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Séries: Penny Dreadful (3ª Temporada)

22 de junho de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

O desolador e inesperado fim do brilhantismo


PrintE lá se vai a melhor série de terror já produzida e uma das que mais marcaram minha vida. Penny Dreadful apareceu do nada e, sem permitir nenhuma preparação, foi embora de forma desoladora e brilhante. Não, eu não sei que vai ser da minha watchlist sem essa combinação maravilhosa de sangue, minoria e monstros.

A história, inspirada nas histórias de terror vendidas por um centavo na Inglaterra, se tratava da reunião de vários personagens clássicos da literatura em uma mesma trama, tipo uma Liga Extraordinária (só que boa). Nesse contexto, temos lobisomens, vampiros, Conde Drácula, Dr. Frankenstein, Dorian Gray e outros personagens girando em torno dos medos e dilemas sobre a fé de Vanessa Ives.

Uma série que soube começar de forma surpreendente, encontrar o desenvolvimento correto e decretar um final que não estendeu a série por mais tempo do que deveria. Assim, essa terceira temporada separou personagens, trouxe passados não explorados a tona e foi amarrando cada pedacinho (inclusive momentos das outras temporadas) com todo o cuidado do mundo. Até as lendas da tribo Apache surgiram do nada para nos preparar para uma conclusão justa, necessária e muito triste.

É quase indiscutível que os melhores momentos da temporada surgiram da exploração do passado de alguns personagens. Pra variar, Vanessa se destacou com um episódio espetacular sobre sua passagem pelo hospício, mas os outros não ficaram para trás. Ethan Chandler ganhou muto espaço com sua saga pelo oeste americano e John Clare, que também se conectou um pouco mais com Vanessa, apresentou seu melhor arco ao receber uma dose de emoção que foi além do seu ódio unidimensional.

Isso tudo sem contar com a ótima utilização de fatos reais do início do século XX, como a revolução industrial, a extinção dos índios e a luta das sufragistas pelo direito de votar. Inclusive, uma das melhores coisas dos roteiros de Penny Dreadful, boa parte escrito por John Logan (Gladiador e 007 – Operação Skyfall), é justamente a forma como o subtexto de todos os episódios envolve preconceito, minorias de vários tipos e empoderamento feminino. Muito empoderamento feminino.

Josh-Hartnett-in-Penny-Dreadful-Season-3-Episode-9

A direção segue o mesmo padrão de qualidade, aproveitando um visível aumento no orçamento para criar mais cenários ricos em detalhes, melhorar ainda mais os efeitos, deixar os momentos sangrentos cada vez mais bonitos e mais cenas de ação, que contaram até com ótimas sequências de faroeste no arco de Ethan. Tudo é construído com muito ritmo e precisão nos movimentos de câmera, ângulos, sonorização e iluminação para acompanhar um terror feito com muito requinte.

Essa quantidade de elogios voltados para os aspectos técnicos são mais do que merecidos, mas o elenco de Penny Dreadful foi escolhido a dedo para ser uma coisa de outro mundo. Dentro das devidas proporções, Timothy Dalton, Reeve Carney, Rory Kinnear, Billie PiperHarry TreadawayPatti LuPone e até o injustiçado Josh Hartnett exercem seus papéis de forma muito interessante, dividindo ainda a tela com participações menores (mas ótimas) de Simon Russell BealeSarah Greene, Wes StudiChristian CamargoSamuel BarnettPerdita WeeksBrian Cox. Muito luxo que só acaba sendo ofuscado por uma pessoa chamada Eva Green.

penny-dreadful-trailer

A atriz, que mereceria vários parágrafos só pra ela, é uma deusa que construiu um personagem complexo e pesado de forma única, fazendo muitos espectadores chorarem sem precisar falar uma palavra como se fosse uma força da natureza. Cercada por surpresas, decisões poderosas e dilemas filosóficos realmente complexos, não é à toa que Vanessa Ives é o centro, o motor e o motivo de Penny Dreadful existir. De fato, nada poderia acontecer sem ela.

Todos esses acertos e momentos de puro brilhantismo fizeram com que eu (junto com metade da equipe do Odisseia) ficasse muito desolado com esse fim repentino. Entretanto, ao mesmo tempo, também fiquei muito feliz pelo final ter sido realmente pensado como tal e por ter tido a oportunidade de acompanhar essa história maravilhosa. E, se você desistiu de começar por causa do cancelamento, pode voltar por que o alto nível de produção e brilhantismo de Penny Dreadful merecem sua atenção. Terror, suspense e drama reunidos em um produto de alta qualidade. Vale a pena!


OBS 1: A terceira temporada nos presenteou com a cena de sexo mais bizarra já produzida na televisão. Um ótimo exemplo de como fazer cenas sangrentas também serem belíssimas.


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