sobre a escrita
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Quer escrever? Separamos 20 dicas sobre a escrita reunidas por Stephen King, um dos autores mais vendidos do mundo.


Teoricamente, esse post já nasce com algum atraso, já que Sobre a Escrita – o livro onde Stephen King reuniu algumas dicas que compõe esse texto – foi lançado há alguns anos. No entanto, mesmo não sendo um lançamento fresquinho, estamos falando de conselhos que não possuem uma data de validade tão curta assim.

A verdade é que muitas das coisas apresentadas por King nessa obra ajudaram no processo de produção do meu conto e também devem ajudar você, leitor que goste de escrever. Nem todas são fáceis de seguir e aplicar, mas podem servir como um norte. É só trazer a dica pra sua realidade e usá-la dentro das suas pretensões.

Dito isso, podemos ir sem demora para as 20 melhores dicas que extraí do livro Sobre a Escrita. Preparados?


1) Leia e escreva muito

Sobre a escrita

Escritores precisam ler e escrever muito.

Essa é a maior regra exposta em Sobre a Escrita. É a única para qual não existe atalho. Não tem como fugir.

É lendo – e, posteriormente, escrevendo – que você aprimora seu vocabulário, explora ritmos e descobre as regras desse jogo chamado escrever. É o caminho que permite que qualquer escritor, seja iniciante ou veterano, organize sua caixa de ferramentas e prepare o espaço pro momento em que a ideia entrar na sala.

É a mesma coisa que precisa ser feita por quem quer trabalhar com cinema. Não tem como ser um diretor ou até mesmo um crítico sem gostar de ver filmes, porque eles serão sua vida. Serão os responsáveis por te ensinar tudo.

Isso não significa que você deva encarar a leitura (ou os filmes) como uma aula. Você deve ler porque gosta, mas pode ter certeza que todas as obras vão te ensinar algo. Ou seja: leia tanto livros bons, quanto ruins.

A boa leitura ensina “sobre estilo, narração elegante, desenvolvimento de enredos e criação de personagens críveis” (2015, p. 127), mas o livro ruim te mostra o que não fazer e isso pode valer mais do que um semestre de estudos teórico.

2) Você só melhora, se trabalhar

Sobre a escrita

Entre as principais ideias defendidas por Stephen King em Sobre a Escrita está a de que é possível “transformar um escritor meramente competente em um bom escritor” (2015, 124). Mas esse transformação não cai do céu. Ela exige trabalho.

É por isso que você precisa ler e escrever muito. Esse é o seu esforço.

Não adiante ficar esperando por “uma musa”, porque ela não cai do céu. Talvez esteja no porão, mas pra encontrá-la você precisa descer as escadas, tirar a poeira e fazer muito trabalho braçal. Precisa queimar a cachola até altas horas da noite para que as ideias mudem sua vida.

3) Tenha o seu próprio cantinho

Sobre a escrita

Você pode ler em qualquer lugar, mas precisa de um lugar só seu para escrever. Não precisa ser algo luxuoso, mas precisa de um porta que possa ser fechada. Essa é a atitude que mostra pro mundo e pra você mesmo que está levando a escrita a sério.

Segundo King, é importante que o mundo real fique do lado de fora, porque você está criando seus próprios mundo quando escreve.

4) Estabeleça metas (e cumpra)

Sobre a escrita

Você pode começar com metas mais baixas para não desanimar, mas é importante que uma quantidade de palavras diária seja estabelecida e cumprida. O ideal é que a tal porta fechada só seja aberta depois que essa meta for alcançada. Assim, nas palavras de alguém que lança pelo menos um livro por ano, você vai se acostumar com o trabalho regular e constante.

Existem dias em que as palavras alcançarão o papel com facilidade, mas é muito possível que isso não aconteça sempre. O importante é que você faça de tudo para completar a meta antes de fechar o dia.

5) A história sempre deve estar em 1° lugar

Sobre a escrita

Isso significa que nada é mais importante do que a história que você quer contar. Ou seja: diálogos, descrições e construções de background só devem existir se forem importantes para o todo.

É verdade que escrever é um ato de liberdade e algumas coisa só devem se tornar preocupação na hora da revisão, mas lembre-se de deixar a história guiar sua escrita. Logo, você pode – e deve – colocar no papel tudo que vier na telha, deixando os possíveis cortes para a segunda fase do processo, desde que não esqueça de quem realmente importa.

