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Séries: Mr. Robot (2ª Temporada)

26 de setembro de 2016 - 17:04 - Flávio Pizzol

O controle é uma ilusão?


mrrobot_s2_keyart_press1Pouco mais de um ano após abalar a televisão americana, Mr. Robot mostrou que as séries podem continuar sendo inovadoras em tempo de remakes e continuações, virou um sucesso avassalador, saiu do Emmy (semana passada) com prêmios relevantes nas mãos e, apesar de alguns problemas que merecem ser comentados, encerrou mais uma temporada com louvor. E a principal pergunta que ficou agora é: quanto episódios serão necessários para recebermos todas as respostas preparadas por Sam Esmail?

[Esse texto tem muitos spoilers. Você está me ouvindo?]

Mas, antes de discutir todos os erros e acertos, vamos tentar explicar a dinâmica de uma temporada construída em torno de uma complexa rede de tramas paralelas, que muitas vezes sequer envolviam os protagonistas e davem pequenos bugs na cabeça do espectador. Dessa forma, acompanhamos Elliot (Rami Malek) ser enganado mais uma vez por sua mente enquanto lidava com alguns meses de prisão, Mr. Robot (Christian Slater) atormentando cada segundo de sua existência, Darlene (Carly Chaikin) tentando manter a FSociety em pleno funcionamento sem seu líder, Angela (Portia Doubleday) virando uma vadia corporativa para se vingar, Phillip Price (Michael Cristofer) tentando reerguer a ECorp através de jogadas políticas bem complexas,  Whiterose (BD Wong) controlando o andamento de seu plano maquiavélico com a precisão de um relógio e a Agente DiPierro (a linda Grace Gummer) caçando todas as pistas para fechar a investigação relacionada aos ataques orquestrados na temporada passada. Isso sem contar com a presença ilustre de Ray (ótima e inusitada participação de Craig Robinson) e Joanna (Stephanie Corneliussen) guiando o público na busca por pistas de Tyrell (Martin Wallström). Ufa!

São tantas tramas, conexões, pistas e mistérios que a temporada precisou encomendar dois episódios a mais para tentar amarrar tudo. Não seria justo dizer que a série não conseguiu cumprir essa missão, afinal entregou explicações coerentes (e surpreendentes, em alguns casos) para toda a história de Joanna, a paranoia de Elliot, a fase 2 do plano estabelecido com a Dark Army e o papel de Angela no imenso tabuleiro de xadrez organizado até aqui. Mesmo assim, é necessário ressaltar que o roteiro precisou abrir mão de várias saídas fáceis para fazer isso, incomodando muita gente com revelações praticamente escondidas e as referências constantes a termos extremamente técnicos da tecnologia da informação.

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Uma boa parte desses está presente nos títulos e, teoricamente, ajudariam a entender o episódio por criar paralelos com a história em si. O problema é a maior parte do público (inclusive eu) precisava ir direto para reviews semanais ou fóruns de discussão para entender certos aspectos. Está certo que Mr. Robot já tinha se estabelecido como uma série complexa e difícil de ser assistida pelos espectadores comuns, mas abusar dessa complexidade acabou quebrando a dinâmica e deixando o desenvolvimento de toda a temporada mais arrastado.

Apesar desses pequenos incômodos, o roteiro (construído de forma minuciosa e acertada, por sinal) entrega recompensas valiosas para o espectador habitual, incluindo cenas gravadas em realidade virtual e um sexto episódio, que pode ser facilmente considerado uma das melhores coisas já feitas na televisão. Todo o início preparado dentro da dinâmica de sitcom criou referências com a própria televisão, trabalhou ótimas metáforas visuais, brincou com a percepção do público e ainda coroou tudo com vários planos sequência que desmontavam uma realidade falsa (dentro de outra realidade falsa) que Mr. Robot preparou para proteger seu filho.

São momentos dignos de aplausos que valem quase a temporada completa, assim como todo o caminho traçado em torno de Tyrell Wellick. Várias pistas foram entregues durante a temporada, inúmeras teorias mexeram com a internet de uma forma parecida com o que Lost fez na sua época e a dúvida continuou no ar, mesmo após um final que, na minha opinião, funciona como uma enorme referência aos minutos finais de Clube da Luta. Sam Esmail nos privou da verdadeira revelação para criar outro grande cliffhanger e eu ainda estou incomodado com o fato de que a homenagem só pode ser confirmada com o roteiro revelando que Tyrell é mais um alter ego de Elliot.

