vitória concede Menção Honrosa ao filme Aspirina para Dor de Cabeça, de Philipe Bastos, pela fotografia que resultou numa obra de irreverência e bom humor”.

Premiações Extras

– Prêmio Canal Brasil de Curtas-Metragens para Som Guia, de Fellipe Rocha

– Prêmio CiaRio-Brasil, Prêmio DOT, Prêmio Mistika e Prêmio Cinecolor para Regeneração, de Humberto Carrão (seguindo o Melhor Filme pelo Júri Técnico)

– Prêmio CiaRio-Brasil para Kbela, de Yasmin Thayná (seguindo o Melhor Filme pelo Júri Popular)

– Prêmio da Oficina de Crítica Cinematográfica do 23º Festival de Cinema de Vitória: O Delírio é a Redenção dos Aflitos, de Fellipe Fernandes

6ª MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL DE LONGAS

– Troféu Vitória – Melhor Filme (Prêmio do Júri Oficial): Antes o Tempo Não Acabava, de Sergio Andrade e Fábio Baldo

– Troféu Vitória – Melhor Filme (Prêmio do Júri Popular): Todas as Cores da Noite, de Pedro Severien

– Troféu Vitória – Prêmio Especial do Júri: A Noite Escura da Alma, de Henrique Dantas

– Troféu Vitória – Melhor Direção: Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho

– Troféu Vitória – Melhor Roteiro: Sergio Andrade pelo filme Antes o Tempo Não Acabava, de Sergio Andrade e Fábio Baldo

– Troféu Vitória – Melhor Contribuição Artística: Perdido em Júpiter, de Deo

– Troféu Vitória – Melhor Interpretação: Anderson Tikuna pelo filme Antes o Tempo Não Acabava, de Sergio Andrade e Fábio Baldo

5ª MOSTRA FOCO CAPIXABA

– Troféu Vitória – Melhor Filme (Prêmio do Júri Oficial): O Projeto do Meu Pai, de Rosaria

5ª MOSTRA CORSÁRIA

– Troféu Corsário para os dois Melhores Filmes sem ordem de classificação (Prêmio do Júri Oficial):Ainda Me Sobra Eu, de Taciano Valério, e Wendigo, de Luciano Evangelista

– MENÇÃO HONROSA: “O Júri da 5ª Mostra Corsária do 23º Festival de Cinema de Vitória concede Menção Honrosa ao filme Preparação para o Exercício Aéreo, O Deserto – I, de Rubiane Maia e Luísa Nóbrega, pela fotografia que faz diálogo com a experimentação artística”.

6ª MOSTRA QUATRO ESTAÇÕES

– Troféu Marlene – Melhor Filme (Prêmio do Júri Oficial): Cuscuz Peitinho, de Rodrigo Sena e Julio Castro

3ª MOSTRA DE ANIMAÇÃO

– Troféu Vitória – Melhor Filme de Animação (Prêmio do Júri Popular): O Projeto do Meu Pai, de Rosaria

17º FESTIVALZINHO DE CINEMA

– Troféu Vitória – Melhor Filme (Prêmio do Júri Popular): Hora do Lanchêêê, de Claudia Mattos

3ª MOSTRA OUTROS OLHARES

– Troféu Vitória – Melhor Filme (Prêmio do Júri Popular): Na missão, com Kadu, de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia

MOSTRA MULHERES NO CINEMA

– Troféu Vitória – Melhor Filme (Prêmio do Júri Popular): Dentro de Casa, de Yasmin Nolasco

MOSTRA CINEMA E NEGRITUDE

– Troféu Vitória – Melhor Filme (Prêmio do Júri Popular): Cinzas, de Larissa Fulano de Tal

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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