6) Escreva sobre o que você conhece

Sobre a escrita

Para Stephen King, essa é uma interpretação mais abrangente e muito válida do clichê “escreva sobre o que você sabe”. Afinal de contas, se você levar essa dica ao pé da letra, não poderá escrever sobre naves espaciais ou monstros sobrenaturais.

Entendo que o uso do verbo conhecer pode ser estranho, já que você não conhece nenhuma dessas coisas na vida real. Mas a questão é que seu coração e sua imaginação também conhecem coisas muito importantes. Não deixe esses dois de lado, porque sem eles “o mundo da ficção seria um terra de ninguém” (2015, p. 137).

Portanto, quando o Mestre do Terror diz isso em Sobre a Escrita, ele está falando principalmente que você deve se apoiar naquilo que gosta. Comece num gênero que goste de ler. Um gênero que você conheça as regras básicas de narrativa. Estar nesse tereno amigável vai te ajudar a se soltar e incluir elementos do seu mundo real sem restringir sua criatividade.

7) Diga a verdade

Sobre a escrita

De acordo com King, a chave para escrever bem é a honestidade. Isso significa que você precisa dizer a verdade, mas o truque é que ele não está falando necessariamente da sua verdade. Assim como no tópico anterior, abandone as interpretações reais e se concentre na imaginação.

A parada é que um escritor precisa ser “honesto com as palavras que saem da boca de seus personagens” (2015, p. 159). Talvez você seja criticado por usar muitos palavrões ou se apropriar da linguagem coloquial, mas não pode fugir disso se o seu personagem fala dessa maneira. Essa é a verdade dele e vai fazer com que ele seja crível, que seus diálogos pareçam reais e que sua essência conquiste o leitor.

No entanto, para fazer isso, você precisa ver e escutar as pessoas do mundo real. Você precisa sair do seu quarto para entendê-las e criar uma versão literária que transmita verdade. Claro que existem escritores reclusos que quebram essa “regra”, mas Sobre a Escrita defende que os melhores são aqueles que gostam de observar e conversar com outras pessoas.

8) Deixe a história fluir

Levando em conta que a história é o seu guia supremo, você precisa deixar ela fluir sem amarras. E para Stephen King, isso significa abrir mão de preocupações sobre duas coisas: enredo/final; tamanho do parágrafos.

No primeiro caso, a aplicação depende muito de cada pessoa. Alguns escrevem a partir de uma única situação (é o caso de King), outros estabelecem alguns pontos que definem a história e deixam a liberdade cantar apenas quando estão preenchendo os espaços entre esses pontos.

No entanto, o fato é que você não deve ficar tão preso ao que está estabelecido. Se alguma nova ideia mudar o que estava planejado, continue escrevendo sem preocupação. Talvez esse novo acontecimento seja gerado por alguma atitude verdadeira dos seus personagens e podar isso seria muito ruim para o seu trabalho.

Já sobre os parágrafos, Sobre a Escrita sugere que a estruturação precisa seguir mais a batida do que a melodia. Ficção não precisa ser tão estruturada quanto um TCC ou uma crítica de cinema. Ou seja,

É melhor não pensar demais sobre o início e o fim dos parágrafos; o truque é deixar a natureza seguir seu curso. Se depois você não gostar, é só corrigir.

– Sobre a Escrita, 2015, p. 116

9) Sempre carregue toda a caixa de ferramentas

Sobre a escrita

Para Stephen King, sua caixa de ferramentas metafórica precisa conter tudo que você usa para escrever. Ela pode ficar muito pesada, mas o ideal não é abandonar algo que parece desnecessário, e sim treinar para conseguir carregar tudo. Nas palavras dele:

Assim, em vez de topar com um trabalho e desanimar, talvez você saiba pegar a ferramenta certa e partir para o trabalho.

– Sobre a Escrita, 2015, p. 101

Em resumo, para que possa abandonar as preocupações com parágrafos e enredos, um escritor precisa estar preparado para enfrentar qualquer obstáculo. Sem isso, você pode acabar desistindo antes de completar sua meta.