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Uma teoria muito difundida na rede mundial de computadores que me leva a outra preocupação: Mr. Robot não pode ficar dependente de grandes reviravoltas relacionadas a mente do seu protagonista em todas as temporadas. É uma tática que tem funcionado e gerado muito comentário até então, mas pode se tornar um recurso batido e óbvio no decorrer da série. É por isso que eu gostei da rápida resolução da loucura na prisão ainda na metade da temporada e estou torcendo muito para o início da terceira temporada revelar que Tyrell está vivo, quebrando todas as expectativas e possibilidades. Infelizmente, teremos que esperar quase um ano para compreender essas e outras respostas entregues parcialmente até aqui.

Além de assumir a responsabilidade por esse roteiro aparentemente sem furos, Sam Esmail também foi o responsável por dirigir todos os 12 episódios dessa temporada e, algo que começou como uma forma de controlar tudo que seria mostrado para o público, acabou revelando um grande conhecedor da linguagem cinematográfica. Ele é o responsável por todas as metáforas visuais, as grandes ideias ideias referentes ao episódio da sitcom e, principalmente, por adicionar um pouquinho mais de dinâmica ao texto. São planos-sequência super complexos, cortes certeiros que mexem com a tensão e vários enquadramentos que não são nada comuns na televisão. Junto com o texto bem difícil de entender, isso pode ser um dos fatores relevantes na hora de analisar a baixa audiência.

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Eu sempre fico impressionado com a forma como os personagens parecem ficar quase fora do quadro, enquanto a câmera mostra várias coisas em segundo plano, desde um opressor fundo preto até algum acontecimento importante. Também preciso admitir que não consigo parar de pensar na solução que ele encontrou para apresentar o ataque ao restaurante mexicano no final do décimo episódio. Como assim ele deixou a câmera completamente parada em uma esquina afastada, enquanto atiradores desciam de motos com metralhadoras e destruíam tudo com personagens importantes lá dentro? Mais uma solução genial que mexeu com a percepção e a imaginação do público de um jeito que, certamente, ninguém está acostumado.

E é claro que não podemos esquecer das brilhantes atuações que ele conseguiu extrair de um elenco premiado e cada vez mais confortável com seus respectivos papéis. Rami Malek já preparou o caminho para concorrer a mais um Emmy, Martin Wallström conseguiu gerar uma curiosidade inexplicável em aparições muito pequenas, Craig Robinson me surpreendeu em um ótimo papel fora da comédia, e BD Wong explodiu cabeças em cada monólogo recitado lentamente em trajes masculinos e femininos. Entre as mulheres, Portia Doubleday encontrou um equilíbrio perfeito entre instabilidade emocional e força (mudando, inclusive, gestos e postura de acordo com cada necessidade), Carly Chaikin roubou os holofotes com as decisões emocionais de sua personagem, a bela Stephanie Corneliussen terminou o episódio final completamente assustadora no papel de manipuladora e Grace Gummer surgiu como uma adição importante e perfeita. Ah, e Christian Slater simplesmente zerou todas as fases dos jogos de atuação com sua personificação espetacular do Mr. Robot, principalmente no repetido e aclamado episódio da sitcom.

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Isso tudo faz com que Mr. Robot continue sendo – sem dúvida nenhuma – uma das melhores séries americanas do momento. É uma série lenta e complexa que quase nunca escolhe cenas de ação cheias de adrenalina para prender o espectador e é muito provável que esse seja um dos seus grandes diferenciais. Admito que a grande quantidade de termos técnicos, as idas e vindas temporais sem muita explicação e alguns cortes bruscos atrapalharam o desenvolvimento e fizeram com que o segundo ano fosse um pouco inferior a temporada de estréia, mas isso ainda não tirou o brilho do programa. Mr. Robot ainda merece a tentativa e o seu voto de confiança, afinal ainda faltam muitas respostas (e perguntas, é claro!).


OBS 1: Quem quiser saber um pouco mais sobre as teorias criadas em torno do final pode ler as reviews semanais que o Alexandre Bonfá fez para o site Série Maniacos. Eu acompanhei as discussões por lá para entender várias coisas e ele fala com mais profundidade sobre alguns pontos da trama.

OBS 2: As teorias para a próxima temporada já começaram a pipocar em vários sites, como o Inverse.

OBS 3: A cena em que Leon (Joey Bada$$) age como um super ninja para salvar Elliot é uma das melhores da temporada. Só não encaixei no texto porque é bem aleatória.


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