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Séries

Séries: BoJack Horseman (4ª Temporada)

(Ou a melancólica vida de um ex-astro de cinema em crise existencial)

21 de setembro de 2017 - 09:00 - Flávio Pizzol
(Sim, esse texto pode ter alguns spoilers animais.)

 

Eu já falei em alguma das críticas anteriores de BoJack Horseman que a animação criada por Raphael Bob-Waksberg (Uma Aventura LEGO 2) tende a ficar cada vez melhor, porque tanto os envolvidos na produção, quanto o público vão se acostumando com aquele universo antropomórfico, sarcástico, melancólico e moralmente errado. Hoje, na quarta temporada, vejo que isso continua sendo verdade absoluta dentro de uma das produções mais subversivas e adultas da televisão em geral. Principalmente quando o novo ano deixa claro que nada vai mudar – e nem deve.

 

A série ainda foca (e destila sem piedade) todo o seu humor negro na versão deturpada de Hollywood, onde humanos e animais convivem em busca de fama, felicidade e um pedacinho do sonho americano. BoJack Horseman é um ator equino que conseguiu tudo isso por alguns instantes, mas mergulhou em uma viagem de “autoconhecimento” após o cancelamento do seu programa de televisão. Nos últimos instantes da terceira temporada, suas decisões erradas culminaram no isolamento de quase um ano que dá o pontapé inicial para os novos episódios, preparando o terreno para mais doze episódios sobre solidão, paternidade e família.

 

 

Apesar de tudo girar em torno dele, esse quarto começa curiosamente com um episódio – o único até onde eu me lembro – sem a participação do protagonista, e isso não representa nenhum problema porque todos os personagens criados por Waksbergs são extremamente ricos. Assim como BoJack transita entre a solidariedade de quem permite que Todd more no seu sofá por tantos anos e a tristeza de perceber que afasta todos por sua própria escolha, a maioria dos coadjuvantes – incluindo os inéditos – possui personalidades e passam por discussões complexas: Todd reflete sobre sua assexualidade; Mr. Peanutbutter se envolve em uma disputa política que ignora a democracia; Diane manifesta sua visão sobre empoderamento feminino (o episódio das armas está entre as melhores coisas desse ano); a mãe de BoJack sofre por causa do machismo e da demência; e Hollyhock precisa lidar com o preconceito em relação ao seu peso. E isso é só a ponta de um iceberg que ainda envolve tiroteios em massa, jornalismo desonesto, porte de armas nos EUA, alcoolismo, depressão e a já citada paternidade.

 

O interessante é que, ao contrário do ano anterior, essa temporada conseguiu usar as diferentes relações entre pais e filhos como um guia narrativo que construiu um desenvolvimento bastante harmonioso e contínuo. As sementes foram plantadas nos primeiros episódios, o desenvolvimento se manteve relacionado de alguma forma a questões familiares (mesmo quando se concentrou no casamento de Diane e Mr. Peanutbutter) e as consequências foram brilhantemente resolvidas no último ato, incluindo até um plot twist inesperado. Inclusive, as tramas paralelas também funcionam igualmente e chegam a dar protagonismos muito bem-vindos para Princess Carolyn – em mais uma trama sobre pais e filhos – e quase todos os outros supostos coadjuvantes.

 

 

Pra variar, o elenco de dubladores acompanha a genialidade dos textos com perfeição, passando tanto pelos fixos Will Arnett (LEGO Batman: O Filme), Amy Sedaris (Minha Vida de Abobrinha), Alison Brie (Community), Aaron Paul (Breaking Bad) e Paul F. Tompkins (Sangue Negro), quanto pelos típicos convidados especiais. Seguindo um costume que acompanha a série desde o começo, a Netflix consegue reunir, em pequenas participações, atores do calibre de J.K. Simmons (Whiplash), Lake Bell (Horas de Desespero), Jessica Biel (Hitchcock), Kristen Bell (Frozen – Uma Aventura Congelante), Andre Braugher (Brooklyn 9-9), Rami Malek (Mr. Robot), Paul Giamatti (Billions), Marc Jacobs (Zoolander 2), Lin-Manuel Miranda (Moana: Um Mar de Aventuras), Felicity Huffman (American Crime) e Zach Braff (Batalha Incerta). Muito deles zoam seus próprios egos ou o mercado, e dão continuidade para as intocáveis piadas cinematográficas.