10) Conheça suas principais ferramentas

Sobre a escrita

Para ser um escritor competente, você precisa conhecer muito bem o vocabulário e gramática da sua língua. Afinal, eles são a base de qualquer texto.

Quando o assunto é vocabulário, Sobre a Escrita diz que “uma das piores coisas que se pode fazer é tentar enfeitar o vocabulário, procurando por palavras longas porque tem vergonha de usar as curtas de sempre” (2015, p. 104). Forçar essa barra pode prejudicar a verdade dos seus personagens, então sempre pense em quantas vezes você usou tal palavra antes de escolhê-la.

Já sobre a gramática, você só precisa lembrar que “uma construção gramatical ruim produz frases ruins” (2015, p. 107). Isso leva a textos confusos e impede que qualquer outra dica desse texto seja aplicada.

11) Evite a voz passiva e os advérbios

Sobre a escrita

Depois de falar sobre gramática, Stephen usa Sobre a Escrita como um palco para falar de coisas que o incomodam numa obra de ficção. Ele deixa claro que cada um vai ter suas próprias antipatias, mas as dele merecem um lugar nessa lista. São elas: a voz passiva e os advérbios terminados em – mente.

Não vou ficar falando muito sobre gramática aqui, mas preciso justificar a partir do que King diz. Para ele, a voz passiva é segura e os advérbios não passam de uma muleta usada por quem tem medo de se expressar com clareza. Escritores tímidos usam ambos para ter “certeza” que vão passar sua mensagem.

Mas, como você deve escrever com liberdade, o autor deixa claro que isso não deve influenciar a primeira versão. No entanto, você tem a obrigação de tentar cortar o máximo possível durante a revisão, buscando deixar sua obra mais direta e segura.

12) A língua não usa gravata

Sobre a escrita

Tudo isso é importante, mas saiba que quebrar as regras talvez não seja tão ruim. Nas palavras de King:

A língua nem sempre usa gravata e sapato social. O objetivo da ficção não é a correção gramatical, mas fazer o leitor se sentir à vontade.

– Sobre a Escrita, 2015, p. 118

Nesse caso, um suposto erro de português pode ser usado, se fizer sentido para a história. O livro Extraordinário, por exemplo, possui vários “erros” justificados pelo fato de estar imitando o jeito como uma criança falaria.

Só é importante ter certeza que esses erros não estão quebrando a imersão do leitor. Se isso fizer parte de um todo, o leitor vai esquecer que está lendo uma história e isso é muito bom.

13) Matem seus queridinhos

Lembra quando eu falei lá em cima sobre a história estar em primeiro lugar? Pois bem, agora chegou o momento em que você leva isso em conta e começa a matar seus queridinhos. Em outras palavras: chegou a hora de revisar e cortar tudo que atrapalha a leitura (Dica 11) ou não ajuda no desenvolvimento da história.

E, na maioria das vezes, isso significa que você pode ser obrigado a tirar coisas que goste muito. Diálogos, descrições e até cenas inteiras. Então, não se apegue tanto assim.

Quando se fala em descrição, por exemplo, é importante encontrar o meio-termo: o exagero deixa chato, a abstenção prejudica a imersão do leitor. Mas isso só pode ser aprendido através de tentativas que exigem cortes em prol da fluidez narrativa.

14) Porta fechada, porta aberta.

Sobre a escrita

Como já dissemos lá em cima, o ideal é escrever de porta fechada. Entretanto, nós já estamos na revisão do texto e, segundo King em Sobre a Escrita, essa deve ser feita com as portas abertas. Afinal de contas, depois da revisão, o texto deixará de ser seu para pertencer a qualquer pessoa que quiser ler.

A revisão é o momento de lapidar sua joia, logo você precisa olhar pra fora e pensar nos seus leitores. Só assim você vai conseguir descobrir a melhor maneira de contá-la.

15) Número de páginas não significa nada

Sobre a escrita

Eu podia ter colocado essa orientação junto com a dica n° 8, mas achei que uma separação deixaria as coisas ainda mais claras: o número de páginas não representam excelência.

Muitos épicos enormes são ruins, assim como livros curtos feitos para serem doces podem passar do limite. Mas às vezes mil páginas não são suficientes para fazer o leitor cansar de um universo. Tudo depende da qualidade da obra, então se concentre em escrever algo bom antes de querer escrever algo longo.

