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Filmes

Viagem no Tempo: 12 Homens e Uma Sentença (1957)

23 de Janeiro de 2015 - 12:00 - Flávio Pizzol

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Já vi até trabalhos de faculdade de direito sobre esse filme, mas eu nunca consegui escrever um texto que chegasse aos pés da obra. Um filme espetacular que, facilmente, entra na lista de melhores roteiros e filmes que eu já vi na minha curta vida cinematográfica.

O filme segue doze jurados, que são responsáveis por dar a sentença para um garoto que supostamente assassinou o pai com uma faca. Depois de 6 dias de julgamento, onze deles acreditam que o réu é culpado, mas, partindo de uma dúvida razoável, um deles começa uma batalha para convencer todos de uma possível inocência.

O primeiro aspecto que faz desse um dos melhores roteiros já feitos é o fato dele conseguir prender o público apenas com sua história, desenvolvimento e diálogos. Não temos efeitos, vários cenários, nem cenas de ação, mas 12 Homens e Uma Sentença suga o público para sua história e o mantém interessado como poucos filmes conseguem.

Isso funciona de maneira interessante, principalmente pela maneira escolhida para a apresentação das informações. Começamos o filme sem saber nada, além do crime e dos critérios necessários para decidir a sentença. Aos poucos, através dos próprios diálogos entre os jurados, vamos descobrindo mais sobre o crime, sobre as provas apresentadas no julgamento e sobre aquelas pessoas que tem a vida de um garoto nas mãos. Dessa maneira sempre tem alguma informação incompleta, que faz com que o espectador mantenha sua atenção voltada para o filme.

Além disso, existe uma coisa que ninguém sabe e nunca vai saber: a resposta para a pergunta mais feita no longa. Nenhum dos jurados pode afirmar que o jovem é realmente inocente, mas uma dúvida de um deles gera toda uma discussão em torno do nada. Claro que temos a decisão sobre a vida do réu, já que a sentença, naquele caso, seria a morte, todavia o filme é sobre o poder que uma boa retórica pode ter. O jurado que acredita na possibilidade da inocência consegue construir um caso quase perfeito, atuando melhor do que os advogados e convencendo aos poucos todos os outros.

E acredite quando eu digo que esse final não tem importância, já que a conclusão é aberta e um tanto óbvia. O que realmente importa é aquele meio do filme, onde temos uma espécie de tribunal formado e vemos um arquiteto realizar o trabalho dos advogados com perfeição. A maneira como ele refuta as provas apresentadas, repassando seu sentimento de dúvida para os outros membros, é uma verdadeira aula de direito, que consegue barrar muitos filmes de tribunal sem se passar em um.

Nesse desenvolvimento, um dos fatores mais importantes são os diálogos, que constroem todo o background do filme e são a base para o trabalho realizado pelos jurados. Sem ter que usar nenhum recurso narrativo extra, como uma narração in off, o roteirista Reginald Rose consegue explicar e desenvolver tudo sem nenhum excesso e aborrecimento. Está tudo ali na quantidade certa e da maneira certa, considerando que o filme se segura totalmente no roteiro.

A direção também ganha muita importância no decorrer do longa por ter o dever de dar movimentação para um história que se passa em uma sala. E o trabalho é perfeito, sendo um impressionante cartão de visita cinematográfico do jovem Sidney Lumet, após de alguns trabalhos para a TV. Depois disso, esse gênio ainda iria dirigir muitos clássicos, como Serpico, Assassinato no Expresso Oriente, Um Dia de Cão e Rede de Intrigas, até sua morte em 2011.

Ele não abusa da edição rápida pra dar movimentação intensa, porque isso não era muito comum na época. Toda a direção é bem calma, usando muitos planos-sequência e câmera fixas. Além disso, Lumet consegue criar o clima de tempo real e ampliar a tensão, através de pequenos detalhes, como o calor e os paralelismos com basebol. Não é nada que te faz roer as unhas ou esbugalhar os olhos, todavia cumpre sua função com uma técnica irreparável.

Mas é claro que seu trabalho não para aí, já que as ótimas atuações também são claramente influenciadas por Lumet. Todas as características dos personagens são passadas com perfeição pelo roteiro e Sidney complementa isso com seu jogo de câmera e close ups oportunos, mas a força dos personagens está realmente nos atores. E o curioso é que só dois deles eram realmente famosos na época.

E são esses astros que tem maior atenção no filme, já que Henry Fonda (que já tinha feito Vinhas da Ira, seu maior filme) e Lee J. Cobb funcionam como adversários no filme. Eles tem função primordial e mandam muito bem, mas isso não me permite excluir o trabalho dos outros jurados, porque a maioria deles tem bons momentos e ajudam a manter a força do filme.

Um filme praticamente perfeito, que mostra que é possível prender e surpreender qualquer público tendo simplesmente um bom roteiro. Personagens interessantes, desenvolvimento certeiro e ótima direção também fazem com que essa obra seja um dos melhores filmes já feitos na história do cinema. É um filme que não envelheceu e merece ser visto já.

OBS 1: O longa está em 7º lugar no Top 250 de Melhores Filmes do IMDB.

OBS 2: 12 Homens e Uma Sentença recebeu 3 indicações ao Oscar (Filme, Diretor e Roteiro), mas infelizmente só foi ganhar alguma coisa em outras premiações. A derrota passa a ser justificável, porque ele perdeu para o fantástico a Ponte do Rio Kwai, que ganhou 7 estatuetas no total, em todas as categorias.

OBS 3: Em 1997, o longa ganhou um remake feito para TV. O filme também foi escrito por Reginald Rose, foi dirigido por William Friedkin (outro gênio que foi o responsável por O Exorcista, Operação França e Killer Joe) e estrelado por George C. Scott, James Gandolfini, Tony Danza, Jack Lemmon, Edward James Olmos e William Petersen. Nunca vi essa versão, então não vou comentar.