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Um lado ainda mais sombrio e tenso da Marvel

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Após o sucesso de Demolidor, Jessica Jones tinha a responsabilidade de mostrar que sua antecessora não foi um acerto de principiante. E, para a nossa sorte, o resultado foi a confirmação de que a Marvel acertou na decisão de levar seu universo mais adulto para a televisão.

A série, que conta com uma protagonista bem menos conhecida do que o Homem sem Medo, segue uma mulher (a primeira protagonista das adaptações da Marvel) que precisa lidar com os traumas do seu passado enquanto usa seus super-poderes para atuar como detetive particular em Hell’s Kitchen. O problema só aparece mesmo quando – como em todo bom filme noir – o passado volta para assombrar Jessica Jones na pela de Kilgrave.

O roteiro, comandado por Melissa Rosenberg (que, por incrível que pareça, é a roteirista de Crepúsculo), sabe construir e amarrar toda essa história de maneira muito simples e interessante, usando basicamente alguns flashbacks propositalmente espalhados para explicar o passado da protagonista aos poucos e ainda prender toda a atenção do espectador. E pode ter certeza que a tática funciona, porque a vontade de continuar a temporada só vai aumentando após cada episódio.

Nesse contexto que cria um roteiro mais fluido e sem espaços para histórias desnecessárias, o outro grande acerto do roteiro está em centrar toda a trama no confronto entre Jessica e Kilgrave e apostar todas as suas fichas em um bom desenvolvimento psicológico de ambos. Assim temos uma protagonista que não consegue esconder sua fragilidade por trás da sua super-força e um vilão perfeitamente construído para ser o melhor vilão da histórias das adaptações da Marvel.

E presença desse antagonista é tão forte dentro da série que ele consegue prender o público até quando não é o vilão do episódio, sendo que ele está sempre pairando e deixando alguma suspeita a cada esquina. A questão é que ao mesmo tempo em que isso é uma grande qualidade da temporada, ela também consegue atrapalhar um pouco o início da temporada. Ao contrário do que aconteceu com Demolidor, Jessica Jones só me prendeu de maneira efetiva após o sétimo episódio, que é onde o vilão cria sua primeira grande aparição e passa a ter uma participação mais constante.

Entretanto essa dificuldade também se deve ao fato de que a direção dos episódios, principalmente nas cenas de ação, é muito mais fraca aqui do que na série anterior. Enquanto Demolidor já finaliza seu segundo episódio com um plano sequência de ação complexo e muito bem executado, Jessica Jones apresenta alguns momentos que são bem inferiores aos realizados na TV aberta em séries com Gotham e Agents of SHIELD.

É claro que existe o fator de que ela não é uma especialista em artes marciais nem uma lutadora treinada, mas isso não pode ser uma desculpa para justificar o uso de efeitos especiais fracos e, principalmente, jogos de câmera que não favorecem nem um pouco a pancadaria. A impressão que eu fiquei é que os diretores não conseguiram achar um jeito de representar os poderes de Jessica e acabaram se contentando com a utilização tosca de cabos para fazer os vilões voarem após cada soco extremamente forte da personagem.

Mesmo assim, isso não prejudica tanto a série, porque o roteiro acerta ao ir concentrar todo o seu verdadeiro potencial nas investigações, nos seus personagens ena grande quantidade de tensão existente entre eles. E, nesse caso, os pontos positivos são deixados claros em episódios brilhantemente carregados de bons diálogos, momentos de puro suspense e atuações inspiradas de um dos melhores castings já realizados na história das séries.

Digo isso sem medo de errar, porque Krysten Ritter e David Tennant são forças da natureza. Ela com toda a construção de uma personagem que, mesmo sendo independente e literalmente forte, possui uma fragilidade gigantesca e muitos pensamentos conflitantes em relação às suas ações e ao seu lugar na sociedade. Enquanto isso, ele dá vida a um vilão que possui um poder espetacular e usa isso para fazer todo o mal que ele pode sem assumir responsabilidades.

Claro que nesse meio a série ainda apresenta alguns bons coadjuvantes, como Rachael Taylor, Eka Darville, Carrie Anne-Moss e Mike Colter (que vai ser a estrelada próxima série, Luke Cage). ELes cumprem seus papéis de maneira correta, mas seria injusto dizer que algum deles tem a força necessária para superar a sinceridade das expressões de Ritter e a genialidade de uma composição carismática e odiosa de Tennant.

E no fim das contas, Jessica Jones acaba sendo uma série que acerta nas boas doses de drama e suspense, enquanto prende seu público por conta de um bom roteiro e de um elenco principal excepcional. Tem alguns erros que incomodam um bocado, mas é um exemplo perfeito do valor de uma boa protagonista feminina e de que essa parceria entre Marvel e Netflix é o caminho certo para contar histórias cada vez mais tensas, sangrentas e sombrias.

OBS 1: As cenas de ação vão melhorando com o decorrer dos episódios, mas ainda ficam muito abaixo do nível estabelecido em Demolidor.

OBS 2: Outro grande acerto da série é gastar algum tempo dos episódios para amarrar as histórias paralelas e deixar tudo engatilhado para uma provável segunda temporada.

OBS 3: David Tennant constrói Kilgrave de uma maneira tão espetacular, misturando psicopatia, sarcasmo e carisma em doses exemplares, que ele acaba se tornando um daqueles que fazem o público torcer para que ele não morra. Afinal, o que será de Jessica Jones sem David Tennant?

OBS 4: Só lembrando que Krysten e David vão estar no Brasil durante a CCXP. Corre que ainda tem ingresso!

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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