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Filmes

Viagem no Tempo: Cães de Aluguel (1992)

25 de junho de 2014 - 17:00 - Flávio Pizzol

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Quando vou fazer criticas sobre diretores mais famosos, principalmente, aqueles que já tem estilos próprios e amplamente conhecidos pelo público, é muito difícil escrever coisas diferentes. Com Quentin Tarantino não é diferente. Mesmo que esse seja seu primeiro filme como diretor, alguns elementos, como os diálogos verborrágicos e completamente alheios à história do filme, já marcam presença de maneira clássica.

O filme conta a história de um grupo de assaltantes, que não sabem nada sobre seus parceiros, que entra em choque depois que o golpe dá errado. A partir daí, o principal mistério do longa passa a ser se existia um tira infiltrado no grupo, já que a polícia estava de prontidão no local do assalto, sabendo tudo que iria ocorrer.

Como sempre, minhas sinopses são bem rasas para tentar não entregar nenhum aspecto importante do filme, mesmo que eu não me importe de receber os famigerados spoilers. Entretanto, nesse filme é importante que o público não saiba o que acontece para aumentar o choque e a surpresa.

Mas vamos falar sobre o que interessa. Vamos falar sobre essa obra quase perfeita, comandada por um ex-atendente de locadora com pouco mais de 900 mil dólares. Falar sobre o filme que marcou a década de 90 e foi escolhido o maior filme independente de todos os tempos pela revista Empire. Falar sobre o filme que nos apresentou a Quentin Tarantino e seu estilo completamente diferente e subversivo.

Quentin tinha guardado esse roteiro para ser dirigido por ele, usando o dinheiro resultante da venda do roteiro de Amor à Queima Roupa, realizado pelo falecido Tony Scott. Depois da experiência de dirigir e de ver um outro roteiro seu (Assassinos por Natureza) ser destruído pelo diretor Oliver Stone, Tarantino passou a comandar suas próprias histórias.

E mesmo que ele seja um ótimo diretor, a força de seus filmes está em grande parte nos roteiros. Cães de Aluguel não é diferente e mostra criatividade desde o início com um ótimo diálogo sobre o significado de “Like a Virgin”, música da cantora Madonna. Esses diálogos recheados de referências à cultura pop já se tornaram uma das características do filmes tarantinescos, marcando presença na maioria de seus filmes.

Mas, pra mim, o principal aspecto original desse filme é ser um filme de assalto que não mostra o mesmo. Só temos flashs do passado de alguns deles e o que acontece no ponto de encontro após o golpe dar errado. Isso representa a originalidade de Tarantino ao contar a história e também ajudou a manter a produção barata, já que o grosso do filme se passa em uma única locação. Essa característica pode retornar no possível novo filme do diretor, The Hateful Eight, que deve ser passar em duas locações, de acordo com as descrições do roteiro vazado.

Essa inexistência do golpe em si faz com que o longa crie uma certa interatividade com o público, que pode usar a imaginação para recriar o assalto dá maneira que quiser, usando as poucas pistas dadas nos diálogos dentro do galpão.

Outra característica constantemente usada por Tarantino é a narrativa não-linear, que é usada de maneira mais contundente em Pulp Fiction, segundo filme do diretor. Ainda assim, Cães de Aluguel passeia com muita facilidade pelo passado e pelo presente, sendo ajudado por uma edição perfeita.

Tudo isso chama a atenção no filme e na filmografia de Tarantino, mas o aspecto mais interessante dos seus filmes talvez seja a violência gráfica. Esse elemento marca o roteiro e é reforçada pela direção de Quentin, que usa seus filmes para tirar sarro (com um humor negro acima dos limites) de uma violência que não segue aspectos realistas. É só observar como cada personagem de Tarantino parece ter 3 vezes mais sangue que um ser humano normal.

Mesmo assim, não dá pra dizer que seus filmes leves, por que não é qualquer pessoa que consegue assimilar que todo esse sangue jorrado tem um viés subversivo e critico. Não é qualquer um que suporta ver um personagem nadando em seu próprio sangue por mais de uma hora de filme. Pior ainda (ou melhor, talvez) é a cena da tortura do policial, onde Mr. Blonde dança, arranca orelhas e joga gasolina no pobre homem.

Nesse aspecto da violência é que podemos destacar o quanto a direção de Quentin Tarantino é forte. Muitos diretores fariam cenas de violências mais fortes e rápidas, enquanto Quentin opta por fazer longos planos com ângulos inusitados e ótimos travellings para destacar as consequências dessa violência e dar peso a essas cenas.

Também é nos trabalhos com os atores que ele marca presença, seja na escolha certeira feita com propriedade ou na própria direção das cenas. É por causa da boa relação entre Tarantino e os atores, que vemos um show de personagens bem criados e interpretados de mane.

É assim que vemos o show dado por Harvey Keitel (que também produziu e viabilizou o filme ao acreditar na história de Tarantino), Tim Roth, Steve Buscemi e, principalmente, Michael Madsen. Destaco o último, por que seu personagem é o mais surtado e tem a cena da tortura, que não deve ter sido fácil, como ápice.

Claro que, além disso tudo, não podemos deixar de comentar a trilha sonora, que também é um fator marcante dos filmes do Tarantino. Músicas marcantes e insanamente divertidas, como “Stuck in the Middle with You”, que acompanha a, já citada infinitas vezes, cena da tortura.

É óbvio que o filme, principalmente, por ter pouco orçamento, tem seus problemas, como a mudança drástica de fotografia em alguns momentos, mas nada disso consegue se sobressair ao estilo original e criativo imposto por Quentin Tarantino.

Um filme marcante para o cinema, para o público e para a carreira de Tarantino. Um filme inteligente, bem consistente e engraçado. Muitos aspectos do estilo lançado por ele e copiado por muitos novos diretores pode ser observado aqui. Ou seja, se você gosta dos filmes de Tarantino, deve ver e rever o longa. Se não gosta ou não conhece, corra que ainda dá tempo.

OBS 1: Quentin queria que o veterano ator James Woods (Era Uma Vez na América) estivesse no filme, mas seu agente recusou o papel sem informar o ator, que demitiu o funcionário quando descobriu o que aconteceu.

OBS 2: O palavrão fuck é repetido 272 vezes durante o filme. Um número considerado pequeno para um diretor tão verborrágico quanto o Tarantino.

OBS 3: Achei esse poster, que faz referência aos assaltantes, que são denominados como cores no filme, muito legal e criativo.