Escreva o quanto for necessário para contar sua história. Sem mais, nem menos.

16) A criatividade não está ligada a substâncias externas

Sobre a escrita

Com isso finalizamos as dicas mais específicas e podemos começar discutir alguns pontos mais amplos que King também trabalha em Sobre a Escrita. O primeiro deles se refere a suposta relação entre a criatividade e substância como drogas ou bebidas.

King não é conservador ao ponto de condenar o uso, mas deixa claro essa ligação “é um dos grandes mitos pop-intelectuais do nosso tempo” (2015, p. 89). Escritores viciados dizem que precisam beber ou se drogar pra acalmar seus demônios, mas isso é só desculpa. Da mesma forma, não conseguir escrever sem a ajuda dessas substâncias entra no mesmo grupo.

Citando King (que é assumidamente ex-alcoólatra) novamente:

É bem provável que gente criativa de fato esteja mais propensa ao alcoolismo […], mas e daí? Somos todos iguais quando estamos vomitando na sarjeta.

– Sobre a Escrita, 2015, p. 89

17) Junte ideias sem medo

Sobre a escrita

Stephen King fala sobre as ideias usando diversas metáforas diferentes durante as 256 páginas de Sobre a Escrita. Compara as mesmas com fósseis que precisam desenterrados com cuidado e até mesmo com uma espécie particular de intervenção divina. No entanto, a minha favorita é bem mais simples e palpável.

Ele fala que, na maioria das vezes, uma ideia é a junção de outras duas ideias que não possuíam relação. Você só precisa estrar preparado pra perceber quando uma união desse tipo gera algo valioso.

18) Escrever é telepatia

O ato de escrever funciona como uma espécie de ligação telepática entre o autor e seu leitor. Um fala algo, enquanto outro recebe num encontro de mentes que não depende das bocas se abrirem. É uma conexão real com outra pessoa.

Logo, a única coisa que você não pode fazer é encarar “a página de branco de maneira leviana” (KING, 20115, p. 96). Um escritor pode estar nervoso, desesperado ou animado, mas precisa levar a sério o que está fazendo.

19) Valorize quem te apoia

Sobre a escrita

Através de passagens mais pessoais de Sobre a Escrita, King fala sobre sua vida particular para mostrar com algumas passagens influenciaram sua profissão. Em um desses momentos, mesmo sem querer, ele dá uma dica que eu considerei muito valiosa.

Ele fala de como a esposa sempre o apoiou, mesmo nos momentos difíceis que eles viveram. Para Stephen, se ela tivesse tratado aquilo como perda de tempo em qualquer momento, seu entusiasmo teria ido por água abaixo. Ele poderia ter parado antes mesmo de lançar Carrie, que foi seu primeiro sucesso.

Mas ela acreditou e isso foi decisivo. Tanto que o capítulo termina com as seguintes palavras:

Escrever é um trabalho solitário. Ter alguém que acredita em você faz muita diferença. Eles não precisam fazer discursos motivacionais. Basta acreditar.

– Sobre a Escrita, 2015, p. 68

20) Escrita é pra fazer feliz!

Sobre a escrita

Stephen King fala em diversos momentos que não é a vida que serve como sustento para arte, e sim a arte que sustenta a vida. Então não é nada estranho que ele finalize seu livro com uma dica que exemplifica o significado que a escrita precisa ter para quem quer trabalhar com isso.

Em suas própria palavras:

A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz.

– Sobre a Escrita, 2015, p. 229

Você até fazer sucesso escrevendo só pelo dinheiro, mas vai perder uma das partes mais legais da arte. Vai perder a chance de experimentar o que Stephen King chama acertadamente de água da vida. Uma água gratuita e que não limites. Você só precisa mergulhar nela…


OBS 1: Essas são apenas algumas dicas oferecidas pelo livro Sobre a Escrita. É um resumo baseado nos pontos que tiveram relevância pra mim, logo o texto não substitui a leitura do material por completo.

OBS 2: As imagens que ilustraram esse texto foram retiradas de filmes inspirados em Stephen King. Reconhece todas?


BIBLIOGRAFIA

KING, Stephen. Sobre a Escrita. 1ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. 256 p.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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