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Séries

Séries: Westworld (1ª Temporada)

10 de dezembro de 2016 - 12:24 - Flávio Pizzol

Bem-vindo ao fascinante mundo de Westworld!


A HBO já tem larga experiência na criação de séries que deixam seu nome marcado na história por diversos motivos, sendo que nomes de The Sopranos, The Wire e Oz vem a memória de forma quase instantânea enquanto Game of Thrones vai acumulando pontos para entrar nesse grupinho seleto. Sob a tutela de J.J Abrams (Star Wars – O Despertar da Força), Westworld espantou as desconfianças e também entrou nessa corrida ao misturar ficção científica, faroeste, discussões filosóficas e reviravoltas de explodir a cabeça em uma temporada de estréia provocativa, inteligente e praticamente perfeita.

[Aviso: Tentei reduzir a quantidade de spoilers, mas é impossível falar de Westworld sem citar elementos específicos…]

Partindo de conceito criado por Michael Crichton (Jurassic Park) para o longa homônimo de 1973, a trama nos leva para um parque de diversões que utiliza androides de última geração para recriar épocas históricas e divertir adultos milionários até que essas inteligências artificiais se rebelam contra os seus criadores. A história da série não foge desse contexto, mas o que a primeira temporada faz de melhor é ampliar a mitologia de uma forma complexa e inesperada, funcionando como uma espécie de prólogo/extensão para o longa-metragem.

Mas calma que, apesar do objetivo mais didático desse texto, não é nada fácil escrever de forma simplificada sobre esse roteiro comandado por Jonathan Nolan e Lisa Joy (dupla responsável por Person of Interest). Eles trabalham com muitos personagens complexos, subtramas paralelas, linhas temporais distintas (ops!) e várias camadas de mistérios que vão sendo reveladas aos poucos, mas não abrem mão de instigar o público com pistas bem posicionadas e balancear a necessidade de explicações. Em outras palavras, a construção narrativa consegue ser complexa e exigir um nível de atenção elevado sem que ninguém fique completamente perdido durante o desenvolvimento.

Dentro dessa rede de conexões, existem três elementos que, na minha opinião, funcionam como guias para o público. O primeiro deles já surge logo de cara quando somos apresentados as narrativas internas do parque, onde cada androide possui uma função que simula os arquétipos típicos do faroeste, como o herói, o homem sem nome, o ladrão, a donzela em perigo, a dona do cabaré, o caçador de recompensas e tantos outros. O interessante é que o roteiro só usa isso para situar o espectador de forma confortável antes de explorar novas camadas e brincar com praticamente todos os personagens.

É a partir daí que a série expande sua dinâmica e abandona a ideia de ter um protagonista definido, mas posiciona um dos personagens no centro de tudo e ainda seleciona uma das tramas principais para ser uma espécie de luz no fim do túnel. Quem cumpre o primeiro papel é o criador do parque, Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins), visto que ele protege sua obra como um filho, aparece quase como um ser onipresente em todas as linhas temporais e sabe tudo o que acontece com cada visitante, androide ou membro da diretoria. Inclusive, sua participação na amarração das tramas (tudo o que o Homem de Preto viveu é uma narrativa dele…) e no início da rebelião é tão decisiva que eu acredito que sua morte foi forjada em prol de um plano maior.

Enquanto isso, a trama de Maeve (Thandie Newton), Hector (Rodrigo Santoro) e Felix (Leonardo Nam) se desenvolve da maneira mais simples e didática possível. Isso acaba tornando os personagens unilaterais e algumas situações completamente irreais, mas eu entendo que ela possui a função muito clara de permitir que o público respire e comece a pensar sobre o que aconteceu nas outras tramas. Isso pode incomodar alguns espectadores mais do que outros, mas o importante pra mim é que as discussões continuam presentes nas escolhas – orquestradas ou não – da prostituta naqueles ótimos últimos minutos.

“Como aprenderá com os seus erros, se não se lembra deles?”

Na verdade, eu acredito que as ações de Maeve no último episódio completam um ciclo dentro das discussões sobre memória e identidade que o roteiro propôs desde o início, visto que ela escolheu suas lembranças e tomou a atitude mais humana possível ao desistir da sua “missão” em nome da filha. Isso ainda se torna um paradoxo muito forte quando entendemos que  o local é alimentado por humanos insatisfeitos com a vida real que querem esquecer dos problemas mundanos e matar sem nenhum julgamento, se afastando justamente do que os diferencia das inteligências artificiais.

O mais interessante é que isso pode ser considerado uma piscina infantil dentro do oceano de questionamentos filosóficos que tangem os roteiros de Westworld. A própria memória volta a tona como o estopim de quase todas as tramas em uma aplicação básica da máxima “um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. O passado ganha importância em vários níveis, Dolores só consegue matar quando recorda de algo ruim e os devaneios permitem que os robôs quebrem com o ciclo de alienação e repetição ditado pelos seus códigos principais.

E como se isso não fosse o bastante, a série ainda centraliza suas narrativas na relação entre consciência e linguagem encontradas no livro A Mente Bicameral, escrito por Julian Jaynes nos anos 70 e utilizado como título do season finale (nada é por acaso, amigos…). De forma bem resumida e desleixada, essa teoria diz que o ser humano possuiu, por muito tempo, uma espécie de divisão na consciência que só permitia que ele resolvesse problemas primitivos, necessitando de uma ajuda externa – possivelmente divina – em momentos que exigiam decisões mais complexas até que a linguagem evoluísse o suficiente para libertar nosso “eu interno”.

