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Séries: The Last Man on Earth (3ª Temporada)

16 de maio de 2017 - 11:00 - Flávio Pizzol

O tortuoso e inconstante caminho para fim do mundo


The Last Man on Earth estreou com grande potencial: a jornada solitária e bizarra do único sobrevivente do planeta gerou um dos melhores episódios de comédia de 2015. Eram 40 minutos (episódio duplo) de puro humor nonsense que rapidamente foram substituídos por um clima de sitcom com foco na convivência dentro de uma comunidade em reconstrução. A série perdeu o seu rumo durante essa transição e entregou uma primeira temporada problemática, porém recuperou seu fôlego em um segundo ano quase perfeito. Considerando isso, preciso informar com muito pesar que, infelizmente, os roteiros dessa terceira temporada não conseguiram manter a coesão e a maturidade adquiridas durante tal trajetória.

[Se você não viu a temporada completa ou quer se surpreender com as consequências do apocalipse, saia desse texto…]

Em primeiro lugar, não foi realmente interessante ver a série substituir a relação tão poderosa e genuína que Tandy tinha com seu irmão (Jason Sudeikis) por algumas mudanças de cidade, ameaças naturais e dilemas internos um tanto quanto repetitivos. Essa troca gerou uma certa ausência de unidade dramática entre os dezoito episódios da temporada, apoiando o desenvolvimento da trama em reviravoltas que parecem aleatórias ou forçadas demais. É como se o roteiro tirasse um vulcão (ou, no caso da série, uma explosão nuclear) da cartola só para fazer os personagens saírem dos seus respectivos status quo.

A fraqueza presente no contexto prejudica inclusive os episódios onde a série solta qualquer amarra em prol de momentos realmente corajosos. Só pra exemplificar, essa temporada repetiu a mesma estratégia do ano anterior ao retornar do seu hiatus sem mostrar o grupo principal em nenhum momento, focando em uma personagem inédita interpretada por Kristen Wiig (Caça-Fantasmas). Ela segurou o episódio com perfeição e até gerou uma espécie de analogia poética com o começo de tudo, porém não teve um terço do peso dramático que permeou o retorno de Mike Miller à Terra anteriormente. Não existia motivo para o espectador se importar com ela e seu retorno nos últimos minutos do 18º episódio não conseguiu tirar aquele gostinho duvidoso da boca.

Esses problemas parecem se repetir quando a série precisa encerrar algum arco de forma instantânea. Eu, por exemplo, não consegui entender até agora porque a primeira metade da temporada investiu tanto tempo na introdução de Lewis (Kenneth Choi) e posterior evolução do relacionamento com o protagonista para simplesmente matá-lo sem mais nem menos. Com exceção de uma ótima oração feita por Tandy em seu velório e algumas referências ao Brasil, o acontecimento não teve nenhuma repercussão no decorrer dos episódios. O mesmo pode ser dito sobre a ameaça exercida pelo misterioso Pat Brown (Mark Boone Junior): ele motivou a mudança dos protagonistas nos primeiros episódios, gerou alguns pesadelos e foi descartado sem nenhum suspense no último minuto do segundo tempo.

Todas essas considerações são válidas, porém não significam que The Last Man on Earth tenha esquecido das suas maiores virtudes. O senso de humor continua sendo um ponto alto da série e mesmo os episódios mais aleatórios conseguem divertir graças a transição eficiente entre comédia física, escatológica, depreciativa, sarcástica e referencial. Os roteiros – conduzidos pelo protagonista, Will Forte – sabem como extrair o melhor de situações que se dividem entre o nosso cotidiano e o absurdo de um ambiente pós-apocalíptico, indo com facilidade de uma piada sobre cocô para uma referência brilhante a Mad Men durante uma curta participação de Jon Hamm.

Além disso, não é toda série que tem a coragem de pular seis meses dentro da narrativa sem nenhum aviso prévio, ignorar acontecimentos importantes e ainda tirar sarro do próprio espectador que não acompanhou nada que estava esperando acontecer. Pode parecer falta de consideração com o público semanal, mas é só jeito peculiar de uma série que tira sarro de tudo e prefere – quase literalmente – perder o amigo a esquecer uma piada idiota. É uma forma básica de agradar tanto quem prefere relaxar com uma comédia boba, quanto quem busca um texto mais refinado, cheio de críticas políticas ou brincadeiras com a cultura pop.

Ao mesmo tempo, The Last Man on Earth nunca esquece justamente que sua trama está localizada em um mundo desolado, perigoso e solitário, tornando-se assim uma das poucas séries desse formato que sabe como usar o drama e o suspense a seu favor. Inclusive, essa temporada se superou e pesou a mão em perigos reais desde o arco envolvendo a loucura de Pat até o possível suicídio de Gail, passando ainda pelos recém-descobertos problemas mentais de Melissa e o parto problemático de Erica. Nenhuma chance de adicionar essas camadas é perdida, porém os roteiros tomam muito cuidado para não caírem no melodrama barato (o programa assume que é uma comédia e se permite quebrar qualquer clima pesado com alguma estupidez). Assim como acontece em Guardiões da Galáxia Vol. 2, isso é um mérito e não um problema de tom.

Colocando a cereja no bolo, posso afirmar que os grandes culpados por fazer essa grande bagunça funcionar não são nem os roteiristas nem os diretores, e sim o elenco cada vez mais carismático e entrosado. Will Forte (Nebraska) é um gênio da comédia que consegue casar sua persona expansiva tanto com os diálogos bizarros de Kristen Schaal (BoJack Horseman) e quanto com a ingenuidade inerente de Mel Rodriguez (Better Call Saul). O último perdeu um pouco do seu espaço habitual, mas seu personagem acompanhou Cleopatra ColemanMary SteenburgenJanuary Jones – menos insuportável na versão surtada – em jornadas paralelas que também tiveram um certo valor para o todo.

O resultado foi uma temporada um pouquinho abaixo da média, mas nenhum alerta precisa ser ligado para The Last Man on Earth. Mesmo prejudicada pela falta de coesão e/ou peso narrativo entre os dezoito episódios, a série parece estar cada vez mais segura da sua temática e dos seus pontos fortes, aproveitando com brilhantismo seu tom de “dramédia” para continuar sendo um ponto fora da curva na televisão aberta. Que venham temporadas ainda melhores de uma série que merece ser assistida de qualquer jeito. Mesmo quando derrapa em algumas esquinas dessa estrada tortuosa para o fim do mundo.


OBS 1: O hall de participações especiais de famosos em The Last Man on Earth aumentou esse ano, incluindo Jon Hamm, Laura Dern e Kristen Wiig em uma lista que já tinha Will Ferrell, Jacob Tremblay, Alexandra Daddario, Mark Boone Junior e Jason Sudeikis.

OBS 2: Se o foco na segunda temporada foi o corte de cabelo bizarro de Tandy, esse ano concentra milhares de piadas nas sobrancelhas dele. Duvido que alguém consiga ficar sem rir…