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Séries

Séries: The Walking Dead (7ª Temporada/Parte 2)

2 de Abril de 2017 - 09:19 - Flávio Pizzol

Errar é humano, mas repetir o erro é The Walking Dead


Mais uma temporada de The Walking Dead chegou ao fim e cá estou eu, mais uma vez, tentando tirar alguma coisa positiva desse monte de subtramas desnecessárias, filosofias de boteco e personagens rasos que eles chama de série. E olha que essa missão está cada vez mais difícil, já que o programa continua repetindo os mesmos erros e tratando seus milhões de espectadores como idiotas. O sétimo ano tinha potencial para chegar ao céu dos zumbis, porém desperdiçou tudo e entregou sua pior temporada até então.

Não consigo explicar como funciona a mente de Scott Gimple, mas garanto que os roteiristas realmente não aprenderam nada com o tempo que passaram na fazenda, na prisão e muito menos presos no status quo de Alexandria. O desenvolvimento continuam lento ao extremo, a narrativa parece não sair do lugar, os protagonistas sofrem com a divisão em grupos menores e alguns episódios (desnecessários) ficam presos em discussões existenciais ou situações que poderiam ser resolvidas com dez minutos de um bom texto. Ainda não sei quem foi o gênio que aprovou aqueles cinquenta minutos centrados em Sasha e Rosita…

E, acredite se quiser, elas são apenas a pontinha do iceberg: quase todos os personagens podem ser enquadrados como rasos, desinteressantes ou descaracterizados. Carol (Melissa McBride) seguiu um caminho de isolamento completamente estúpido, Ezequiel (Khary Payton) toma decisões que deixam o personagem ainda mais caricato que nas HQs, Rick (Andrew Lincoln) demorou uma eternidade pra se tocar que precisaria enfrentar os Salvadores e Carl (Chandler Riggs) simplesmente parou no tempo depois da seu ótimo confronto com o vilão na primeira parte. Isso porque eu nem quero citar Enid (Katelyn Nacon), os grupos completamente robóticos que vão virar estatística na guerra e as próprias Sasha (Sonequa Martin-Green) e Rosita (Christian Serratos).

Negan poderia – e parecia – ser a salvação dessa temporada, mas as aparições ameaçadoras de Jeffrey Dean Morgan foram reduzidas ao máximo nessa segunda metade. Por algum motivo (também inexplicável), os roteiristas acharam que seria uma puta ideia substitui-lo por Simon e suas outras cópias piratas. Depois de prender e torturar de forma similar várias pessoas desinteressantes, sua única interação razoavelmente interessante aconteceu com Eugene, que, por sinal, também foi o único personagem que se desenvolveu nesses últimos episódios. Preciso admitir que o homem dos mullets mais charmosos do apocalipse tomou decisões que faziam sentido dentro da sua história e conseguiu prender minha atenção até os últimos instantes da temporada.

A união desses fatores carrega o espectador para o centro de subtramas sem nenhum valor narrativo e, automaticamente, tira todo o peso da ameaça, da tensão e das grandes cenas de ação. Nenhuma série de terror ou suspense consegue se manter apenas com o gore pelo gore, porque a matança – de humanos ou zumbis – precisa estar inserida em situações que mexam com as emoções do espectador ou, pelo menos, ameaçar algum personagem razoavelmente desenvolvido. E, por mais que The Walking Dead tente se enquadrar no tipo de série que poderia matar qualquer um, não vale colocar sempre o protagonista nessa encruzilhada.

O episódio da roda gigante, por exemplo, faz exatamente isso com Rick, mas apoia seu clímax em uma situação tão estúpida que ninguém conseguiu comprar a possibilidade do líder da guerra perecer ali. Por outro lado, o ótimo primeiro episódio da temporada acerta em cheio quando mata/ameaça personagens (Gleen e Carl, no caso) que estão na série desde o início, passaram por pelo menos uma evolução mínima nesse período e ainda podem causar verdadeiro sofrimento em Rick. E, nesse momento, nós sentimos a tensão, roemos a unha e sofremos com ele. Revejam as duas cenas e percebam a diferença.

Se isso não for o suficiente, pense nas mortes de Benjamin e Richard ou nos momentos que ameaçaram a vida de Gabriel, Aaron, Rosita (gancho de episódio, inclusive) ou aquele nobre grupo litorâneo que só apareceu em dois episódios. Eu aposto que você não se lembra nem do rosto de alguns deles, quanto mais dessas cenas específicas. Enquanto isso, Eugene (Josh McDermitt) é um personagem carismático que passou por algum desenvolvimento nessa segunda metade, então a mínima chance de Negan machucá-lo já foi o bastante para mexer comigo. O excesso de personagens sem importância não ajuda no desenrolar da série e ainda reduz as possibilidades de The Walking Dead quando o objetivo é gerar alguma comoção.

Isso tudo nos conduz a um episódio final que passa longe de salvar a temporada, mas parece ser feito sob medida para restaurar a fé da humanidade no programa. “The First Day of the Rest of Your Life” teve ação de qualidade, ameaças um pouquinho mais interessantes e reações hilárias de Negan no último ato, porém também teve muita preparação para pouca guerra, entradas trinfais que salvam o dia, divagações de personagens com prazo de validade vencido (outra característica típica) e uma traição anunciada desde sempre. Agora é só esperar uma galera começar a exaltar Shiva como a melhor coisa de todos os tempos, esquecendo os outros episódios de puro sofrimento e perda de tempo.

E a ironia é que tudo isso foi apenas a preparação (de novo, de novo) para uma grande guerra que vai ocupar a primeira metade da oitava temporada todinha. Ou seja, teremos mais oito episódios de enrolação pela frente. Acima de tudo, a verdade é que eu cansei de olhar para os quadrinhos e anunciar boa novas que nunca chegam, então vamos apenas torcer para os roteiristas entenderem que metáforas complexas sobre a existência não substituem o desenvolvimento direto de personagens, nem aumentam a qualidade dos seus textos. Por enquanto, The Walking Dead chegou a fundo de um poço covarde, instável e vazio.


OBS 1: A Shiva deu um toque especial pro ataque final, mas um fodento ataque de tigre não é o bastante para salvar o conjunto da obra.