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Séries

Séries: Legion (1ª Temporada)

1 de Abril de 2017 - 14:00 - Flávio Pizzol

A versão mais surtada e criativa da Marvel


Desde os lançamentos de Blade (1998) e X-Men (2000), os super-heróis invadiram o cinema de uma forma que nenhum especialista jamais cogitou e, na opinião de alguns, já está chegando ao seu ponto de saturação. A televisão se tornou uma zona de escape para certos personagens sem espaço na telona, gerando Arrow, Flash, Supergirl, Gotham, Legends of Tomorrow, Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage, Punho de Ferro e Agents of S.H.I.E.L.D. Tudo em menos de cinco anos. Agora foi a vez da FX (um dos melhores canais da atualidade) entrarem nesse jogo com Legion.

No entanto, já é bom avisar que a série ignora – quase completamente – as complexas linhas temporais da Fox e o material de origem desenvolvido por Chris Claremont e Bill Sienkiewicz. Pegando carona no sucesso de Deadpool e Logan e aproveitando a liberdade criativa da TV a cabo, Noah Hawley (Fargo) faz com que sua versão de David Haller (um dos personagens mais poderosos de toda a Marvel) seja muito mais do que uma série sobre mutantes ou super-heróis.

As extravagâncias típicas da nona arte, as referências a Charles Xavier e a essência do heroísmo marcam presença em momentos pontuais, porém Hawley concentra seu esforço em brincar com a linguagem cinematográfica e jogar o público diretamente na mente do seu protagonista. São formatos de tela que mudam dentro do mesmo episódio, filtros coloridos que ocupam os cenários exagerados, cenas que parecem extraídas diretamente de um terror dos anos 80, representações de poderes que extrapolam a realidade, sequências editadas com precisão e outras soluções visuais que impressionam e, possivelmente, também afastam uma parcela do público acostumada com histórias muito certinhas.

As escolhas sonoras de Legion também são um show à parte, incluindo desde músicas – entre Pink Floyd e Nina Simone – que reforçam as viagens psicodélicas até alguns momentos onde o toque de mestre está na ausência literal de qualquer barulho. É essa união improvável entre imagem e som que entrega os momentos mais surpreendentes da série: um clímax que emula um filme completamente mudo e uma sequência musical envolvendo transições coloridas, Aubrey Plaza (vou voltar a falar dela já já) e uma versão eletrônica de Feeling Good. Só para efeito de comparação, poucas coisas me deixaram de boca aberta como esses dois momentos.

Ao contrário do que costuma acontecer nas séries de TV, o roteiro também funciona como uma engrenagem importante no funcionamento de toda essa loucura, abrindo mão das explicações óbvias e mergulhando o espectador em discussões metafisicas/existenciais. Pode criar confusão na maioria das vezes, mas o texto de Hawley controla meticulosamente os momentos em que precisa emocionar, inovar ou apenas nos guiar através de tantas subtramas. E, por incrível que pareça, até esses momentos mais didáticos, que surgem principalmente nos últimos episódios, roubam a cena por sua criatividade.

Dan Stevens (A Bela e a Fera) lidera o elenco de Legion com a dose exata de confusão, nonsense e personalidade, ao mesmo tempo em que seu inesperado romance com a personagem de Rachel Keller (Fargo) serve com uma espécie de âncora emocional para a trama. Jeremie Harris (Person of Interest) e Jean Smart (O Contador) funcionam como guias para o desconhecido e brilham nos primeiros episódios, enquanto Jemaine Clement (O Que Fazemos nas Sombras), Bill Irwin (Interestelar) e Amber Midthunder (A Qualquer Custo) só crescem e acabam roubando todos os holofotes a partir da metade da temporada. Inclusive, a dinâmica dos “irmãos siameses” que se fundem é uma das minhas coisas favoritas da série.

Talvez eles só percam para o multifacetado – e diabólico – vilão, dividido entre Lenny, Demônio dos Olhos Amarelos e Rei das Sombras (clássico arqui-inimigo do Professor X nos quadrinhos). Mesmo sendo imaginado inicialmente como um senhor de meia-idade, Aubrey Plaza (Os Caça-Noivas) aparece uma vez e já toma conta da série com seu misto de loucura, sensualidade e desejo de vingança. Sua possível união com o hilário Jemaine Clement pode resultar em algo ainda melhor, mas já deixo avisado que ela merece, no mínimo, ser indicada ao Emmy desse ano.

No final das contas, Noah Hawley dá uma aula sobre modos não-convencionais de se contar uma história. Apesar de não ter dinheiro para efeitos grandiosos nem dedicar muito tempo de tela para cenas de ação, a série prende o espectador pelo excesso de criatividade, edição certeira, trilha sonora magnífica e surpresas que vão muito além de um plot twist. Além disso, é simplesmente delicioso poder assistir uma série que se permite sair da zona de conforto e quebrar paradigmas da televisão que não existe outra conclusão possível: Legion é a melhor série de super-heróis da história e, provavelmente, uma das melhores coisas que você vai ver em 2017.