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Séries

Séries: Broadchurch (3ª Temporada)

27 de abril de 2017 - 11:01 - Flávio Pizzol

Um encerramento regado a tabus e passados dolorosos


Eu tenho uma queda pelas séries policiais britânicas desde quando mergulhei nesse universo televisivo. Talvez isso não faça pleno sentido, mas a quantidade reduzida de episódios, os personagens realmente complexos e o foco em histórias mais fortes preenchem um espaço da mente que clama por programas inteligentes. Não consigo (nem quero) tirar as séries americanas da minha vida, mas sempre fico mais ansioso para os novos episódios de Luther, Sherlock, Broadchurch e tantas outras opções. Em contrapartida, essas novas temporadas costumam demorar muito mais para finalmente estrear.

Depois de um remake americano cancelado e uma pausa de aproximadamente dois anos entre segundo e terceiro ano, o veterano roteirista Chris Chibnall (Law & Order: UK, Camelot e Doctor Who) encerrou sua principal obra com foco em duas narrativas paralelas: um caso de estupro que choca a cidade e o luto da família Latimer.

A investigação conduzida pelos detetives Hardy e Miller (em ótima sintonia mais uma vez) fica em primeiro plano desde o primeiro episódio, incluindo uma sufocante cena de abertura que envolve Trish Winterman (a vítima) e os primeiros exames de corpo delito. É a forma perfeita de traçar o tom da temporada e relembrar o público habitual que Broadchurch gosta de explorar momentos tensos e dolorosos, mesmo quando o foco do roteiro está na simples preparação de um tabuleiro com todos os suspeitos.

As revelações de pequenas pistas e possíveis culpados ocupam boa parte dos episódios assim como acontece na maioria dos roteiros policiais, mas Chibnall sabe como transformar tudo em uma mera desculpa para inserir temas complexos dentro da vida de moradores, vítimas e até policiais responsáveis. Dessa vez, os alvos são estupro, violência doméstica, traição, obsessão, vazamento de fotos íntimas, responsabilidade jornalística e até tentativa de suicídio. Nesse caso, pensar em um paralelo com 13 Reasons Why não seria nenhum exagero, considerando que Broadchurch atinge seus melhores momentos justamente quando as vítimas descrevem como sentiram culpa, ódio e vontade de não estar no seu próprio corpo após o crime.

Enquanto isso, a família Latimer continua tentando encontrar paz após o assassinato do seu filho e a posterior absolvição de (spoiler!) Joe Miller. Mark escreveu um livro sem nenhum sucesso, enquanto sua mulher tem se dedicado a ajudar outras pessoas traumatizadas como a própria Trish. Fica a impressão de que a narrativa principal tinha força para ocupar a trama inteira, mas eu entendo a necessidade de realmente concluir toda essa trama que começou lá na primeira temporada. Como aspectos positivos, Beth funciona como o suporte positivo que 13 Reasons não apresenta ao mesmo tempo em que seu diálogo final com Mark já pode ser considerado um dos mais honestos sobre amor, separação e sofrimento. Palmas para a série!

As atuações também se destacam quando seus respectivos personagens são colocados nos ápices dramáticos. David Tennant (Jessica Jones) assume sua faceta de Liam Neeson quando precisa proteger a filha, Olivia Colman (O Lagosta) entrega uma mistura entre emoção e força cada vez maior, Jodie Whittaker (Black Mirror) tem potencial para emocionar qualquer coração de pedra e Andrew Buchan (O Garoto de Liverpool) brilha nas cenas intimistas de Mark. Além disso, Julie Hesmondhalgh (Happy Valley) rouba quase todos os holofotes com a representação dos dramas – mais do que pesados – vividos por Trish.

A busca pelo culpado pode acabar em segundo plano dentro de todo esse contexto necessário e doloroso, porém mais uma vez o roteiro não decepciona na hora da resolução. As peças vão se encaixando da melhor forma possível e, mesmo quando o espectador pensa que compreendeu o papel de cada acusado, o roteiro ainda guarda alguma surpresa para os finalmente. Como aconteceu em todas as temporadas, as escolhas fazem sentido dentro da trama construída, surpreendem e podem gerar discussões ainda maiores nesse caso específico.

O resultado é uma conclusão digna para uma série pesada, surpreendente e necessária. Eu não sabia até hoje que essa seria a última temporada do programa, mas fiquei feliz por ver Broadchurch concluir todas as tramas de forma satisfatória e comprovar (mais uma vez) que sabe se atualizar sem nenhum problema, mudando tanto o formato quanto os assuntos discutidos de acordo com o momento. Depois de oito episódios dolorosos e quase impecáveis, a verdade é que Broadchurch vai deixar saudades, porque não tem nada melhor que um roteiro bem amarrado, uma direção sabe extrair tensão de momentos cotidianos e um elenco afiado.