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Séries

Séries: Stranger Things (1ª Temporada)

Um show de nostalgia, terror e diversão

18 de julho de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

 

Uma cidade pequena do interior dos EUA, um desaparecimento sem explicação, outros eventos ainda mais misteriosos, festas escondidas na casa dos pais, as tão inesquecíveis primeiras vezes, a ciência como fonte de explicação e crianças precisando amadurecer de uma hora pra outra. São vários elementos que fazem muita gente se lembrar de algo que marcou a sua infância ou, pelo menos, algum filme oitentista. E pode ficar sabendo que isso é totalmente proposital, afinal estamos frente a frente com uma divertida, aterrorizante e nostálgica carta de amor da Netflix aos anos 80.

 

Como eu basicamente resumi na introdução, Stranger Things acompanha as consequências de vários acontecimentos ligados a um laboratório do governo instalado na pequena cidade de Hawkins, começando pelo desaparecimento repentino do jovem Will Byers. Possivelmente conectado a testes militares realizados para enfrentar os russos, todo esse mistério leva as famílias envolvidas a uma jornada bem bizarra para salvar o garoto e desvendar uma conspiração nacional.

 

O resultado é um roteiro que claramente se utiliza de vários clichês e elementos reconhecidos dos filmes de terror e aventura da época para criar a sua história. Não é algo necessariamente criativo ou inovador, mas os Irmãos Duffer (roteiristas de Wayward Pines) conseguem fazer uma trama interessante surgir justamente de mistura única entre esses ingredientes. A apresentação dos fatos é muito boa, o desenvolvimento funciona, as revelações valem a pena e o clima que se alterna entre a aventura familiar e o terror conquista o espectador desde os primeiros minutos do programa.

 

A direção – dividida entre os irmãos e o diretor Shawn Levy (Gigantes de Aço e Uma Noite no Museu) – também se torna um fator essencial para o funcionamento da série ao reforçar todo esse clima nostálgico dos anos 80. Eles acertam em cheio na paleta de cores, na reunião de clássicos do rock na trilha sonora, nas muitas referências à cultura pop que situam o espectador no tempo e, principalmente, na reutilização de planos, ângulos e elementos que remetem à época. Eles certamente beberam de uma fonte chamada Steven Spielberg (e outros diretores também, claro) e conseguem reutilizar todos os ensinamentos como uma bela homenagem a trabalhos que marcaram a história do cinema.

 

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Outra grande força de Stranger Things reside nos seus ótimos personagens e, logicamente, nas atuações por trás. A grande maioria possui várias camadas, transmite sentimentos realmente verdadeiros e conquista o espectador logo de cara, tanto que os episódios só perdem o ritmo quando o roteiro decide dar espaço para o fraco Steve (Joe Keery) e seu óbvio triângulo amoroso com Jonathan (Charlie Heaton) e Nancy (a bela Natalie Dyer). E o pior é que até esses dois últimos funcionam quando estão sozinhos ou caçando.

 

Ao contrário, os amigos Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaten Matarazzo) roubam todos os holofotes desde o ínicio com um combo de nerdice, alivio cômico e amizade que fica ainda mais rico e emotivo após a ótima adição de Eleven (Millie Bobby Brown). Eles são os típicos protagonistas dos anos 80 que acabam virando peça central do mistério, crescendo mais a cada decisão tomada e fazendo o público torcer incondicionalmente pela sua vitória, enquanto ela realmente destrói e surpreendente pela quantidade de camadas que apresenta até sua conclusão relativamente batida.

 

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Além deles, quem também ganha um destaque muito merecido é a forte e desesperada Joyce (Winona Ryder destruidora e completamente despida de sua vaidade), o sempre dedutivo e determinado policial Chief Hopper (David Harbour) e o caricato vilão Dr. Martin Brenner (interpretado por Matthew Modine). Apesar de tudo acabar fazendo muito sentido dentro das características da história, é necessário admitir que alguns elementos de cada um deles parece ser aleatório ou desnecessário, incluindo o show de clichês representado pelo chefe de polícia local.

 

Mesmo assim, no final das contas, Stranger Things acaba sendo um produto comercial interessante e divertido, que se desenvolve de forma cadenciada e acertada, encontra alguns sustos pontuais, prende a atenção espectador com mistérios interessantes e conquista todo mundo com aquele clima aventuresco que levou milhares de pessoas para os cinemas na década de 80 (ou para a frente da TV durante a Sessão da Tarde, no meu caso). É um mistura descarada, deliciosa e muito bem aproveitada de ET, Poltergeist, Goonies e Super 8 que merece ser assistida.

 


OBS 1: A série tem muitas referências em citações, easter eggs, aspectos visuais e recursos estilísticos. São tantas que nós vamos reunir as principais em um post à parte para não ficar aqui a noite toda.