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Séries

Séries: Preacher (1ª Temporada)

4 de agosto de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Simplesmente e completamente desnecessário


medium-cover-6A maior parte dos fãs de quadrinhos já leu, ouviu falar ou pelo menos sabe das inúmeras qualidades de Preachergraphic novel desenvolvida por Garth Ennis e Steve Dillon. É exatamente por isso que eu preciso começar tirando elefante da sala: só li dois volumes e gostei bastante, mas não continuei. Não vou analisar as similaridades entre os produtos, entretanto garanto que não precisa ser um leitor para perceber o quão fraca e inútil foi essa primeira temporada.

[“Esse texto terá spoilers” – Odisseia 10.31]

A série, criada para a televisão por Seth Rogen, Evan Goldberg e Sam Catlin (Breaking Bad), nos apresenta a pequena cidade de Annville, seus moradores completamente comuns e, principalmente, o pastor Jesse Custer. O moço retornou, depois de muitos anos, para assumir o lugar do pai na igreja local, mas começa a questionar as decisões divinas após receber um poder misterioso e ver tudo dar errado a sua volta.

Tudo isso nos leva a uma série de decisões estúpidas que não existem (em sua maioria) no material original, que culminam em um final de temporada similar ao início da HQ. Aparentemente, a ideia dos roteiristas era fazer um prequel que possibilitasse um desenvolvimento mais calmo e interessante antes de colocar o pé na estrada, todavia o resultado é um bando de personagens que parecem estar sempre deslocados ou passivos, enquanto as coisas simplesmente acontecem sem nenhum justificativa ou explicação. É impossível torcer ou se importar por nenhum deles, sendo que as coisas não melhoram quando todos morrem e o público percebe que perdeu seu tempo por dez episódios.

E o pior é que isso não chega perto de ser o único problema desse texto que não tem um terço da agilidade e do senso de humor do material original. Os episódios são cansativos, cheio de furos e clichês, apoiados em diálogos baratos que não adicionam nada à trama, posicionando as principais referências à HQ sem nenhuma explicação e jogando as melhores ideias (sim, elas existem) no lixo por pura preguiça de pensar mesmo. Apesar de entregar um finalzinho divertido no nono episódio, todos esses erros podem ser encontrados na história do Santo dos Assassinos, que foi inexplicavelmente dividida entre as aberturas de episódios espaçados sem que o vilão fosse ter alguma relevância para essa temporada.

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Em outras palavras, o grande erro de Preacher foi entregar uma temporada de dez episódios com uma história que poderia ser resolvida em quatro ou sequer existir. Com exceção da união do trio principal (e suas personalidades que mudam de acordo com as necessidades dos roteiristas), da bizarra viagem feita pelo Cara de Cu e do divertidíssimo arco dos anjos, quase nada do que foi feito nesse ano de estréia vai ter real importância na próxima temporada. A pergunta que fica aqui é só uma: porque?

Além de tudo isso, a direção abre mão da criatividade para, na maioria das vezes, ser completamente didática. Dá pra contar nos dedos os quatro episódios onde a série aproveitou toda a loucura e zoeira que a premissa prometia e permitia. Um pouquinho mais desses elementos poderiam ter apimentado e movimentado uma história que mal conseguiu prender a atenção do espectador, seja ele fã das HQs ou não. Existem alguns lapsos de diversão que fazem o episódio valer a pena, mas isso não é o suficiente para manter a audiência em tempos tão competitivos.

Muitas dessas qualidades que aparecem de repente em Preacher estão conectadas ao ótimo elenco, apesar de muitos não terem importância, continuidade entre os episódios ou conexão com a criação de Garth Ennis. Joseph Gilgun está perfeito e extremamente divertido como Cassidy, Ruth Negga entrega uma Tulip violenta e empoderada, Ian Colletti funciona muito bem como Cara de Cu, Graham McTavish demonstra ter muita presença no pouco que aparece e a dupla de agentes angelicais, interpretados por Anatol YusefTom Brooke, tem as melhores cenas do programa em suas mãos.

Infelizmente, esses aspecto também escorrega feio na escolha e no esquecimento de outros bons atores. Apesar de ter uma grande quantidade de roteiros pobres em sua mão, Dominic Cooper não está nem um pouco confortável como o personagem-título e não consegue se conectar com o resto do elenco. Ele não tem carisma e acaba sendo completamente desperdiçado junto com Lucy GriffithsW. Earl BrownDerek WilsonRicky MabeJackie Earle Haley. Uma pena!

No final das contas, Preacher é uma série chata e cansativa que pode ser resumida simplesmente como uma grande combinação de decisões estúpidas, relações mal construídas, mudanças aleatórias de personalidade, ausência de criatividade e momentos que não deveriam se levar tão a sério. Claro que existem algumas boas ideias, mas elas não chegam perto de sustentar uma série que poderia começar a partir da segunda temporada. Na verdade, a minha dica é não perder tanto tempo, pular alguns episódios e voltar depois, torcendo para os roteiristas entenderem o clima da série e desenvolverem os elementos mais divertidos desse universo tão surtado.


 

OBS 1: Os episódios que merecem (ou precisam) ser vistos são o primeiro, o segundo, o sexto, o nono e o último. Pronto.


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