Séries: Flash (3ª Temporada)

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Todas as escolhas tem suas consequências


Esse é um mantra incontestável que vai desde os ditos populares até as leis primordiais da física, passando pelas regras de ouro para a construção de um bom roteiro. No caso de Flash, as consequências – negativas na maior parte do tempo – estão cada vez mais enraizadas tanto nas péssimas decisões dos roteiristas, quanto do próprio herói. O resultado foi uma daquelas temporadas que só me permite listar os principais problemas em busca de alguma luz, passando em alta velocidade, no fim do túnel.

[Atenção: Essa crítica tem muitos spoilers. Só isso…]

E o ano já começou concretizando o meu maior medo: o Flashpoint durou apenas um episódio, com seus efeitos sendo realmente estendidos até, no máximo, a metade da temporada. O roteiro insistiu na desculpa que Savitar – e tudo que ainda vai ser abordado em algum ponto dessa crítica – foi causado pela decisão estúpida de voltar no tempo, mas a verdade é que isso foi usado pra encobrir o desperdício total de um dos principais arcos do personagem. As consequências daquela realidade são tão genéricas que a culpa poderia estar relacionada com qualquer outra viagem no tempo ocorrida durante a temporada. E olha que o Barry não faz poucas durante os 23 episódios…

Mas antes de voltar nesse assunto, vamos falar sobre a forma como o seriado insiste em repetir todas as suas tramas incessantemente. Aceito que as abordagens e temáticas que embrulham os confrontos com Flash Reverso, Zoom e Savitar são bastante diferentes, porém preciso afirmar que a estrutura narrativa, o conteúdo continuam exatamente os mesmos. É só parar pra pensar que todos os três vilões são velocistas mascarados influenciados por alguma incoerência temporal. Se isso não for o bastante, tente relembrar como as substituições questionáveis de Harrison Wells (Tom Cavanagh) sempre levantam alguma suspeita vilanesca ou como os personagens continuam sofrendo e agindo pelos mesmos motivos. É simplesmente repetitivo.

A consequência imediata disso é um desenvolvimento fraco e extremamente previsível, considerando ainda que nem as formas de construir uma grande revelação sofreram grandes alterações no decorrer das temporadas. Vai ficando cada vez mais fácil antecipar os movimentos de boa parte dos personagens e isso desconstrói qualquer possível surpresa do show. Qualquer pessoa atenta ou acostumada com seriados de televisão aberta conseguiria perceber que Julian era o Alquimista, que o Wally iria conseguir seus poderes através do mesmo vilão e que Iris não iria morrer daquela forma depois de tantas repetições da cena em questão.

 

A identidade de Savitar, em contrapartida, conseguiu ficar bem escondida por mais algum tempo dentro da sua armadura de vilão fake do Max Steel. Enquanto ele repetia as mesmas ameaças do Zoom e se escondia sob uma escolha de design horrorosa, poucos espectadores comuns conseguiram compreender que aquela era alguma versão do Barry. O problema é que, assim como fez nas temporadas anteriores, o roteiro achou que mais tempo de mistério geraria mais expectativa, esperou todas as possibilidades se esgotarem e perdeu boa parte do impacto que resultaria do convívio do grupo com o vilão (vide a quinta temporada de Arrow). Pra piorar, eles ainda inventaram uma origem tão mirabolante que o Cisco precisa literalmente desenhar a explicação no quadro.

O roteiro também é bastante conveniente. Personagens somem sem nenhuma justificativa quando o episódio não precisa deles, novos poderes surgem do nada porque o herói precisa descobrir o futuro brotam e até viagens ao passado podem ser feitas sem gerar nenhum problema, apesar da temporada inteira girar em torno dos problemas causados por um retorno inconsequente ao passado. É só o personagem ficar preso em alguma encruzilhada ou a narrativa precisar de alguma saída que os roteiristas simplesmente inventam alguma coisa da forma mais preguiçosa possível, sem pensar na mitologia criada ou no próprio futuro. É muito mais fácil apostar no didatismo exagerado e nas desculpas esfarrapadas quando a hora chegar.

Algumas dessas desculpas são tão desleixadas que nos levam diretamente para o tópico: “decisões descaradamente estúpidas e preguiçosas“. É sério que os roteiristas querem vender a ideia de que uma velocista – nesse caso a Jesse Quick – deixe de salvar a porra de um prédio em chamas por estar preocupada com o anel de noivado da Iris? Ou que a série pode simplesmente parar seu desenvolvimento mitológico de forma brusca pra fazer um crossover musical divertido, porém inútil? Ou que Wally simplesmente tirou uns dias de folga para ficar com sua namorada em outra Terra, enquanto um super vilão ainda desconhecido está prestes a assassinar sua irmã?

São erros pequenos e idiotas que passam despercebidos por muitas pessoas, mas todos atrapalharam a minha imersão no episódio, ou levaram a problemas ainda maiores dentro do show. E eu já deixei avisado que era tudo sobre consequências negativas e decisões idiotas, não é? Pense de novo na ausência do Wally em um momento decisivo e também relembre o tamanho do sofrimento que Barry sentiu durante a temporada, tentando carregar o mundo sozinho nas costas. Os roteiros insistem em colocar um protagonista sobrecarregado falando que precisa fazer as coisas sozinho, enquanto o show possui uma gama gigantesca de ajudantes no grupo que poderiam estar lá pra ajudar.

