AODISSEIA
Séries

Séries: The Mist (1ª Temporada)

A difícil decisão de ser humano

30 de agosto de 2017 - 10:27 - Flávio Pizzol
Muitos spoilers estão escondidos no meio da névoa. Cuidado!

 

A capacidade de criar metáforas dentro de narrativas ocupadas por fantasia e terror transformou Stephen King em um dos mestres da literatura mundial, sendo que muitos dos seus livros tem como objetivo estudar o ser humano, suas relações sociais e decisões em situações inesperadas ou desesperadoras. Só pra listar alguns exemplo, temos O Iluminado, Conta Comigo, Misery, Celular, Novembro de 63 e Sob a Redoma. Apesar de nunca ter lido o material original, tanto o filme de 2007 quanto a série que adaptam o conto “The Mist” também deixam claro que a mesma proposta.

 

A trama é centrada em uma pequena cidade americana que tem sua rotina alterada completamente quando um misterioso nevoeiro ocupa as ruas. Mesmo sem saber a origem desse evento, as pessoas começam a agir de forma questionável, muitas mortes parecem ter causais sobrenaturais e os sobreviventes precisam se abrigar em locais públicos. É justamente nesses locais que a verdadeira histórias acontece, enquanto pessoas comuns precisam lidar com brigas movidas pelo medo, escassez de comida e opiniões diferentes.

 

 

O filme cumpre essa proposta com vigor e surpreende com um final movido por pura ousadia, mas as diferenças entre livro, longa e série de televisão precisam ser esclarecidas desde o princípio. O roteirista dinamarquês Christian Torpe (Coração Mudo) entende isso e constrói uma narrativa episódica que aproveita ao máximo o tempo de introdução, se desenvolve com consistência dentro de seus próprios mistérios e entrega um conclusão típica de uma grande primeira temporada: corajosa e marcada por pontas soltas muito bem planejadas. Algumas ressalvas ainda precisam ser feitas em meio a todas positividade, mas vamos com calma.

 

A cidade

 

O primeiro episódio já abre com a presença do nevoeiro, mas, ao contrário do que era esperado, o tempo de tela é praticamente todo ocupado pela cidade e seus habitantes. A direção de Adam Bernstein (Breaking Bad) apresenta a cidade com uma tensão constante, enquanto os protagonistas já são apresentados e embalados pelas tretas e conexões que vão direcionar a temporada. Em primeiro plano, temos o núcleo familiar dos Copeland, a vizinhança natureba marcada pela Nathalie, a polícia e os adolescentes, sendo que os últimos se destacam por movimentarem o mistério principal através do estupro.

 

 

A maior parte desse grupo principal seja criado a partir de esterótipos clássicos e a posterior divisão dos núcleos de sobreviventes seja assumidamente óbvia, mas a construção das tramas funciona dentro da proposta citada lá em cima e a própria cidade se mostra um palco valioso para o crescimento de discussões complexas, como preconceito, homossexualidade, fanatismo religioso e o próprio estupro de Alex. Existe um grau de simplicidade que faz parte da televisão aberta, porém a maior parte deles é facilmente superada pela ousadia e sensibilidade de Torpe.

 

Por outro lado, a série possui um problema de deficiência do elenco que surge aqui e vai ficando cada vez mais claro no decorrer dos episódios, chegando ao ponto de atrapalhar boas construções emocionais do roteiro. Existem cenas de possível catarse onde a ausência de atores mais talentosos é sentida por representar uma espécie de restrição ao potencial do momento, sendo a conclusão da subtrama do irmão de Kevin no quarto episódio a que mais me incomoda. Ainda assim, isso não significa a ausência total de sequências tocantes e, entre toda a tensão, o choro de um garoto que luta para compreender sua sexualidade proporciona um frescor muito bem-vindo para The Mist.

 

Os sobreviventes

 

Após a apresentação dos personagens e criação dos núcleos, o foco da série passa a ser efetivamente o conflito, suas repercussões nos sobreviventes e a tensão crescente que atravessa tanto momentos específicos como a tentativa de encontrar um rádio, quanto no cenário completo através do aspecto sobrenatural. Na minha humilde opinião, The Mist cresce exponencialmente nesse contexto, porém vale ressaltar que uma boa parte da tensão entre os seres humanos (excluindo a névoa momentaneamente) só funciona graças a construção minimamente bem feita da introdução.

