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Séries

Séries: Narcos (2ª Temporada)

5 de setembro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Quem vai matar Pablo Escobar?


Narcos+season+2+posterNo dia 02 de dezembro de 1993, logo após completar 44 anos, Pablo Escobar tenta fugir de uma de suas casas e acaba morto pela polícia em cima de um telhado qualquer de Medellín. Acabava ali o maior esquema de distribuição de cocaína do mundo. Acabava ali uma caçada violenta de mais uma década para prender um dos traficantes impiedosos e ambiciosos da história. Seja por ter interesse nos fatos ou pelo polêmico spoiler escancarado pelo elenco, todo mundo já sabia que o fim estava próximo e isso tornava a missão da segunda temporada de Narcos um pouquinho mais complicada.

[Esse texto recebeu uma carga de spoilers fresquinha da Colômbia, então cuidado!] 

Partindo dessa expectativa, o roteiro – gerenciado pelos criadores Carlo BernardChris BrancatoDoug Miro – encontra uma ótima saída quando subverte uma das perguntas mais frequentes da dramaturgia mundial, substituindo o clássico “quem matou?” por algo mais parecido com “quem será o responsável por matar Pablo Escobar?”. Assim eles criam uma intensa rede de intrigas e interesses em volta do traficante para desenvolver diversos políticos, cartéis adversários, mulheres vingativas e policiais que poderiam ser os responsáveis por finalizar essa guerra. É claro que uma simples pesquisa na internet acabaria com o mistério para qualquer alienado, mas todas as peças são apresentadas de forma tão fluída que o espectador abraça a tensão até o último instante.

Eles aproveitaram essa base e a necessidade de abordar menos tempo de história para escrever episódios mais centrados, cortando qualquer resquício de enrolação e dando mais importância para os coadjuvantes. Sai de cena um primeiro ano onde os sicários de Pablo mal tinham nome e outros personagens só davam as caras aleatoriamente, e entra uma leva de episódios onde os líderes do cartel de Calí se tornam uma ameaça real, Judy Moncada (Cristina Umaña) deixa as reclamações de lado para colocar a mão na massa, um simples motorista (Leynar Gomez) vira o amigo mais próximo do chefe do tráfico e a esposa do Escobar (Paulina Gaitan) passa a ser muito mais do que uma mulher traída. Até o agente Javier Penã (Pedro Pascal) possui um arco próprio e muito mais interessante do que o do narrador Steve Murphy.

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Cria-se aí um ambiente favorável para os atores descobrirem sua função no panorama geral, encontrarem o tom certo de seus personagens e brilharem em, pelo menos, um momento de destaque. Pedro Pascal (nosso sempre querido Oberyn), Paulina GaitánDiego CatañoMaurice CompteEric LangeRaúl MéndezBruno BichirMartina García e muitos outros cumprem isso com perfeição, enquanto apenas Boyd Holbrook fica restrito apenas a narração e aos sofrimentos amorosos de Steve.

No entanto, eu acredito que isso só é possível porque no centro de tudo ainda está Pablo Escobar (Wagner Moura), um protagonista poderoso, extremamente magnético e muito bem desenvolvido. Ninguém duvida que ele seja um traficante impiedoso, um terrorista e um assassino que acredita ser quase Deus, mas a série separa um bom tempo de tela para mostrar o seu lado mais carismático e amoroso, construindo um bairro para os pobres na primeira temporada e preocupado diariamente com sua mulher e seus filhos dessa vez.

O público chega muito perto de torcer para o traficante sair vivo da confusão que ele mesmo armou, sendo fundamental aqui que Wagner esteja bem mais à vontade no papel de Pablo Escobar. Dono de um espanhol cada vez melhor, o brasileiro cala a boca dos críticos, convence em todos os momentos (sejam eles ameaçadores ou amorosos) e fecha o ciclo do seu personagem com imponência e perfeição. Um trabalho que certamente merece ser coroado por algumas indicações e, quem sabe, vitórias nas premiações voltada para a televisão.

Narcos

Tudo acompanhado de perto pela montagem impecável dos episódios, pela belíssima escolha musical orquestrada por Pedro Bomfman e pelo trabalho dos diretores Gerardo NaranjoJosef Wladyka e Andrés Baiz. São eles os responsáveis por aproximar o espectador de Pablo através da câmera, transitar entre o real e o fictício com ainda mais fluidez e criar cenas de ação de primeira qualidade em todos os episódios, incluindo um plano-sequência de tirar o fôlego no final do sexto episódio e uma perseguição final que culmina na comparação assustadora – e quase poética – e a foto real dos policiais ao lado do corpo do traficante.

Uma nova leva de episódios que conseguiu superar sua ótima primeira temporada com tranquilidade, desenvolvendo melhor tudo que havia sido estabelecido e elevando Narcos a um nível inesperado de quase perfeição. Uma temporada equilibrada, violenta e extremamente tensa que ainda deixou um gostinho de quero mais ao colocar Javier Peña em uma possível nova investigação. Eu não sei como a série lidaria com a ausência de um personagem tão forte e reconhecido como Escobar, mas também estou bastante curioso para acompanhar esse futuro. Que venha o Cartel de Calí!


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