Arrow estava seguindo pelo mesmo caminho na sua quarta temporada, mas não só aprendeu como separou boa parte do quinto ano pra mostrar que parte da força de um herói está na confiança em seus amigos. Vários roteiristas trabalham em ambas séries e deveriam ter guardado essa lição, porém preferiram insistir em um única frase que conseguiu afundar Flash: “ninguém deve sofrer pelo meus erros”. O peso desses arrependimentos funcionam como uma âncora que exclui a leveza da série e o 21º episódio comprova justamente isso ao retirar as memórias de Barry, entregando um episódio bem roteirizado e verdadeiramente divertido. A própria série parece compreender seus erros, mas não faz nada pra mudar.

Com isso, Barry e seus amigos mergulharam em uma viagem dramática, sombria e completamente oposta a proposta divertida e colorida que nos foi apresentada na primeira temporada. A segunda temporada fez essa transição de forma decente, porém Andrew Kreisberg e Greg Berlanti esqueceram de lembrar os roteiristas que ninguém ali está fazendo um daqueles dramas minimalistas que vai ser premiado. Mais do que isso, não perceberam que os mesmos não estão preparados para fazer esse trabalho, resultado em uma novela mexicana estilo SBT, com efeitos especiais do nível da Record. Convenhamos que Flash também não precisa tentar ser grandioso sem ter dinheiro pra tanto, porque a única coisa que vai passar na telinha é aquela bagunça visual que chamaram de luta entre macacos gigantes…

Pra piorar, Flash insiste em ampliar ainda mais a quantidade de personagens sem importância narrativa ou desenvolvimento, esquecendo que seu próprio protagonista está atolado nessa situação há muito tempo. Além de lidar com sofrimentos e desconfianças muito parecidos entre as temporadas, Barry não evolui e muito menos aprende com seus próprios erros. A culpa não é da boa atuação de Grant Gustin (Glee) e sim dos roteiristas. No penúltimo episódio, por exemplo, o herói decide viajar no tempo (de novo…) pra pedir ajuda a Leonard Snart com a desculpa de que faria de tudo para salvar Iris, inclusive mudar a porra da linha temporal. Ele fez a mesma coisa pra curar o seu próprio luto, conviveu com as consequências do Flashpoint e, mesmo assim, estava disposto a fazer a mesma coisa outra vez. Em outras palavras, não aprendeu nadica de nada com sua própria trajetória.

E não pense que só ele sofre com isso. Cisco (Carlos Valdes) viveu seu momento de luto no começo da temporada e passou a usar seus poderes com Deus Ex Machina quando necessário, mas no fim das contas continua sendo apenas um ótimo alivio cômico sem importância narrativa a longo prazo. Únicas personagens femininas recorrentes, Caitilin (Danielle Panabaker) e Iris (Candice Patton) também estão presas no fato de precisarem ter suas tramas paralelas ligadas a ciência ou a algum homem. A segunda falhou miseravelmente em quase todas as tentativas de crescer como jornalista, enquanto a segunda tem um potencial arco de redescoberta que pode mudar seu destino pra melhor.

Wally West (Keiynan Lonsdale) está ali fazendo figuração, Jesse Quick (Violett Beane) é só um rostinho bonito, Jay Garrick (John Wesley Shipp) brota quando é necessário e Tom Felton (Draco Malfoy em Harry Potter) é uma adição bem meia-boca. Joe é o único que se salva nessa confusão toda por ser humano, honesto consigo mesmo. A atuação de Jesse L. Martin (Smash) consegue fazer o mínimo ao misturar drama, humor, paternidade e heroísmo sem cair na chatice.

Esse é um pequeno ponto positivo que chega pra preparar o terreno pro golpe final: o maior problema que Flash vem enfrentando é a ausência quase completa do heroísmo. A série deixou de lado o velocista escarlate maroto, que salva cidadãos comuns de incêndios e acidente de carro, pra dar lugar a um sujeito devastado pelo luto. Falta o altruísmo que deveria movimentar todos os heróis. O Flash que a série está desenvolvendo não está disposto a dar sua vida pela cidade, porém faz qualquer cagada para salvar o seu ego ou seu relacionamento com Iris. É um herói que se tornou egoísta por causa do peso da sua consciência.

A season finale tentou guardar uma surpresa em relação as reviravoltas principais e estava indo muito bem até os últimos sete minutos. E o motivo da falha é justamente essa mesma falta de heroísmo. Por um momento até pareceu que a decisão do Barry era voltada para salvar a cidade, mas ele só precisou de uma fala pra mostrar que estava fazendo tudo por pura penitência. Mais uma temporada de Flash se encerra com o protagonista carregando a culpa do mundo (literalmente) nas costas. Eu já posso prever que os dois primeiros episódios da quarta temporada vão focar em salvar o Barry da Força de Aceleração, levando ele pra mais um martírio de culpa e castigo.

A conclusão de toda essa sessão de descarrego é que a terceira temporada de Flash errou muito mais do que acertou, entregando uma sequência de episódios decepcionantes. Apesar de ter apenas três anos de exibição, a série está completamente desgastada por culpa das decisões bizarras de seus roteiristas. A esperança é que o nosso querido velocista escarlate siga o mesmo caminho de Oliver Queen e encontre seu rumo. Porém ela precisa fazer isso o mais rápido possível…


OBS 1: Kevin Smith (Pagando Bem, Que Mal Tem?) dirigiu um dos melhores episódios da temporada, mas eu ainda me pergunto porque não deixam o carra dirigir um episódio mais leve, com a cara dele.

OBS 2: O Flash derrotou Savitar vibrando para dentro de sua armadura, Alguém disposto a me explicar porque ele não fez isso, sei lá, desde que descobriu que tinha um ser humano lá?


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