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Séries

Séries: The Night Of (1ª Temporada)

1 de setembro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

A verdade nua e crua do sistema judiciário americano


the-night-of-posterHá alguns anos, o ator James Gandolfini usava sua influência pra produzir e estrelar The Night Of, dando continuidade a sua maravilhosa parceria com a HBO. Ele faleceu em 2013, Robert De Niro chegou a ser cotado para substituí-lo, a minissérie foi para a geladeira, e, finalmente, o programa estreou com o próprio Gandolfini creditado como produtor executivo. É impossível não imaginar como teria sido a sua versão da série (que chegou a produzir um piloto lá atrás) e a presença de Tony Soprano pode até ser sentida pelos fãs, mas o fato é que o estudo sobre o sistema judicial realizado aqui encontra o suporte técnico necessário e encerra a temporada como um dos melhores dramas do ano.

[Esse texto foi condenado por espalhar spoilers sem piedade.]

Tudo começa quando o jovem Nasir Khan (Riz Ahmed) rouba o táxi do seu pai para ir a uma festa em Manhattan, dá uma carona para a linda Andrea (Sofia Black-D’Elia) e encerra sua noite em uma festinha particular cheia de drogas e sexo na casa da moça. Depois disso, ele sofre um apagão, acorda sentado na cozinha, descobre que a moça foi esfaqueada mais de 20 vezes e, de forma desesperada, foge com a arma do crime até ser parado pela polícia. O clássico mistério do “quem matou fulano” já está na mesa.

A grande questão é que o desenvolvimento do primeiro (e possivelmente melhor episódio da temporada) nos apresenta um personagem real e muito próximo de qualquer jovem de 20 e poucos anos. Naz mora com os pais, vai para a faculdade, trabalha a noite para pagar a mesma e até cometeu alguns erros durante sua vida, mas nada disso importa depois que o público já se apegou ao protagonista. Ele nunca deixa de ser um suspeito do crime e a revelação de novas camadas do seu passado coloca isso em cheque em diversos momentos, mas o cheirinho de inocência, como diz Freddy (Michael Kenneth Williams) permanece ali.

A mesma relação é desenvolvida perfeitamente com Jack Stone, o advogado de defesa interpretado com perfeição por John Turturro. Ele já é apresentado logo de cara como alguém descontente com a vida por ter que conviver com casos medíocres, chacota dos colegas de profissão e um maldito eczema nos pés. Está pronto o cenário perfeito para que o espectador sinta pena de Jack e só veja essa sensação aumentando quando ele dedica sua vida a ajudar Naz, comemora a cura repentina da sua doença e até salva o gato que todos achavam ser a chave para resolver o crime. Isso não acontece, mas a sua presença ainda se encaixa como parte de um belo desenvolvimento de personagem.

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E essa relação quase íntima que o público cria com Naz, Jack e outros personagens que circulam os dois ganham ainda mais importância no momento em que The Night Of revela que seu foco não está no crime em si e muito menos na revelação do grande assassino. Construído com partes quase iguais de uma série de tribunal, um suspense policial e uma drama de cadeia, o roteiro de Richard Price (The Wire) e Steven Zaillian (A Lista de Schindler e Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres) possui um desenvolvimento lento e seguro e focado em tudo o que envolve o crime, analisando todos os passos que envolvem a justiça americana.

O que realmente importa aqui é a ética policial, o preconceito em relação aos muçulmanos, a brutalidade de uma prisão de segurança máxima, a advogada famosa que só quer defender Naz para aparecer no jornal, o detetive que ignora os suspeitos, a promotora que abandona uma acusação por ter mais provas contra o protagonista, a mãe que precisa aceitar qualquer emprego para pagar a defesa do filho, o irmão que é expulso da faculdade e um processo de julgamento extremamente lento e invasivo que abala qualquer família. No final, Naz acaba sendo inocentado após um empate na decisão do júri, mas isso também não importa porque ele já perdeu a confiança dos seus vizinhos, cometeu crimes na cadeia e entrou em um ciclo vicioso envolvendo o crack.

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Infelizmente, o roteiro escorrega um pouquinho justamente quando o foco passa a ser o tribunal. Os episódios até ficam mais dinâmicos com todas as investigações, depoimentos e discursos maravilhosos dos advogados, mas algumas decisões soam apressadas e rasas demais. E isso só piora quando o longo season finale acumula uma grande quantidade de fatos e reviravoltas, incluindo a estúpida decisão de Chandra (Amara Karan) ao beijar seu cliente dentro da cadeia em frente a uma porrada de câmeras. Claro que isso abriu espaço para Turturro dar um show no argumento final, mas a falsidade dos acontecimentos deixa um gostinho amargo na boca.

Apesar disso, a direção e as atuações permanecem impecáveis do início ao fim. As câmeras comandas pelo próprio Steven Zaillian em sete dos oito episódios (o quarto é comandado por James Marsh de A Teoria de Tudo) acompanham tudo com uma proximidade constrangedora, vigiam os personagens através das frestas sem poupar o espectador da realidade nua e crua, e abusam daqueles fundos desfocados onde alguma ação importante acontece. Um trabalho minucioso e muito bem polido que abusa das sequência sem corte, da câmera fixa e de muitos planos-detalhe sufocantes.

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A força retirada de cada membro do elenco também é única, criando uma unidade que carrega a série nas costas nos poucos momentos em que o roteiro escorrega. John Turturro (O Grande Lebowski) assume o papel que seria de Gandolfini com sensibilidade e personalidade dignas de vencer o Emmy, Riz Ahmed (O Abutre) apresenta todas as diferentes camadas de Naz com uma competência absurda, Peyman Moaadi (A Separação) e Poorna Jagannathan (House of Cards) emocionam como os pais do jovem, Jeannie Berlin (Café Society) passa um misto entre desleixo e credibilidade como a promotora, Bill Camp (Jason Bourne) destrói como o detetive que não consegue se aposentar sem encerrar seu último caso e Michael Kenneth Williams (Caça-Fantasmas) se destaca como uma espécie de anjo de guarda duvidoso do protagonista.

Uma equipe técnica e artística que trabalha de forma impecável, brilha em diversos momentos e entrega uma minissérie que merece sua atenção. Alguns tropeços poderiam ser evitados e alguns buracos tapados para que o resultado fosse perfeito, mas o estudo social realizado por The Night Of é muito maior do que tudo isso. Uma análise sobre crime, justiça e inocência que mistura The Wire, Oz, Law and Order e True Detective de forma brilhante e transcende as barreiras de um programa normal de televisão. Assista correndo, porque uma nova temporada é cada vez mais provável.


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