AODISSEIA
Séries

Preacher (2ª Temporada)

Da mediocridade para a diversão em um piscar de olhos

27 de setembro de 2017 - 09:05 - Flávio Pizzol

 

Aviso: Esse texto tem spoilers professados em nome do Senhor. Amém!

 

Criada por Garth Ennis, ilustrada Steve Dillon e dotada de uma carga irônica única, Preacher é uma das séries de graphic novels mais reconhecidas e premiadas da história. Em contrapartida, sua adaptação televisiva – comandada pelo trio Sam Catlin (Breaking Bad), Seth RogenEvan Goldberg (Festa da Salsicha) – começou com o pé esquerdo ao apresentar uma narrativa arrastada e presa a uma cidade recheada de personagens que beiravam o insuportável. O tom sarcástico e as loucuras até marcavam presença, mas o saldo chegou bem perto do medíocre. Isso baixou a expectativa de boa parte do público para a segunda temporada, tornando a recuperação ainda mais saborosa.

 

Adaptando o material-fonte com maior fidelidade, a nova leva de episódios se aproveitou do clima road movie para injetar agilidade, concentrar seus esforços na relação do trio principal e jogar alguma luz no desenvolvimento de coadjuvantes pontuais. Preenchida por diálogos verborrágicos e cenas que beiram a blasfêmia (principalmente quando se trata de ironizar os dogmas religiosos), a travessia dos EUA em busca de Deus foi definitivamente a melhor coisa que aconteceu com a série por diversos motivos.

 

 

O principal deles, na minha opinião, é a possibilidade de colocar os protagonistas e suas relações no centro da trama, substituindo a cidade em si. Jesse Custer, Cassidy e Tulip são personagens extremamente ricos, que relacionam através de um romance deturpado com potencial para alimentar todos os episódios sem deixar a peteca cair, e Dominic Cooper (Warcraft), Joseph Gilgun (Misfits) e Ruth Negga (Loving) assumem seus respectivos papéis com vigor e uma dose de senso de humor necessária em um projeto como Preacher.

 

Ao mesmo tempo, o próprio formato de viagem permite que o trio principal tropece com diversos coadjuvantes que também ganham seu destaque pontual. O Santo dos Assassinos, assumindo seu verdadeiro papel como antagonista depois de uma apresentação magnífica na temporada anterior, ganha corpo, questionamentos e muitos momentos de pura psicopatia canalizados por Graham McTavish (Castlevania); Herr Starr encontra um interprete digno em Pip Torrens (The Crown) e se desenvolve como um vilão mais cabeça que já cria algum envolvimento com o espectador desde sua apresentação surrealista e inexplicável através de palavras; e até Fiore (Tom Brooke) ganha uma conclusão profunda e muito bem conduzida no segundo episódio.

 

 

Em segundo plano, uma inesperada dupla formada por Cara de Cú e Hitler – acredite se quiser – nos apresenta um inferno que funciona como uma prisão de segurança máxima, cuja a maior pena é repetir os maiores pecados de seus prisioneiros infinitamente. A hierarquia e o conceito visual são muito bem trabalhados, enquanto um dos poucos personagens que se salvaram entram em outra jornada que tem a essência das HQs. Ian Colletti (Blue Bloods) e Noah Taylor (Game of Thrones) desenvolvem personagens magníficos e só precisam competir com a construção deslocada de sua trama. O final é ótimo (expandindo a mitologia e demonstrando os problemas gerados pelo sumiço de Deus), mas peca por não encontrar com o restante dos plots.

 

E, pra completar, o recheio de tudo isso são as deliciosas cenas de ação que conseguem reunir conceitos inventivos, diversão, enquadramentos criativos, boas coreografias, uma colherada bem-vinda de gore e aquela pitada de insanidade que não poderia faltar em Preacher. O Santo dos Assassinos ser imune ao Genesis, por exemplo, é uma forma muito interessante (e diferente dos quadrinhos) de construir bons momentos de ameaça ao passo que reduz a influência de um poder que consegue resultar tudo. O mesmo pode ser dito de algumas sequências que merecem destaque: a luta contra o torturador com fones de ouvido; a invasão, sem trilha sonora, do prédio dos protagonistas por soldados com fone de ouvido; ou uma coreografia insana, no meio de uma creche, ao som de My Sweet Lord, de George Harrison.

 

 

São pequenos problemas desse tipo que impedem que Preacher decole de uma vez. A evolução positiva de uma temporada para outra é evidente, mas ainda falta aquele algo a mais que a tornaria única. Eu não sei explicar exatamente o que ainda me afasta da série, porém encontro bons palpites na construção emocional do todo, nos roteiros que insistem em pecar na organização de alguns elementos ou na inserção de tretas instantâneas, como a de Cassidy com seu filho no último episódio, para facilitar a conclusão das pontas soltas. Algumas pessoas podem reclamar das questões religiosas tratadas com um jeitinho de blasfêmia, no entanto esse é o grande acerto (junto com a ação e o trio principal, é claro) que colocou a série no eixos de uma vez por todas.

 


OBS 1: Gostei muito da forma como a season finale usou um flashback supostamente aleatório para já adiantar da ressurreição de Tulip e dar pistas dos problemas que esperam nossos heróis na próxima temporada.

 

OBS 2: A confirmação de que Deus se disfarça como um cachorro gigante também é maravilhosa!