 

Outro elemento que merece ser mantido é a estruturação ousada de, pelo menos, metade da temporada de BoJack Horseman. Alguns são meros episódios de sitcom divertidos e tal, enquanto outros merecem ser eternizados e revisitados constantemente por sua genialidade. Essa última leva tem alguns desses que merecem ser discutidos individualmente como peça audiovisual e dentro de um contexto social muito maior, sendo que esses toques de mestre vão desde a reunião de linhas temporais distintas em uma mesma mise-en-scène até uma narrativa iniciada no futuro – concluída com uma reviravolta daquelas bem tristes – que me lembrou muito How I Met your Mother. O penúltimo episódio desse quarto ano ainda brinda o público com uma viagem para o passado que acrescenta muitas camadas à mãe do protagonista, discute machismo e ainda representa o funcionamento da mente de Beatrice através dos tilts em certos objetos e ausência de certos rostos. São 26 minutos de uma riqueza tão grande que faz valer todo o tempo investido no show.

 

Pra completar o rio de elogios, a série ainda continua misturando características humanas e animais em gags hilárias – a valsa de debutante que se transforma em uma prova de hipismo é genial – e brincando com todos os estilos e técnicas de animação possíveis. Eu nem tenho capacidade de listar tudo, mas preciso deixar clara mais essa marca de criatividade exibida por BoJack Horseman. Vide a sequência, composta por ilustrações em giz de gera, onde ele resume como resolveu o mistério do DNA de Hollyhock para seus pais adotivos, aproveitando que o público já conhecia todo o conhecia todo o contexto para construir sua piada.

 

 

A única que evolui frequentemente de uma temporada pra outra é a capacidade que Waksberg e sua equipe têm de deixar a série cada vez mais complexa e dramática, sem perder as risadas arrancadas através de críticas atuais, humor negro e tiradas sarcásticas. Alguns temas certamente começaram a sofrer com a repetição, apresentando pequenos desgastes, porém o pacote completo de BoJack Horseman é muito mais que isso. O universo de Hollywoo – sem a última letra mesmo – está repleto de possibilidades e personagens verdadeiramente ricos (e palpáveis para qualquer pessoa do universo) que podem nos levar para viagens metafóricas, melancólicas e divertidas por dentro da mente humana. Por mais que nosso guia seja um ex-astro de cinema alcoólatra e depressivo, a série é sobre todos nós e a quarta temporada pode ter atingido seu ápice nesse aspecto.

 


OBS 1: Como se não fosse suficiente, a série tem algumas frases que merecem ser enquadradas (ou citadas na observação desse post).

 

” – This isn’t an us-ocracy, it’s a dem-ocracy. So let’s ask dem what they think.” (Mr. Peanutbutter explicando o conceito de democracia).

 

” – That’s a terrible thing to say to a baby!” (Todd reagindo ao fato de todos falarem que Hollyhock parece com BoJack).

 

” – What are my constituents supposed to do, not compliment random women on the street because they might be carrying a gun? We cannot allow our lives to be dictated by that kind of fear!” (Senador americano comentando o medo sentido pelos homens quando as mulheres decidem andar armadas para evitar abusos).

 

” – Do you know how much s— you throw over the side of your deck? Beer bottles! Lit cigarettes! Scripts where the lead is female!” (Felicity Huffman escancarando o motivo da falta de oportunidades das mulheres em Hollywood).

 

” – As Charles Lindbergh would say, sometimes you fly an airplane and sometimes you lose a baby. In this case, you didn’t fly the airplane.” (Médico exemplificando jeito mais sutil de dar uma notícia ruim).

 

” – Stop making books your friends. Reading does nothing for young women but build their brains, taking valuable resources away from their breasts and hips.” (Avô de BoJack exemplificando o machismo humano).

 

” – Now Entering California. Hippies Welcome! Gays… Not Yet.” (Placa de entrada para a Califórnia).

 

” – It is literally the worst part of everything it’s in. It’s like the Jared Leto of fruits!” (Hollyhock sobre a quantidade exagerada de melão na salada de frutas).