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Séries

Séries: Mindhunter (1ª Temporada)

David Fincher te convida para mais uma viagem pelas mentes assassinas

20 de outubro de 2017 - 11:30 - Flávio Pizzol

 

A mente humana é uma das coisas mais complexas e misteriosas da natureza, logo sempre foi um tema de grande interesse em meios acadêmicos, científicos e artísticos. O assunto ganha ainda mais corpo quando mergulha nas pequenas armadilhas que podem transformar uma pessoa comum em um assassino sem nenhum remorso. Não por acaso, a literatura, o teatro e o cinema estão recheados de obras – desde clássicos como “Hannibal” até o pouco conhecido romance brasileiro “O Sorriso da Hiena” – que se prezam a identificar e dramatizar essas personas clássicas, o surgimento do mal ou as consequências dos seus atos. Mais nova empreitada original da Netflix, Mindhunter é mais um desses exemplos e ter algum interesse pelo tema (como eu tenho) já é o primeiro passo para compreender a proposta da série.

 

Baseado no livro de John E. DouglasMark Olshaker, o programa acompanha dois agentes do FBI e uma professora de psicologia que decidem entrevistar assassinos em série condenados em busca de entender suas mentes, resolver crimes atuais e dar o pontapé naqueles que seriam os primeiros passos dos perfis psicológicos que formam a base da psicologia criminal. Se você já assistiu qualquer filme onde a polícia precisa localizar algum serial killer desconhecido, sabe do que eu estou falando e vai reconhecer várias referências, como a própria denominação dos criminosos em questão, que enriquecem a experiência.

 

 

No entanto, por mais que todo o contexto seja abordado, toda a trama de Mindhunter gira em torno de Holden Ford, o agente que decide começar as entrevistas por pura curiosidade. Isso fica claro quando o ótimo primeiro episódio se foca totalmente no personagem e nos fatores que o levam ao universo da série, mas não para por aí: todos os diretores insistem em emparelhar o ponto de vista do público com o dele, fazendo com que até os movimentos de câmera mais simples acompanhem o deslocamento dele no lugar de qualquer outro companheiro de cena. É um trabalho muito sutil, porém significativo dentro da série, visto que Ford é quem tem os arcos mais importantes – tanto pessoal quanto profissionalmente – para essa temporada.

 

Jonathan Groff (Looking) assume a função com vigor de um veterano e constrói um personagem cheio de camadas e falhas que dificultam seu encaixe na própria sociedade. Mesmo sem mergulharmos no passado dele, o trabalho de texto e atuação nos entrega alguém que convive com uma paranoia movida pela insegurança, sente alguma necessidade inerente de provar seu valor em qualquer âmbito da vida e, acima de tudo, possui dificuldades de relacionamento que o aproximam de seus objetos de estudo. Os diálogos com sua namorada (Hannah Gross) e seu parceiro Bill Tench criam, desde o primeiro episódio, um contraponto valioso para a apresentação dessa personalidade até se perderem em uma falta de desenvolvimento que realmente atrapalha o decorrer da série.

 

 

Holt McCallany (Sully: O Herói do Rio Hudson) consegue brilhar como o único agente que compra a ideia de Holden, mas não pode fazer muita coisa quando o roteiro decide ignorar parcialmente qualquer outro elemento que não seja sua própria relação com o protagonista ou o FBI. De certa forma, o mesmo acontece com a psicóloga interpreta por Anna Torv (Fringe), já que todo o seu plano de fundo envolvendo preconceito e solidão são apresentados sem ter nenhuma implicação mais importante para a trama. Infelizmente, essas decisões viram bolas de neve que dificultam a compreensão de sentimentos ou decisões que acompanham – e enfraquecem – o terceiro ato da narrativa.

 

Mesmo assim, a relação entre os três e a instituição (representada pelo chefe concebido por Cotter Smith) é uma das melhores coisas de um trama que ainda pode ser dividida em outras três “subtramas” paralelas: as entrevistas com os criminosos que formam o cerne da pesquisa, os casos resolvidos através do mesmo estudo e a revelação de um possível serial killer na maior parte das cenas que abrem os episódios. O último elemento encerra-se de forma inexplicavelmente aberta (se alguém entendeu a função de tudo aquilo, pode me explicar), mas os primeiros tópicos cumprem sua função com precisão ao permitir o tal mergulho na mente dos assassinos e deixar um gostinho da aplicação da metodologia de Holden Ford através de deduções e interrogatórios no melhor estilo Sherlock Holmes.

 

 

Dentro desse contexto, as entrevistas se tornam preciosidades que que escancaram o talento do roteirista Joe Penhall (do magnífico A Estrada) e sua equipe, principalmente em relação aos diálogos recheiam 95% da temporada. Apesar de ter assassinos bastante violentos como elemento central da trama, Mindhunter prefere substituir as imagens sanguinárias – que poderiam levar ao choque sem propósito – por conversas recheadas de tensão, frases marcantes e um toque de sarcasmo que ajuda a traduzir as características distintas de cada um dos entrevistados. É impossível piscar quando Cameron Britton (um ator pouco conhecido que rouba todos os holofotes como Ed Kemper), Happy Anderson (Gotham) e Jack Erdie (Tudo por Justiça) surgem em cena como os psicopatas em questão e estabelecem as primeiras linhas de diálogo com os agentes.

 

Pra completar o jogo, David Fincher (produtor e diretor de quatro episódios da série) também faz escolhas estéticas que ajudam a destacar Mindhunter em meio a tantas incursões dentro do mesmo tema. A fotografia em tons de bege cria uma ambientação sóbria e envelhecida que funciona em conjunto com o aspecto setentista da série, a utilização das cores esclarecem pequenos detalhes dos personagens (observem a sutil diferença de iluminação do FBI, do apartamento de Holden e da casa de sua namorada), os pequenos planos-sequência e os planos detalhe exploram os cenários com uma pitadinha de suspense e o minimo de didatismo possível, a montagem dita um ritmo certeiro para um projeto que tinha tudo pra ficar arrastado, e as escolhas sonoras – tanto a trilha repleta de clássicos, quanto o design de som que coloca tiros no segundo plano de todas as cenas ambientadas em Quantico – cumprem sua função como construção de clima e tensão. Andrew Douglas (Horror em Amityville), Asif Kapadia (documentarista responsável por Senna e Amy) e Tobias Lindholm (Guerra) completam a lista de diretores de forma positiva, adicionando sua voz enquanto adotam as regras da cartilha de Fincher com afinco.

 

 

No final das contas, Mindhunter tem charme e qualidade textual suficientes para prender a atenção do espectador com ótimos diálogos, personagens complexos e uma história recheada por aquela tensão que parece ser inerente ao cinema de David Fincher. Acaba falhando no desenvolvimento de algumas subtramas paralelas (o gato e o diretor da escola passam perto de ser um excesso desnecessário) e no aprofundamento dos coadjuvantes, mas nada disso compromete um mergulho valioso pela mente de agentes do FBI, psicólogos e psicopatas. Além disso, as pontas soltas dão margem para um possível crescimento das tramas na já confirmada temporada. Mindhunter oferece uma viagem lenta e melancólica que pode afastar parte do público, porém já pode entrar para a lista de grandes acertos da Netflix.

 


OBS 1: Olhando para relação de Fincher com o tema para esclarecer o tom da série, pode-se dizer que Mindhunter está muito mais próxima de Zodíaco do que de Seven – Os Sete Crimes Capitais.