E, caso você ainda não tenha entendido a relação, boa parte das analogias de Westworld passam por essa tese. O que nós vemos são justamente robôs que executam tarefas primárias e ouvem a misteriosa voz de Arnold em momentos de grande importância até que os devaneios (a evolução da sua linguagem) permitiram a retenção de lembranças e a destruição da tal mente bicameral. O labirinto é revelado como uma mera metáfora da condição humana e a cena mais bonita do episódio final acontece quando Dolores enxerga si mesma no lugar do seu mestre, atingindo o nível máximo de evolução da sua consciência.

“Estes prazeres violentos tem finais violentos.”

A direção cuida de cada um desses detalhes com uma minúcia digna de aplausos, enquanto também aposta em um escopo grandioso durante a apresentação do novo mundo e mistura os diferentes gêneros com muito cuidado. A fotografia aberta não parece ter sido pensada para a televisão, a trilha sonora gruda na cabeça e o design de produção leva o espectador tanto para o Velho Oeste quanto para esse futuro distópico que pode ser percebido visualmente no centro de controle do parque e sentido no pessimismo inerente aos seres humanos que frequentam o local.

Tudo é desenvolvido cuidadosamente para resultar em cenas com ação desenfreada ou com grande catarse emocional, como podemos observar na revelação de que Bernard é um anfitrião ou na guerra travada por Maeve e seus companheiros dentro dos laboratórios durante a fuga final. Esses momentos recompensam o tempo gasto pelo espectador, enquanto a estética sempre me remete aos videogames, sendo que o próprio subtexto não perde a oportunidade de questionar a moralidade da morte dentro de um jogo onde os personagens são de mentira. Ou seja, até as cenas que envolvem o clássico bang bang podem ser interpretadas de forma diferente sob a ótica do prazer extraído de uma violência supostamente impessoal.

“O dom divino não vem de um poder maior, mas das nossas mentes.”

Isso sem contar o elenco gigantesco, estrelar e simplesmente fabuloso que Jonathan e Lisa conseguiram reunir para todos os núcleos do show. Thandie Newton (À Procura da Felicidade) está independente, firme e absolutamente incrível, Evan Rachel Wood (Tudo pelo Poder) mistura doçura, ingenuidade e força mesmo presa em um mistério que se alonga um pouquinho demais, Jimmi Simpson (House of Cards) sabe como aproveitar o arco bem definido do seu personagem, Ben Barnes (O Retrato de Dorian Gray) cria o contraponto necessário para a transformação de William, Rodrigo Santoro (300) entrega o que seu personagem precisa e Ed Harris (Expresso do Amanhã) encarna um típico e assustador vilão de faroeste com seu Man in Black. Só James Marsden (Tudo Por um Furo) acaba ficando para trás, mas eu acredito que aquela apatia toda faça parte do seu personagem.

Já do lado da ficção científica, o destaque fica mais concentrado nos jogos políticos, tecnológicos e filosóficos encarnados pelos geniais Jeffrey Wright (007 – Quantum of Solace), Sidse Babett Knudsen (Inferno), Tessa Thompson (Creed: Nascido para Lutar) e Sir Anthony Hopkins (Hitchcock). Wright faz um trabalho único na criação de vários personagens diferentes no decorrer da temporada, mas o último fez o favor de me deixar sem palavras em pelo menos metade dos episódios, entregar seu personagem mais marcante desde um certo Hannibal Lecter e garantir aquele gostinho de saudade que não deve desaparecer até 2018.

Assim a união de todos esses elementos cria uma obra-prima que prende a atenção, diverte e insere as discussões filosóficas com enorme fluidez, unindo o melhor do entretenimento com muitas analogias, metáforas e reflexões. Uma aula extremamente rica de direção, atuação, narrativa e construção de reviravoltas, marcada pela ausência do medo de arriscar, inovar e mexer com as expectativas do seu público de um jeito que Jonathan Nolan já havia feito em outros trabalhos anteriores. Eu preciso admitir que fiquei com a impressão de que os mistérios funcionariam melhor em uma maratona estilo Netflix, mas também não fico nem um pouco surpreso com a forma como essa série maravilhosa mobilizou a internet e as teorias. Vai demorar um pouquinho, mas que venha o segundo ano!


OBS 1: Em primeiro lugar, me desculpem pelo atraso desse texto. Por causa da cobertura da Comic Con Experience, eu só consegui assistir o último episódio da temporada na quarta-feira e ainda precisei de alguns dias para digerir o que aconteceu antes de escrever.

OBS 2: Em segundo lugar, preciso fazer um adendo positivo a atuação dos atores que interpretam os androides. O que são aqueles momentos em que os robôs entram no modo de análise e viram um personagem completamente novo? Sem explicação ou maturidade para lidar com isso!

OBS 3: Parabéns para a HBO por colocar duas personagens femininas fortes no centro da ação em seu carro-chefe.

OBS 4: Eu tenho quase certeza de que o Dr. Ford colocou um androide para morrer no seu lugar. Como um bom manipulador e protetor, ele não iria libertar a consciência de suas criações sem ficar para ver o resultado de perto. Não acham?