 

 

O bom desenvolvimento dos núcleos principais também ajuda a fortalecer a série, já que direciona a atenção do espectador e cria uma certa vontade de ver o conflito entre essas peças que cresceram separadamente. Preciso dizer – mais uma vez – que essa estratégia depende do êxito de todos os conjuntos, mas o grupo da igreja e seu fanatismo religioso merecem algum destaque por fazer paralelos dolorosos com nossa sociedade (a lavagem cerebral que acompanha um líder convincente talvez seja a maior delas) e ter as revelações que mais me surpreenderam.

 

Saindo dos grupos e voltando ao aspecto individualista, um dos sobreviventes que mais se destaca é Adrian. Ele é o condutor da principal reviravolta do filme e cresce de forma assustadora nos últimos três episódios. Pessoalmente, eu me incomodei um pouco com a ausência de pistas acerca de sua condição psicológica e achei a revelação em si brusca demais, mas a cena seguinte com Kevin e a mudança de dinâmica gerada trama se equivalem. Nesse ambiente, é interessante comparar as atuações de Russell Posner (Mais Forte Que Bombas) com a experiência de Frances Conroy (O Aviador) para compreender o meu questionamento sobre o elenco. Apesar disso, vou destacar que todos cumprem seu objetivo principal em um filme com essas vias:  fazer o espectador se apegar aos sobreviventes, torcer por suas vidas e até sentir o peso de sua morte.

 

Claro que não estamos falando de uma daquelas séries ousadas que ameaça ou mata protagonistas declarados sem pudor. Definitivamente, não estamos falando de Game of Thrones. Mesmo assim, The Mist começa abordando um possível estupro, aposta a ficha no lado violento da maioria dos personagens e chega às vias de fato de forma admirável (muito gore) para os padrões estabelecidos em série similares. É difícil não se impressionar, por exemplo, com a morte relativamente gráfica de uma criança, mesmo sem ter nenhum apego com a personagem. O mesmo pode ser dito de um final de temporada que decide se livrar de um núcleo praticamente completo (em uma cena muito antecipada e bem conduzida como punição) e repetir, dentro de outros termos narrativos, o final do longa-metragem com o policial descobrindo que a morte do seu filho foi em vão.

 

 

O nevoeiro

 

Por fim, precisamos falar sobre o catalisador da trama e peça importante da expansão mitológica desenvolvida por Christian Torpe: o nevoeiro em si. Gosto muito de como, desde o início, a direção dos episódios alterna a construção da tensão entre a influência da névoa nas pessoas da cidade e a possível existência de um monstro físico (um que não aparece e existe nas pequenas pistas, como em Tubarão). Muito pouco é efetivamente mostrado em The Mist, porém é curioso como esses dois lados são sugeridos através, entre outras coisas, do uso de uma câmera subjetiva para esse evento sobrenatural.

 

Isso, por si só, é a principal forma de adaptar a trama para um formato composto por quase dez horas de conteúdo, além da criação de mais núcleos e ganchos envolvendo o Arrowhead (peça-chave do mistério envolvendo a origem do nevoeiro). Enquanto esse aspecto é apenas sugerido no filme, a série gasta mais tempo para amarrar qualquer sugestão de ponta solta. Uma atitude compreensível e correta, caso o surgimento do “vilão” e sua forma de atuação não fosse o aspecto mais nebuloso dos últimos episódios. Na minha opinião, a ausência de diversas explicações tirou um pouco da força do que acontece com Alex e Jay nos minutos finais. Será que ela não morreu antes por ter alguma importância para o nevoeiro? Se for isso, porque a substituição pelo Jay aconteceu sem nenhum problema? Ou será que estamos falando de qualquer outra coisa que ainda não foi sugerida?

 

 

A verdade é que isso só arranha a credibilidade que a série conseguiu construir, ignorando qualquer questionamento acerca da fidelidade da adaptação. The Mist não quer reinventar a roda e faz com a tensão surge do básico, concentrando seu tempo em personagens funcionais e bem construídos dentro da proposta. Pode ser válido que o possível espectador baixe suas expectativas, porque o texto não ultrapassa nenhum limite que poderia cadastrá-la como uma obra marcante. Funciona, diverte, prende a atenção e cria reflexões sobre o ser humano, ou seja, cumpre sua proposta. Só nos resta saber se Christian Torpe vai ter fôlego para impedir The Mist de virar mais uma The Walking Dead.

 


OBS 1: Vibrei com a possível morte do gerente do shopping no nevoeiro, porque ele é o pior tipo de ser humano. Aquela pessoa que mais do que ser filha da puta e egoísta, faz tudo pelas costas. Ao mesmo tempo, se ele voltar pode ser muito interessante como proposta de conflito.